sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sutis sentidos



Existe muita gente; e existem pessoas. Existem muitos sentidos e existe algum por quê. O que a gente sabe é que gente é para brilhar. Em todo sentido. Obrigada, Ana. venha com a gente.

ps - tela da série "Mulheres a...mando" de Zélia Evangelista, exposta no congresso Em todo sentido.

Nome: Ana Maria
Email: anaguadagnin@ig.com.br
Assunto: depoimento
Mensagem: Nao participei das oficinas do congresso mas estive no local do evento onde assisti do lado de fora algumas oficinas e degustei algumas coisas.
Sentimento quando saí de lá:
pela primeira vez depois de quase 2 anos me senti de posse de mim mesma, me senti inserida no real, me senti inteira.
Acho que foi o que eu senti transpirar no ambiente.Foi muito bom.Obrigada.Continuem

PAIS - III CAP.

Hoje a temporada "PAIS" aproveita para apresentar Maggy Matos, produtora cultural do clube Quase-ser-tão. Participante ativa dos eventos, contribui sempre com sua inteligência, uma erudição ímpar e generosidade irretocável. Não se percam de Maggy.



UM TIPO DE PAI
- visão de dentro da obra de Balzac: “Estudo dos costumes – Cenas da Vida Privada”
Da Comédia Humana (1845)
A aprendizagem da vida social na Paris do século XIX
O PAI GORIOT

Por Maggy Matos

A obra é um cruzamento de intrigas e personagens.
Destacaremos dois deles: o pai Goriot e o jovem Eugène.
Eugéne de Rastignac, estudante de Direito, de poucas posses, muito ambicioso, hospeda-se na pensão Vauquer, instituição burguesa e decadente. Aí conhece o velho solitário Goriot, que diz ter duas filhas: Delphine e Anastasie, que o visitam de vez em quando e para as quais ele deu a melhor formação intelectual que o dinheiro podia comprar.
As duas filhas são grandes exploradoras do pai, tendo deixado-o na mais completa penúria. O amor incondicional de Goriot por elas faz com que ele não perceba que as filhas não o amam com a mesma intensidade.
Rastignac vive com sonhos e desejos de relacionar-se com a aristocracia. Por isto recebe propostas sempre criminosas dos que percebem sua ambição, mas ele as repudia.
Em dado momento, ele acaba por envolver-se com Delphine e, por esta razão, aproxima-se mais do pai Goriot. Aos poucos, ele toma consciência da forma desumana com que as filhas tratavam o pai e sente compaixão, a ponto de criar-se um envolvimento afetivo entre ambos.
Goriot adoece e é socorrido por Rastignac.
Na hora de sua morte, Goriot da-se conta de que está esquecido pelas filhas, que o abandonaram.
Anastasie, dias antes, ainda aparece para pedir dinheiro ao pai, pela última vez.
Cabe a Rastignac tomar todas as providências, e as filhas não comparecem ao enterro do velho pai.
Depois dessa experiência, Eugène Rastignac considera-se pronto para enfrentar uma sociedade desumana.
O pai Goriot é um livro sombrio. O cerne da obra se encontra tanto nos dramas pessoais, quanto no jogo das relações humanas.
Balzac trata da paz conjugal, familiar, das cenas da vida privada, enfim, do cotidiano, em suas obras.
Ao ler Pai Goriot, podemos concluir que as questões expostas são de todos os tempos.

Presentes no congresso Em todo sentido: a artista plástica Zélia Evangelista e seu marido Fernando, e Maggy Matos.



Honoré de Balzac é francês, nascido em Tours a 20 de maio de 1799 e falecido em Paris a 18 de agosto de 1850 destaca-se entre os maiores romancistas do mundo. Destaca-se também por uma vida notável; teve sempre frágil saúde; conheceu a polonesa Eveline Hanska com quem manteve interessante correspondência por muitos anos, casando-se com ela poucos meses antes de morrer. Faz parte do grupo ‘romântico’ mas sua obra firma o chamado ‘realismo’ na literatura. Entre muitas obras primas, A COMÉDIA HUMANA, uma imensa coleção de trabalhos, trata da vida burguesa com apuro e refinada crítica. São oitenta e oito obras (planejada para ter cento e trinta e sete), e mais de dois mil e quinhentos personagens. Balzac referia-se a si mesmo como historiador de costumes e assim introduziu na literatura assuntos diversos e originais como as profissões, as classes, o sistema de transporte interurbano na França, o processo da tipografia, o jornalismo nascente, a rotina dos cartórios e dos escritórios de advocacia (ele era formado em direito), os comerciantes e suas listas de clientes e fornecedores, o sistema de descontos de letras, a confecção de perfumes, atas de concordatas, montagem de processos de falências etc. Balzac é inesgotável, mas monotonia e redundância não se encontram nunca. Tratou também da luta de classes (seu romance póstumo Os Camponeses contém, pela primeira vez na literatura, a palavra "comunismo"), do espiritismo, dos meandros da política, do misticismo, do homossexualismo, etc. Para Otto Maria Carpeaux, o gênero literário romance divide-se em antes e depois de Balzac. Diremos, enfim, que Balzac é imperdível, aproveitando para indicar um filme quase perfeito chamado “Balzac e a costureirinha chinesa”, baseado no livro homônimo de Dai Sijie, escritor francês de origem chinesa, que também escreveu o roteiro e dirigiu o filme, e certamente demonstra o impacto que Honoré de Balzac pode causar em nossas vidas, descobrindo-lhe o imprevisto sentido.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

De simples toques

Atentos a todo sentido, mostramos a vocês um pouco mais do congresso Em todo sentido, e repetimos com Walt Withman, o poeta amado por todos os poetas: “O que pode haver de menor ou maior que um toque”?
Foi assim por um toque que ficamos todos bem juntos. E foi tão bom que queremos mais:


Da leveza do teatro de Cristina e Rodrigo:

Da doçura da dança de Daniela:

Da imorredora esperança de D. Rosita:

Da beleza feliz de nossas garçonetes Sarah e Clarissa:


Em todo sentido, vamos nós.... até....



quarta-feira, 29 de julho de 2009

PAIS - II CAP.

Em nossa primeira temporada PAIS, vamos homenagear hoje um belo escritor mineiro chamado BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS.

José
"Antes da madrugada, quando tudo - casa, árvore, memória - flutua entre poeira de neblina, prata e frio, José se enveredava pela floresta para o corte da madeira. Ao ritmo do cajado e das sandálias, entre ruídos de outono e gravetos, seu espírito vinha se debruçar em seus lábios e resmungar matinas. Preces que atravessando pássaros acordavam cores no sono do horizonte. Josédespertava o mundo.
Se resinas escorregavam das achas, cantando aromas, José verdejava em orações. Se fibras do lenho insinuavam desenhos de planícies e distâncias, ele se detinha para melhor conter o encantamento. E ao contemplar as mãos ásperas pelo martelo, plaina, goiva, José se via forte para servir em trabalho.
Assim manso, a paz rabiscava em seu rosto breves rugas em doçura e fortaleza. Ungido pelo suor, José se recolhia em solitário silêncio para melhor adotar o destino.
Um dia, enquanto repousava entre sombra e cansaço, pousou-lhe na mão, trazida sem acaso, uma semente grávida - ventre com fruto e futruo. José, ao se refazer do anúncio, soube haver um pai anterior a todo nascimento. Nesse meio-dia brotou em seu cajado um ramo de lírios, quase que preludiando posteriores admirações."

Notícias e Novidades

Aconteceu no último domingo, dia 26/07/09, a quinta edição do campeonato de videogames Street Fighter MMs (Mirror Matches), conforme anunciado. Com o sucesso de sempre, os jogos começaram às 14 hs e adentraram a noite. O vencedor da etapa foi João Penna, que recebeu o troféu do personagem da edição.
O outro evento do dia – início dos trabalhos de literatura sob a temática “Os pecados capitais”, conforme comunicação direta feita aos interessados que se apresentaram-, ficou por conta das novidades. Em breve, mais exatamente no próximo mês de agosto, inauguraremos o espaço físico do clube Quase-Ser-tão, concretizando assim, literalmente, a existência de um clube, espaço de educação pelas artes, por todos, para todos e com todos. Portanto, aguardem! Começaremos com uma agenda muito legal, com várias atividades para oferecer.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Tempo da delicadeza


O clima hoje é fresco. Brisa suave, noite de estrelas, lua um pouco tímida. Bom humor, serenidade, amor no ar... Clima próprio de um lindo, atrevido, saudoso e maluco poeta : Paulo Leminski. É todo pra ele nosso pensar de hoje.

"Basta um instante. E você tem amor bastante." (Paulo Leminski)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

GENTE QUE NÃO SE RENDE

ZÉLIA EVANGELISTA DE OLIVEIRA é uma mulher moderna. Construiu-se nas trilhas da vida contemporânea. Não recuou nem se paralisou. Cumpriu os percursos que lhe foram impostos mas não desiste de novas travessias. É economista pela universidade, mãe por opção, artista plástica por gosto. Gente por vocação. Para alegria do clube Quase-ser-tão esteve presente no congresso 'Em todo sentido' com seu estudo em telas ‘Mulheres a...mando”, acrescentando cálido brilho à luz que nutriu a todos.

Mulheres que envolvem:


Mulheres que não se escondem:

Mulheres que transbordam:



Zélia, no congresso, na festa junina, na cidade, na fazenda.... sabe quem é!



Para conhecer mais a obra de Zélia, entre em contato conosco pelo email:quasesertao@gmail.com

domingo, 26 de julho de 2009

DE AVÓS




Interrompemos hoje a série PAIS para falar de vovôs. Dentro da tradição cristã, o dia 26 de julho celebra os avós, por ser dia dedicado aos pais de Maria, San’Ana e São Joaquim.

Quando a família mudou-se para a Itália porque o pai ia lecionar Estudos Brasileiros na Universidade de Roma, Chico Buarque de Holanda despediu-se da avó paterna com o seguinte bilhete: “Olhe, vozinha, não se esqueça de mim se quando eu chegar aqui e você já estiver no Céu. Lá mesmo veja, eu sou um cantor do rádio. Francisco.” (in Chico Buarque, Tantas Palavras – Humberto Werneck - Companhia das Letras2006)


Otto Lara Resende, um dos mais interessantes cronistas brasileiros, disse: “Consegui ser avô de minha filha e pai de minha neta, eliminando a intermediação antipática do genro”. (in Farmácia de Pensamentos, Sonia de Aguiar, Relume Dumará, 2000)





Em tempos de desvairada idolatria do descartável, fugaz e imediato o clube Quase-ser-tão usa os avós para chamar atenção para a sabedoria da experiência (sem dizer com isso que todo avô é experiente; pode ser apenas velho, ou nem isso). A expressão latina “USU PERITUS HARIOLO VERACIOR” se traduz por: ‘O experiente é mais fidedigno que o adivinho’. Fedro faz desse pensamento um provérbio relatando a seguinte fábula: “Um homem cujas cabras pariam monstruosos cordeiros com cabeças humanas consultou vários adivinhos que davam explicações discordantes e inacreditáveis ao fenômeno. Decidiu então consultar o velho e astuto Esopo que guardava grande experiência com qualquer tipo de fenômeno natural e que simplesmente aconselhou o dono das cabras a arranjar mulher para seus pastores”. (in Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas – Renzo Tosi, Martins Fontes, 2000)

sábado, 25 de julho de 2009

Estreia da 1ª temporada "PAIS"

QUE HAJA UM PAI. QUE HAJA UM CAMINHO.
COMEÇAREMOS A FALAR DO ASSUNTO “PAIS” ASSIM:

“Querido Pai:
“Perguntaste-me certa vez por que motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube o que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes, em parte porque os pormenores que contribuem ao fundamento deste temor são em demasia para que os possa manter reunidos, nem mesmo pela metade, durante a palestra. E mesmo esta tentativa de responder-te por escrito ficará inconclusa, porque, também ao escrever, o temor e os seus efeitos inibem-me diante de ti, e a magnitude do tema está além de minha memória e compreensão.”
Inicio de CARTA A MEU PAI, uma obra prima a mais de Franz Kafka.

“No deserto de Itabira
A sombra de meu pai
Tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Na era dia nem noite.
Suspiro? Vôo de pássaro?
Porém nada dizia.”
Início do poema VIAGEM NA FAMÍLIA, uma obra prima a mais de Carlos Drummond de Andrade.


Meu pai tinha consciência profunda da inatingível complexidade do ser humano. Mas radicalizou numa simplicidade absoluta quando disse: “A melhor coisa da minha vida é ser pai.” Palavra que suavizou para sempre toda a nossa existência.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Gente grande

Lucas Parma é designer, músico e compositor. Mais? Sim. É poeta, e o clube Quase-Ser-Tão tem o prazer de apresentar. Desfrutem.

Alguém em casa?

Eu estou preso
E você também
Eu vejo sua cabeça dentro do seu cubículo.
Qual é mesmo o seu nome?
Não importa,
Eu apenas estou tentando me manter aquecido.
Mas não queria meus músculos tão imóveis.
Sinto cheiro de domingo.
Há um incenso queimando lentamente,
Enquanto esperamos que anjos pousem ao nosso lado de repente.
Hoje poderia ser um dia da nossa infância,
Com chocolate quente e Beatles na vitrola.
John diz:”Glória ao mestre, nada vai mudar meu mundo”
E Paul: “deixa estar, deixa estar.”
Ringo e Harrison estão lá com seus bigodes.
Quem é quem?
Qual é o seu nome?
Onde está doendo?
Não parece sofrer,
Sua risada é enlouquecedora.
Pra onde eu vou é um único lugar,
Onde não há nem mesmo estações.
Pois nós poderíamos correr por aí no inverno,
Mas você diz que não sente seus ossos,
Mas você gosta de estar em um sonho.
O que é uma pena
Pois acho que você deveria partir agora.
É como estar no fundo,
Então me sento e faço tudo novamente.
Dia após dia.
Então não faço nada,
Apenas me sento e faço tudo novamente.
Há uma demora difícil nisso tudo.
Sinto que falta alguma coisa no seu chapéu.
As pessoas sorriem e sorriem para você.
Mas nunca se está satisfeito.
Nunca ninguém está em casa.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

uma boa dica

"Não se preocupe em ser um gênio e não se preocupe se não for inteligente. Confie mais no trabalho duro, na perseverança e na determinação. O melhor lema para uma longa marcha é "Não resmunge. Aguente". Você tem o futuro nas mãos. Nunca duvide disso. Não se gabe. O menino que se gaba, assim como o homem que se gaba, pouco mais pode fazer. É um zé-ninguém que anuncia a sua própria mercadoria barata. A lata vazia é a que faz mais barulho. Seja honesto. Seja leal. Seja bondoso. Lembre que a coisa mais difícil de conseguir é a faculdade de ser altruísta. Como qualidade, é um dos mais belos atributos da masculinidade. Ame o mar, a sonoridade da praia, os prados amplos. Mantenha-se limpo de corpo e mente". (Sir Frederick Treves, em 2 de setembro de 1903)
Trecho retirado de O LIVRO PERIGOSO PARA GAROTOS - de Conn Iggulden e Hal Iggulden- Editora Record, 2009. É a nossa dica de hoje, uma delícia de leitura. Um toque sutil, muito divertido, para sua qualidade de vida.

domingo, 19 de julho de 2009

Eventos dia 26/07/2009

Neste domingo, dia 26/07 a partir das 14hrs, será realizada a quinta edição do Campeonato de Street Fighter MMs (Mirror Matches). O MMs é um campeonato diferente que está sendo realizado mensalmente desde de março. Nele, os participantes se enfrentam em Mirror Matches, ou seja, todos jogam com um mesmo personagem, que é diferente a cada mês. Para inscrever-se e receber uma cópia do regulamento, envie um email para http://mail.uol.com.br/compose?to=campeonatomm@gmail.com com os seguintes dados: nome, nick, RG, telefone de contato. O valor da inscrição é de R$5,00 por participante, por dia e deve ser acertado no dia do campeonato.

Neste domingo, dia 26/07 a partir das 9:00 hs iniciaremos mais uma atividade literária do Clube de Arte. Faremos uma série de conversações que terão por tema "Os pecados capitais", iniciando pela inveja. A amplitude do tema nos permitirá abrir nossa reflexão para diversas vertentes (por exemplo: moralidade, religião e modernidade; psicologia e moralidade, moralidade e literatura, etc...) A conversação dura cerca de uma hora e servirá de base para uma oficina literária que se segue também por uma hora, depois de um intervalo de trinta minutos. Todos os interessados estão convidados; o programa está preparado para atender a todos, maiores de 12 anos, independentemente de nível cultural ou intimidade com o tema. A inscrição na atividade pode ser feita pelo email quasesertao@gmail.com , o valor é R$20,00, a ser pago na hora da oficina. O local é Rua Minas Novas 38, pilotis. Contaremos com serviço de lanchonete. Se for de seu interesse você poderá seguir e participar do campeonato de Street Fighter e viver um domingão bem diferente.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cruzando fronteiras

Olha aí... de repente, não mais que de repente, Quase-Ser-Tão chega ao Canadá! Arte para todo mundo.


De encontros e descobertas

E continuamos no congresso Em todo sentido,

e seu sapato ainda brinca com o meu,

e tinha uma pedra no meio caminho, ah não, tinha um poema em cima da mesa,


E Garcia Lorca nos entorna no chão,

and while my guitar gently weeps...


Citação da hora:
"Vida e muerte le han faltado a mi vida. De esa indigencia, mi laborioso amor por estas minucias".(J. L. Borges)

Em todo sentido

Há um mês realizamos o congresso Em todo sentido. Trabalho de pessoas que sabem que a vida tem um único sentido. Os amores que a gente faz:
Com os amigos que vêm de longe,
Para dançar com a gente,

Com os amigos que já se foram para bem longe,

E nos deixaram uma grande idéia,

E então... começamos a viver em todos os sentidos. Amanhã tem mais congresso. Até...




terça-feira, 14 de julho de 2009

Boas vindas


Seja bem-vindo ao site do Clube de Arte Quase-Ser-Tão. O clube é um encontro de pessoas que acreditam na potência civilizadora da atividade artística. Movidos por essa convicção nos reunimos para fazer e consumir arte. E educando, nos educamos continuamente.
Aqui se guarda fé na palavra e apreço especial pelo livro, que é a moeda do clube. Tendo a lua como transporte e o infinito como ponto de chegada navegamos os mares da invenção buscando o Ser que sabemos que somos, mas que ainda não sabemos ser.
Promovemos encontros que têm estrutura de saraus, isto é, com ênfase na participação espontânea de todos e na descoberta dos talentos adormecidos ou atrofiados na velocidade estonteante, sem arte, da vida contemporânea. Organizamos reuniões em que membros do clube, e voluntários, oferecem oficinas de diversas atividades artísticas para todos os interessados. Servimos arte para quem ainda não encontrou o artista que habita em si.
O clube Quase-Ser-Tão reconhece muitos mestres, presentes no nosso nome e marca. Guimarães Rosa, o pai. Dom Quixote, ou se preferirem Cervantes, nossa companhia. Clarice Lispector, inspiração. E Fernando Pessoa, nossa provocação.
A LITERATURA E AS OUTRAS ARTES
Toda arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer – falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz “poema sinfônico” fala-se exatamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenômenos verbais dados sem palavras, ou antes, por hieróglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto.
(Álvaro de Campos)

O site do clube é um dos lugares em que nos reunimos para este fazer. Recebemos textos de qualquer natureza: ensaios, críticas, relatos, informações, poemas... etc – sobre os diversos temas artísticos conhecidos e sobre os outros ainda por conhecer. Informamos e comentamos a agenda cultural da cidade. E especialmente, queremos fazer desta reunião on line um trabalho permanente do nosso objetivo de educar nos educando através da arte. Sejam todos muito bem vindos.

Tai Chi Chuan na praça


No próximo domingo, dia 19/07/2009, às 9 horas, nos reuniremos para uma aula de Tai Chi Chuan na Praça da Liberdade, com o Prof. José Vicente. É um convite para a saúde, com harmonia e paz. Não perca!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

PRA QUÊ VOCÊ ESCREVE TANTO?

Não me lembro de onde me veio a pergunta. Lembro do meu susto. Um absurdo. Afinal ninguém se pergunta por que respira. Balbuciei sei lá, preciso escrever, deve ser porque não sei escrever, deve ser para que eu aprenda a escrever.

Estava com raiva, envergonhada como se tivessem arrancado minha roupa, à força. Mas a pergunta imbecil não me saiu da cabeça e comecei a me sentir uma imbecil teimosa. Nesse momento eu soube que sou teimosa e que escrever é uma maneira de me descobrir. Quanto à imbecilidade ainda não consegui descobri-la por inteiro. Então concluo: preciso escrever mais.

Dou-me conta de que minha escrita começa numa pausa. Certo silêncio me move para o papel. Não é qualquer silêncio, é certo. Por exemplo, o silêncio de uma noite de inverno na fazenda do meu pai sob o céu estrelado não me dá vontade de escrever. Dá-me vontade de ficar quieta, bem quieta, deitada na grama úmida, fixando o infinito pontilhado de dourado e ouvindo aquele silêncio sem fim. Só ouvindo. Eu me acabo e ainda tem um céu silente. É mágico: percebo-me no meu limitado ser, e sobra céu. Então compreendo que escrevo quando não encontro nenhum céu sobre mim e preciso assegurá-lo; preciso buscar o silêncio que é maior que eu e que, portanto, dá-me uma medida. Enfim, digo agora que escrevo para assegurar a silente sinfonia infinita de uma noite estrelada. Onde me encontro. Onde está o lugar que eu sou.

Quando escrevo encontro-me no entre palavras, na vírgula, na reticência. Na verdade, eu tropeço nas pausas. Parece ser a pontuação que me segura. Enfim, a pausa me clama, obriga-me a escrever. E a escrita me obriga a pausar. São os silêncios. Eu existo nos intervalos. Somos no entre palavras? Em não ditos?

De fato, escrevo para garantir um “ainda por dizer”. Dizendo doutra maneira: escrevo para buscar outro dizer, ou ainda, para provocar dizeres. Em verdade, digo que escrevo para encontrar o estranho. O outro. O estrangeiro. Portanto, meu escrever exige artifícios; quero fazer armadilhas para pegar os implícitos. Preciso das parábolas. Eis aí: eu preciso das citações. E agora escrevo que minha escrita é colagem de citações. De poucas coisas já não duvido, e não duvido de que quero escrever como quem faz colagens. Explícita colagem: eis a minha escrita. Segurar o outro, marcar o silêncio entre mim e ele, ou noutras palavras, colando-o, ou nos assegurar colando-nos. Simplifico: quero que minha escrita explicite a trama entre mim e o estranho a mim. Que minha escrita amarre dois, pelo menos dois. E assim nos explicite.

Foi nesse momento que me lembrei de Franz Kafka. Lembrei-me da constante inquietação que me causa e, em especial, do meu assombro quando li a reflexão de Kafka sobre um plausível silêncio das sereias. Um desconcerto semelhante ao que senti ouvindo a pergunta: pra que você escreve tanto? Ora, ora, eu nunca havia pensado nisso. Um silêncio das sereias. Franz Kafka é o mestre dos paradoxos e das parábolas, todo mundo o sabe.

E súbito percebo que eu havia escolhido Kafka, o autor das alegorias morais da modernidade e, nesse sentido, o último dos profetas, para epígrafe do meu livro “Ao longo deste sexo – episódio II”:

“Agora as sereias têm uma arma ainda mais fatal do que suas canções, ou seja, o silêncio. E, embora por certo isso jamais tenha acontecido, ainda assim é possível que alguém tenha escapado do canto das sereias. Mas de seu silêncio, certamente, jamais”.

Naquele tempo eu pensava que escrevia sobre sereias. E era verdade: eu estava escrevendo sobre sereias. Mas neste outro momento, o de agora, penso que estava escrevendo também sobre silêncios, quero dizer, escrevia por cima deles. Isso também é verdade.

A obra kafkaniana é singularmente fragmentada. Em grande parte se compõe de trabalhos inconclusos, ou talvez, a inconclusão deva ser pensada como uma conclusão propriamente kafkaniana. Habilidade de construir o fragmentado e a competência para evidenciar o inacabado são, por excelência, características kafkanianas.

O fato é que em sua leitura da aventura de Ulisses, Kafka se deparou, para a minha perplexidade, com o silêncio das sereias. Como se perguntasse: “Se, antes da viagem do herói ninguém havia ouvido as sereias sem sucumbir, se todos sabiam que estes tolos ardis (cera e cordas, muitas cordas) não barravam seus cantos, capazes de atravessar qualquer barreira; e se os marinheiros estavam com os ouvidos tapados, como pode Ulisses1 saber que as sereias cantaram?”. Responde Kafka: não, as sereias não cantaram! Todavia Ulisses estava confiante na sua armadilha boba e com semblante beatífico aproximou-se das sereias, certo de que não seria seduzido. E se acaso o fosse, estaria bem amarrado. Por via das dúvidas, ordenou que o amarrassem mais, caso pedisse para ser solto. Mas, então, diz Kafka, certamente, elas não cantaram. Por que cantariam se não seriam ouvidas, e se caso fossem Ulisses não viria? Assim, cientes da quebra de seu encanto, elas continuaram seus banhos, saltitantes e felizes, mas silentes e, quiçá, indiferentes. Não cantaram! Seja porque a face jubilosa do herói fez com que se esquecessem de cantar (a sedução já se dera); seja porque se certificaram de que, nesse caso, só o silêncio, seduziria.

Pois Ulisses foi seduzido, é certo. Muita corda, muita corda foi necessária, como nos diz a Odisséia. Kafka avança: triunfar sobre o encanto sonoro das sereias contando apenas com a força humana levaria a tamanha auto-exaltação que nenhum poder terrestre ficaria incólume. Ulisses era muito esperto para se arriscar assim. Tão astuto - dizia-se que era capaz de enganar os próprios deuses - que pode ter contado com o silêncio das sereias, e por sua vez, se manter calado. Escutou o que não ouviu: eis a sua verdadeira trapaça. Ou, o que ouviu não deveria ser contado. A trapaça: silêncio sobre o silêncio, o verdadeiro escudo de Ulisses. E, diante do ardiloso Ulisses, a astúcia do silêncio das sereias. Ulisses só continuaria a ser Ulisses - o herói de muitos meios - se vencesse as sereias. E as sereias não foram vencidas, pois, de fato, continuaram a seduzir. Se cantassem e Ulisses resistisse, seria seu fim. Ambos, sereias e Ulisses eram bastante espertos para não permitirem tal desastre. Portanto, elas se calaram. E Ulisses as escutou, ou melhor, não quis ouvir seu silêncio, como diz Kafka. Puro engodo: modo de resguardar o calar das sereias e assim, salvar a ambos. O herói não enganou as sereias, mas engana a nós todos, e assim, salva a si e a nós. Isso tudo é Kafka, num pequeno fragmento de poucas linhas. Coisa de meia página. Ou, quem sabe, isso tudo é meu, sou eu usando Kafka para dizer que escrevo para me calar. E para que outros falem. Esqueçam Ulisses e Kafka e acreditem em mim. Ou não: eu me arrisco: escrevo para que eu me cale.

O silêncio das sereias teria obrigado Ulisses a ouvi-las. Muitas armadilhas estão em todo dizer; um dizer põe o não dito; tudo perigoso, mas justo e necessário para que se faça silêncio: certo silêncio é o único espaço onde dois podem coexistir. Enfim, um dizer implica um calar.

Quem escreve, e quem que lê, sabe: importa é a entrelinha. Qualquer autor escreve com a profunda esperança de que o leitor leia mais - muito mais – do que ele escreveu. Se acharem melhor, o autor escreve na esperança de que o leitor continue onde ele se calou. Pois se não for assim, o leitor não interessa absolutamente. Por seu lado, o leitor está com o autor apenas enquanto dura a certeza de que terá mais, muito mais, a ler. Este é o autor preferido: sua leitura não termina. Assim relemos e lemos outra vez Kafka, ou Guimarães Rosa. E Homero. Ou Shakespeare. Assim eu releio Clarice. O autor não se deixa apanhar; antes, quer capturar o leitor. O mesmo é certo para o bom leitor: fica com o autor que não conta a verdade inteira. Como Ulisses, como as sereias.

Este meu destino parece ter começado lá pelos sete anos, quando aprendi poemas e, neles, ouvi silêncios. Então, agora, de súbito, uma idéia avalanchou sobre minha cabeça: escrevo porque não quero falar. Talvez eu não tenha mesmo nada a dizer. Noutras palavras, escrevo para ouvir algum silêncio. Estarei certa de que haverá mais alguém aqui.

Afinal, não é a sobrevivência de Ulisses – que diz ter ouvido as sereias – que faz com que as sereias (que não ouvimos) nos seduzam?

Magda Campos

CITAÇÃO DA HORA:

“O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.” Rita Apoena.

ps . Conheçam a Rita. Eu indico. www.pequenascoisas.org