segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pés - concorrente

foto: "Pés, queridos pés, por favor me ajudem a caminhar"

NOME: Sofia Soares

Quase-Ser-Tão põe o pé no Sertão...

E a terra...
E o rio...
E as cores...
"E, o que era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo". (...) "Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo". (Riobaldo, Grande Sertão:Veredas, Guimarães Rosa)

E a luz...
E a música....

E a fome...
E tudo é quase tanto... uma coisa é esta, e é outra, mas todos os sentidos de repente explodem... e o sertão vem, e a gente vai, e nele é. É tanto... ainda sem respirar, nem se pode contar... quase sem sentidos... nele desvanecendo...

Literatura e corporalidade - cont. Narciso

Eco e Narciso
Óleo sobre tela de John William Waterhouse (1849/1917).
Data: 1903
Liverpool, Walker Art Gallery

Continuação de 'A MORTE DE NARCISO', de Ovídio, transcriação de Haroldo de Campos

425 – Deseja-se a si próprio, a si mesmo se louva,
Súplice e suplicado, ateia o fogo e arte.
Quantos beijos vazios deu na mentira d’água!
Quantas vezes tentou captar o simulacro
E mergulhou os braços abraçando nada!

430 - Não sabe que está vendo, mas no ver se abrasa:
O que ilude seus olhos mais o açula ao erro.
- Crédulo buscador de um fantasma fugaz!
O que buscas não há: se te afastas, desfaz-se
Esta imagem que colhes é um reflexo: foge,

435 – Não subsiste em si mesma. Vem contigo. Fica
Se estás. Se partes – caso o possas – ela esvai-se.
Nem Ceres – o alimento, nem o sono – paz,
Nada o tira de lá. Prostrado em relva opaca
Contempla as falsas formas sem saciar os olhos.

440 - Por seu olhar se perde. Meio-erguido, os braços
Aos bosques circunstantes agitando, indague:
“Houve, bosques, como esse, outro amor tão cruel?
Sabeis. Destes refúgio a muitos que sofriam
de amor. Houve outro em tantos séculos de vida

445 – vossa memória é longa – que como eu penasse?
Vejo o que amo, mas o que amo e vejo, nunca
Posso tomá-lo, e em tanto erro insisto amando.
O que mais dói porém: não nos separa um mar,
Montes, caminho longo, sólidas muralhas.

domingo, 30 de agosto de 2009

Literatura e corporalidade II

Metamorfoses

Dante Milano

“Sonho maior que o sonho de quem dorme,
Eu vi, de olhos despertos, fabulosas
Metamorfoses, conexões monstruosas
Entre o olhar e a aparência multiforme.
Eu vi o que a luz expele e a sombra engole.
Vi como na água o corpo em si se enrola,
Quebra-se o torso, a perna se descola
E os braços se desmancham na onda mole.
Vi num espelho alguém cujo reflexo
O transformava noutra criatura.
E num leito de amor já vi perplexo
Seios com olhos ! e mudar-se a dura
Nuca em anca, o ombro em joelho, a axila em sexo,
O dorso em coxa, o ventre em fonte pura.

foto de Gregory Colbert - Ashes and Snow

sábado, 29 de agosto de 2009

Literatura - corpos

O trabalho literário acompanhará as demais atividades artísticas do clube Quase-Ser-Tão, a saber: vamos começar por noções da corporalidade. Já anunciamos que faremos uma série de oficinas a partir de textos e diálogos sobre o tema 'Pecados capitais', iniciando com a palavra 'INVEJA'. Esta experiência - a inveja - é, necessariamente, tramada entre OLHARES. Introduzindo o trabalho, vamos publicar, por partes, o belo poema 'A morte de Narciso', de Ovídio.


A MORTE DE NARCISO (Metamorfoses III, 407-510) Ovídio – transcriação de Haroldo de Campos

407 – Fontes sem limo, pura prata em ondas límpidas,
Jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando
Seu rebanho montês, ou gado avulso, acode.


410 – Nem pássaro, nem fera, nem, tombando, um ramo
Perturba a úmida grama que o frescor irriga.
O bosque impede o sol de aquentar esse sítio.
Da caça e do calor exausto, aqui vem dar
Narciso, seduzido pela fonte amena.


415 – Se inclina, vai beber, mas outra sede o toma:
Enquanto bebe o embebe a forma do que vê.
Ama a sombra sem corpo, a imagem, quase-corpo.
Se embevece de si, e no êxtase pasmo,
É um signo marmóreo, uma estátua de Paros.


420 – De bruços, vê dois sóis, astros gêmeos, seus olhos.
Contempla seus cabelos dignos de Apolo
Ou de Baco. Suas faces, seu pescoço branco,
A elegância da boca. A tez, neve e rubor.
No mirar-se, admira o que nele admiram.

Narciso, de Caravaggio

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Amor aos pedaços II

Capítulo 2 - 17/03/08


Eu aqui de novo, só, num bar. Noite. Sexta. Belo Horizonte. Decidida. Diferente da última escrita em bar, em Ouro Preto, quando me senti estranha e me desconhecendo. Ouvia e via as mesas ao lado; agora também vejo e ouço. E tudo é diferente. As conversas são mais interessantes – gente, movimento hippie, movimento anti-manicomial... Impressionante: movimento anti-manicomial em conversa de mesa de bar (isso não é novo). Às vezes temo meu cinismo. Olho para a rua: tempo mais agradável. O engraçado é estar fazendo algo que antes eu jamais faria , tal como o que fiz em Ouro Preto. (eu ouço: armas, transporte, fronteira, conflito na América do Sul... é interessante a conversa... e há mais, sobre Deus!, eu rio). [minha filha está tomando cerveja com a turma da faculdade e novamente se esqueceu do que me prometeu. Acho que isso é normal... filha se esquecer do que, por acaso, prometeu para a mãe]. Gosto desse bar (ouço: cerveja freudiana... rio, dizem freudiano como algo que se opõe a sério, rio e me lembro de Pedro que um dia me pediu para tentar escapar do cinismo, talvez eu não tenha conseguido,gosto desse bar...) e sei que estou enrolando para dizer o que estou fazendo aqui, o que estou fazendo de tão diferente, e, ao mesmo tempo, tão igual... afinal estou novamente só, num bar (na rua, no cinema, na cidade, na fazenda, no congresso, na vida...). Ouço: mas aquele presidente da Venezuela vai fuder com tudo... Rio, quase gargalho, gosto desse bar. Trabalhei pra caramba - e não pra variar – é, parece que toda mulher da minha geração trabalha pra caramba, e todas elas se orgulham disso, menos eu... Meu trabalho é muito difícil, e essa admissão é nova, é a primeira vez que eu admito isso; meu trabalho é muito difícil. Wolf vai se assustar quando eu o disser, mas vai gostar, no fundo a diferença entre Wolf e os outros homens é essa. Ele tem fundo. Também é diferente que eu esteja aqui esperando alguém, isso não direi a Wolf, isso ele não entenderia, tampouco a verdade que está neste alguém a quem espero, espero porque se parece com ele, Wolf. Ou, pelo menos, deixa que eu o imagine como Wolf. Ahhh. Muito diferente isso de vir a um bar esperar alguém, e mais diferente ainda representar a mentira. Uma combinada mentira. Uhhh. Quanta verdade nisso. Vou acabar amando-o. Isso merece reflexão. Gosto desse bar! Gosto de mim. E este escrito fará parte do meu próximo livro, acabo de decidir . Reflexão: é bom estar só com um livro. Melhor é decidir que não vou falar sobre aquele a quem espero. Surpresa é vê-lo inesperadamente chegando.

Magda Maria Campos Pinto

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Onde está Clarice?

CLARICE LISPECTOR É MUSA DO CLUBE DE ARTE QUASE-SER-TÃO. COMO JÁ DISSEMOS ELA ESTÁ EM NOSSA DEFINIÇÃO. HOJE, COMEÇAMOS A APRENDER COM ELA.

"Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que pingam e são grossos de sangue.
Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando."

Clarice Lispector

VIK MUNIZ - Imperdível!

"ACREDITO QUE NEM TODAS AS PESSOAS SEJAM ARTISTAS, MAS TODAS QUE DESEJAREM SER POSSUEM TUDO O QUE O MUNDO TEM A OFERECER PARA QUE, UM DIA, ELAS SE TORNEM; SE EU PUDE, QUALQUER UM PODE." Vik Muniz

A exposição de Vik Muniz continua em Belo Horizonte, no museu Inimá de Paula. Mais (!?) que um artista genial , conheça uma pessoa, gente, humana, simpática, 'tudo junto ao mesmo tempo' ... gente como a gente. Gente que anda...


Um Freud de chocolate....


Um homem em paz...

Declaração de amor... aos poucos. II



PÉROLAS AOS POUCOS

Eu jogo pérolas aos poucos...

ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas...

pro céu
Pra quem, pra você, pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar,
E o cego amor entrego ao deus dará,
Solto nas notas da canção,
Aberta a qualquer coração.
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão,
Grão de areia,
O sol se desfaz na concha escura,
Lua cheia,
O tempo se apura,
Maré cheia.
A doença traz a dor e a cura.
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura.


Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar,
eu quero ver o fogo se queimar,
e até no breu reconhecer,
a flor que o acaso nos dá.
Eu jogo pérolas ao deus dará.


José Miguel Wisnik é músico, poeta, ensaista, professor de literatura, é mestre... é... depois a gente conta mais.


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Declaração de amor... aos poucos.

Para José Miguel Wisnik:

Teca


Magda Maria Campos Pinto


Teca ficava horas olhando para a TV, sentindo a presença e a alegria feliz do seu pai ao seu lado, e ela ao lado dele, tentando compreender aqueles homens que corriam para uma bola, a chutavam e se abraçavam de um modo que ela não via senão ali. Numa tarde de domingo, ela pensou que seu pai só gostava dela. Das outras, gostava por tabela. Tabela era uma palavra daquele jogo, e quando Teca soube o que era – um para o outro, esse outro para o um – confundiu-se tanto que resolveu não pensar por muito tempo, até poder gostar novamente de seu pai, fora daquele jogo.
Então, olhou para a bola e a encontrou alucinada: obedecia aos homens e os seguia. Submetia-se. E Teca ficava encantada. Mas..., de repente, a bola se rebelava e fugia, definitivamente escapava, e então, era a vez dos homens endoidecerem. O fascínio de Teca crescia. Havia um homem diferente, que solitário e aflito não corria para a bola, desesperadamente tentava segura-la com as mãos e quando o conseguia mandava-a embora novamente. Impossível entender. Entretanto, Teca gostava mesmo assim, e tramando tramas entre bolas e homens, tecia seu próprio jogo. Foi o tempo em que os deuses vestiam camisa amarela, calções azuis,e eram musculosos, alegres e divertidos.
Despiram-se os deuses. E Teca cismou como jogo de xadrez.
Mas um homem desolado por uma bola não alcançada, aqueles homens aqueles homens correndo correndo daquele jeito daquele jeito com tanta franqueza com tanta franqueza num lençol verde, por vezes a fazem sonhar apolos,heitores, teseus... aaah,isso eles fazem.

O que é que Wisnik tem a ver com isso?? Depois a gente conta, aos poucos...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Arte e corporalidade

Primeira reflexão:
Eu e você,
Nós.
Você comigo,
Nós.
Eu em você,
Nós.
Você em mim,
Nós.
Dois.

Foto de Gregory Colbert (se ainda não o conhece, corra...)

Tai Chi Chuan na Liberdade

No próximo domingo, dia 30/08/2009, às 9:00 da manhã haverá aulão de Tai Chi Chuan na praça da Liberdade, com o professor José Vicente. Boa oportunidade para descobrir horizontes...


A maravilhosa cerâmica de Adel Souki

A preciosa dica de hoje vem de Rosane Palha, ceramista, membro do Quase-Ser-Tão:

A galeria Arlinda Correa Lima, do Palácio das Artes, recebe a exposição “Mil moradas e uma” da artista plástica Adel Souki formada pela Escola Guignard. Pequenos quadrados de argila servem como espaço para a recriação da intimidade e da casa dos participantes que confeccionaram os objetos. Dia 25/08 (hoje, portanto) às 19h, Souki receberá o público para um bate-papo e o lançamento do catálogo da exposição no Teatro João Ceschiatti, também com entrada franca.
Este trabalho é fruto do desenvolvimento do projeto social “Valores de Minas”, desenvolvido entre 2005 e 2006 por Adel com adolescentes habitantes de áreas de risco social. A idéia era fazer com que estes adolescentes reproduzissem, nos materiais de 25x25cm, as divisões de suas próprias casas e assim pudessem colocar em foco seus anseios, valores e experiências vividas. Como declara Souki: “A casa como abrigo, proteção e aconchego é a nossa primeira morada no mundo. Nossas casas são espaços cheios de subjetividade e trazem a história de cada um”.
Durante este processo, os jovens foram se descobrindo e as diversas histórias familiares, quase sempre escondidas, apareceram nos cômodos da casa. Ao invés da espetacularização e do exagero, os meninos e meninas procuraram a intimidade, e de uma maneira própria: em altas vozes e discussões entre os colegas. “O transbordamento de emoções desses objetos (moradas) despertaram as profundezas do ser em todas as 6 turmas de 42 alunos, onde desenvolvi este projeto”, revela a artista.
A exposição ainda conta com uma instalação sonora com as conversas espontâneas, os barulhos feitos pelos jovens durante o processo de criação, o que também colabora para construir a realidade das moradas. “Os sons preservarão o caráter pessoal de cada morada. Escutando, testemunharemos a individualidade dos espaços visitados”, ressaltou a expositora.


Veja este trabalho e você se descobrirá se transformando... não há outro caminho!


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

PÉS e vida saudável

Valéria Lima tem formação acadêmica e experiência profissional ímpares. Terapia ocupacional, Eutonia, Neurociências... Mas, para além de toda essa importante dedicação, Valéria tem um dom singular: suas mãos conversam com os corpos! Valéria conta-nos nossos segredos com a simplicidade das fadas... Hoje, ela nos envia o seguinte recado:

“Você já olhou os seus pés hoje? Eles têm marcas, calos? Sabia que os calos falam que você está pisando errado, sobrecarregando e alterando as articulações e a sua postura? Uma boa pisada leva você a ter um bom alinhamento corporal. Fique ligado e cuide bem dos seus pés."

Porque você não olha pra mim?

Me diz o que é que eu tenho de mal...

Porque voce não olha pra mim?

domingo, 23 de agosto de 2009

Quase-Ser-tão ativamente...

O clube de arte Quase-Ser-tão anuncia para breve a inauguração de sua sede, em Belo Horizonte, no bairro Anchieta. Apresentamos as atividades que desde já estão à disposição dos interessados. Você poderá se pré-inscrever ou obter as informações que desejar entrando em contato conosco pelo email: quasesertao@gmail.com ou pelos telefones (31)96072850 e (31) 86340328.

Canto Japonês – Gustavo Eda

Curso de Educação Não Formal – Maggy deMatos

Dança cigana – Katherine Constantine

Dança de salão – Vagner Henrique

Desenho – João Penna

Desenho – Zélia Evangelista

Espanhol – Daniela Castanheira

Flauta Japonesa – Gustavo Eda

Iniciação à música francesa em francês – Maggy de Matos

Literatura – Magda Maria Campos Pinto

Massagem Tui-Ná – Prof. José Vicente

Shamisen (violão Japonês) – Gustavo Eda

Tai Chi Chuan – Prof. José Vicente

Teatro – Laia Ferrari e Sebastián Moreno

Outras atividades já estão se organizando para virem para o clube. Quase-Ser-tão receberá crianças menores de 12 anos, diariamente de 8 h.às 11 hs, para a prática das atividades artísticas e recreação, gratuitamente. E ainda, promoverá regularmente encontros de arte. Aguardem!

A vida conspira...

Quijote, mi amor.

Continuando.... William Lake Price fez 'Dom Quixote em sua biblioteca', por volta de 1850,

Vic Muniz, em 2004, fez seu Dom Quixote sobre a foto de William Lake,


e Miguel de Cervantes descreveu a si mesmo no início de "Novelas Exemplares", de 1613:

"Este que aqui vedes de rosto aquilino, de cabelo castanho, testa lisa e descaregada, de alegres olhos e de nariz curvo, embora bem proporcionado; as barbas de prata, que não há vinte anos eram de outro, os bigodes grandes, a boca pequena, os dentes nem miúdos nem graúdos, pois não tem mais do que seis, e estes malpostos e pior dsipostos, porque não tê correspondência uns com os outros; o corpo entre dois extremos, nem grande, nem pequeno; a cor viva, mais branca do que morena, as costas algum tanto encurvadas e os pés não muito ligeiros. Este digo que é o rosto do autor d e "A Galatéia" e de "D. Quixote de La Mancha" e de quem fez a 'Viagem ao Parnaso' à imitação da de Cesare Caparali Perusino, e outras obras que por aí andam desgarradas, e talvez sem o nome do seu dono. Chama-se comumeneo Miquel de Cervantes Saavedra. Foi soldado muitos anos e cinco e meio cativo, onde aprendeu a ter paciência nas adverdidades. Perdeu a mão esqueeda de uma arcabuzada na batalha naval de Lepanto, ferida que, embora pareça feia, ele a tem por formosa, por tê-la recebido na mais memorável e alta ocasião que viram os passados séculos e esperam ver os vindouros, militando sob as vencedoras bandeiras do filho do corisco da guerra, Carlo Quanto, de feliz memória" (traduçaõ de Sérgio Molina)

sábado, 22 de agosto de 2009

Quixote, meu amor.

Gostamos de mergulhar. Escolhemos nossos mares. Quixote, nosso mar aberto.

Buenos Aires/Argentina - Março/2009

Sueña Alonso Quijano
Jorge Luis Borges

El hombre se despierta de un incierto
Sueño de alfanjes y de campo llano
Y se toca la barba con la mano
Y se pregunta si está herido o muerto.
No lo perseguirán los hechiceros
que han jurado su mal bajo la luna?
Nada. Apenas el frío. Apenas una
Dolencia de sus años postrimeros.
El hidalgo fue un sueño de Cervantes
Y don Quijote un sueño del hidalgo.
El doble sueño los confunde y algo
está pasnado que pasó mucho antes.
Quijano duerme y sueña. Una batalla:
Los mares de Lepanto y la metralla.

Sobre o romance Nenhum Olhar, de José Luis Peixoto

Uma das coisas boas da vida é descobrir um homem como José Luis Peixoto. Eu o conheci no Fórum das Letras, em Ouro Preto, em outubro de 2007. Ainda não me recuperei - que bom! - da leitura de seu romance 'Nenhum Olhar'. Um livro que me obrigou a escrever. O que se segue não é uma crítica. Pois o que me aconteceu foi um rapto. Encontrem José Luis Peixoto. O mundo de vocês crescerá.

José Luis em Ouro Preto/outubro de 2007
Depois de ler Nenhum Olhar.
Magda Maria Campos Pinto

O meu rosto são mil rostos. Só se pode caminhar no tempo. E não tenho medo da palavra amor. Não tenho medo das palavras. Os homens eram o lugar de palavras que não se distinguiam e que tentavam entrar pelo terreiro deserto e pelo silêncio negro e negro.
E José pousou o copo vazio no balcão, e junto à sua pele, sob a luz, sob as palavras, instantâneo, materializou-se o sorriso vadio do demônio. Como o escuro na chegada da luz, o álcool tinha-se diluído lentamente dentro de José. De novo, sentiu a cabeça nítida e o peso da sobriedade.
Penso: se o castigo que me condena se fechar em mim, se aceitar o castigo que chega e o guardar, se conseguir segurar cá dentro, talvez não tenha de suportar novos julgamentos, talvez possa descansar.
Atrás da terra surge o grande rugido do silêncio. A raiva dos seus olhos agarra-me e puxa-me aos poucos. Do interior do silêncio, como do interior de um sonho, o gigante começou a andar. O gigante aproximou-se de José, com um véu feito das caras mascaradas dos homens, e empurrou-o. O diabo já estava no altar. Foram casados pelo demônio.
Nunca pude atravessar suas paredes...
Mas ela sabia que ele a vigiava, sabia exatamente o sentimento que o consumia, não por alguma vez o ter surpreendido, não por ter em si alguma qualidade sobrenatural, mas por ser mulher e todas as mulheres saberem mais do que vêem, quando se trata de questões sentidas. E a José, a mágoa desesperada de ter perdido todas as certezas. Não se podem construir dias novos sobre as manhãs que se recordam. Que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Não há forma de explicar tudo o que se diz quando se diz sofrer. Faltou-me saber que o que é num instante o mundo, não é o mundo sempre.
Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.
Atrás de si, a estrada da vila ao monte, o cansaço, o sol. Consigo, a memória da noite anterior, o medo, o cansaço, o sol. Salomão caminhava e, no seu rosto, outro rosto se contorcia; no seu medo, outro terror; em si, outro.
E aqui, cruzo-me comigo própria, depois do almoço. Vou para o monte. Venho do monte. Passo por mim. Passo por meus pensamentos. Milhares de exércitos no meu corpo repousaram finalmente, faltou-me o fôlego dentro do prazer. Nua, iluminava-me uma luz de mel que atravessava os reposteiros. No meu corpo, homens despegavam do trabalho e pousavam a enxada, mulas regressavam e saboreavam a primeira mão cheia de erva depois de puxarem carroças todo o dia, e a terra revolvida encontrava finalmente a sua ordem no descanso da noite. Na água, diluía-se lentamente o meu surro e o ardor do meu sangue. E eu era lentamente. E isto que é pouco foi tudo pra mim até ao dia em que conheci o José. Mulher: a tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. E esse instante foi nosso e enorme. Olhando-me sempre, disse espera por mim, vou hoje buscar-te... E as minhas mãos vazias... Quando através da parede, me pareceu ouvir chorar o homem que está fechado num quarto sem janelas a escrever.
Não vás. E não fui. Ainda que o crepúsculo nos tenha visto onde só vão os mais sinceros. Não me perdeste, mãe. Perdi-me eu de mim próprio, desencontrei-me de mim, onde nunca estive, onde nunca estarei.
Depois de me casar, deixaram de lhe chamar galdéria ou puta. Então, como é que está a tua mulher? E pensavam galdéria, puta. A tua mulher não é quem tu julgas. Ouvi ou recordei. Quis esquecer. A certeza é feita de muitas dúvidas, uma certeza é feita de mil vezes mil dúvidas, e uma dúvida é o pior, pensou José.
Depois, ao regressar, a extensão toda das planícies, a profundidade toda da luz, o lugar até ao horizonte e para lá dele, tudo era aquela voz a dizer boa tarde e a olhar-me, tudo era o seu rosto. Fazia o caminho todo até a vila e, no momento em que entrava em casa, anoitecia. E aqui, cruzo-me comigo própria. Vejo-me vir na minha direção. Vou para o monte. Venho do monte. Venho do monte e vejo-me a ir para o monte. Pelo dedo que nos une, a tua morte tem avançado para dentro de mim como uma doença a querer progredir. Sou aquele que só é irmão e que não tem irmão. Espero uma palavra a nascer dos teus lábios. Diz-me, por favor, que posso descansar. Os dois passos que os separavam eram muito pequenos para impedirem que cada um deles se julgasse dentro do outro, a ver-se a si próprio com os olhos que não eram seus e pelos quais via. Sinto no meu corpo o seu corpo a caminhar, os seus passos, nem lentos, nem rápidos. Sinto no meu corpo as suas idéias simples e as suas intenções sinceras. Sinto no meu rosto a sua expressão de homem e criança, de criança tornada homem por leis apressadas. A luz cobriu-se de uma nuvem fosca de fumo luminoso, levantou-se um ciclone de espelhos a mostrar-me em todo o lado, quando o mais que queria era esconder-me. E num instante recortado do instante em que também o mundo parou, Salomão olhou José, ou José olhou-se a si próprio. A minha mãe sozinha diante de mim, a repetir as suas palavras, sempre, sempre, como um gemido, como palavras que não fossem palavras, como outra coisa qualquer que tivesse a forma de palavras e se repetissem sempre, como uma dor. (...) e, do outro lado, quase indistinguíveis de uma aragem, os ruídos silenciosos do homem que está fechado num quarto sem janelas a escrever...
Ainda a ouvi dizer: a solidão, a morte.
Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio. Como uma tempestade de vozes. Não sei se enlouqueci. E morro devagar. A tarde passou longa como uma vida. A dor: um silêncio de sentido sobre todos os gestos, um abismo a calar o significado de todas as palavras, um véu a tornar o tempo inútil. O súbito reconhecimento de mim em mim. Não sei ao certo se é a manhã que passa, se é o dia que passa, ou se é a vida que passa nesta manhã, neste dia. Somos o lugar onde a morte está. Nunca mais tanta coisa. Nunca mais tudo. E, dentro do seu ou do meu olhar, encontrei o que, se não fosse a vida, poderíamos ter sido: ela não olhava, mas pela primeira vez na minha vida, tive a certeza de que me via. Sei que os meus olhos tinham uma mágoa tão grande como a manhã, uma mágoa invisível, num instante em que o invisível era a única coisa que se podia ver. E o tempo foi aquele momento sobreposto muitas vezes sobre si próprio.
Enquanto fiz a cama, entre o zumbido dos lábios da minha mãe, reparei que os barulhos pequenos do homem que está fechado num quarto sem janelas a escrever eram menores ainda e mais vagarosos, a tinta prendia-se lentamente ao papel num gemido de flor, como se as palavras tivessem subitamente ganho novos significados. E sei agora, o fim e o desespero são uma mágoa que é um sofrimento eterno e irremediável, tudo eterno e tudo irremediável, são o silêncio de quem chora sozinho numa noite infinita.
E o velho Gabriel mais que o seu rosto, é um olhar que sabe tudo, é o nome da solidão a dizer-se a si próprio, e a palavra morte a sofrer o seu próprio martírio. O velho Gabriel, esmagado por uma mão ou por um mistério ou por um segredo... E prossigo. Prossigo. Tenho a morte dentro de mim. No fundo do meu olhar e dentro de mim, vejo o monte. Prossigo. Sou a solidão. E não vomitei senão o meu jejum. Eu era a minha incerteza. Era o lugar vazio de mim, era eu nos meus olhos. Era os meus gestos a serem a minha ausência. Eu sem mim. Eu sem eu. Sou a morte e não sei o que é a morte. Eu sei, e saber assim dá-me tudo e tira-me tudo, torna-me homem e mostra-me a morte, ensina-me, obrigando-me a esquecer. Sou um passado de desencontros e desenganos. Na mesma vertigem: ela, o Salomão, a minha mãe.
Onde foi que a vida nos perdeu? E não tenho medo da palavra amor. Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Tudo me espera onde não existo. E o mundo acabou. O homem que está fechado dentro de um quarto sem janelas a escrever parou de repente...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Amor aos pedaços

Clarice
Para Clarissa


“Talvez, sem mais dor e medo, eu consiga a manifestação direta e concreta do desejo de agradar ao homem no vão do não saber meu”.Clarice fora sempre assim, brilhante e obscura, isto é, uma incógnita e, como tal, o que mais costumava era incomodar as pessoas. Clarice estrela, lúcida, forte. E ainda Clarice triste. Clarice pesada, Clarice ríspida. Era Clarice por demais. Clarice transbordava. Assim derramente passava os dias, e pior, as horas. E tantas horas houve, que houve uma, talvez crepuscular, em que, enjoada de paradoxos e entediada das questões fundamentais, Clarice quis escolher. Lúcida e ríspida fechou-se em sua casa, disse adeus aos passantes e com ares de triunfo começou a ouvir música inédita. E a arrumar a casa.
Só.
Foram tantos minutos infinitos depois de trancada a porta, que eu houve um, talvez de aurora, em que a casa de Clarice foi invadida por inesperado e estranho ser: capaz de atravessar paredes. De Clarice, a perdição. Perdeu os ares e a pose. As falas e os blefes. E cegou-se na luz do ser alienígena que sem a prévia autorização adentrou o campo do seu olhar. Capturada, capitulou.
Encontrou-se Clarice suspirando sem respirar e aos gritos, emudecida. Viu-se desatinada à cata não sabia de quê, pois que, definitivamente não havia nada mais a encontrar. Repetindo e repetindo a esperança de que somente as paredes a ouvissem, ainda insistiu: onde estão as minhas coisas? Mas, cansada e desejosa de se entregar ao fracasso de tal procura imbecil, Clarice encolheu-se. Miúda, mole, macia, ínfima e muda, tartamudeou: você é bonito.

Magda Maria Campos Pinto


Clarissa ri. Gosta de festa e faz origami. Gosta de mar e dos bichos do mar. E gosta muito de gente. Clarissa está no clube Quase-Ser-Tão, a gente adora.

Pés - concorrente

FOTO: Pé Lulipe e Fofa

NOME: Luiz Felipe


E a mão?
Só se for pra
plantar bananeira.
E plantar bananeira com os pés?
Isso é chamado: “Ficar de pé.”

Lavínia Saad


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

El café.

No texto de Laia Ferrari conhecemos a força de sua presença. Sua minuciosa e precisa percepção da vida. E especialmente, do humano ser. Desfrutem Laia.

La señora señorona: ay my darling, mozo querido, hoy i feel crazy to have a little drink...
Mozo: tengo café inglés.
Ella: inglés solo el té y en Londres con un marqués.
Él: café colombiano?
Ella: quería tomarlo de su mano.
Él: ahora no puedo, estoy trabajando… café italiano?
Ella: y el gladiador romano?
Él: café brasilero.
Ella: viene con garoto playero?
Él: café o compañía?
Ella: los dos en sintonía.
Él: azúcar o edulcorante?
Ella: ni artificial ni sofocante.
Él: pequeño, grande o mediano?
Ella: si no está arrugado, me tiene sin cuidado.
Él: su pedido será saciado.
Ella: quería que ya estuviese a mi lado.
Él: aquí su café africano.
Ella: no se le vuelque, cuidado.
Él: desea algo más o si acaso…? me puede soltar el brazo?
Ella: poco es agradecerle, besarle será demasiado?
Él: la cuenta con usted dejo, ahí tendrá el resto saldado.
Ella: pero como apurar el tiempo si ya se aleja mi amado?
Él: pero…es a mí a quién espera, o pronóstico: a cualquiera?
Ella: oh, qué dolor me ha llegado! si es que una herida he creado por el café que me ha dado, ya no lo tomo, está helado…quiero esparcirme en tus venas, quiero morder de tu grano
Él: Epa…. la confusión ha volado, tu mirar se la ha llevado, es que realmente deseas que continúe a tu lado? es tan extraño notar que este sabor es lejano…
Ella: claro que ya hemos estado, aquí juntos o en otro lado, por tu aroma reconozco que alguna vez te he probado, quería volver a hacerlo si también es de tu agrado…
Él: no hay fronteras para expresar, tu dulzor lo ha generado, en mí, ahora, siento, que me he enamorado.

PÉS - CONCORRENTE

FOTO: Os de joanete também têm um coração...
NOME: Élida Mara

Woodstock - I remember II

Joan Baez, em Woodstock

Maggy de Matos


Agora, Woodstock. Quando aconteceu, eu tinha 23 anos.
Eu nasci em dezembro de 1945, dia 24, 4 meses, mais ou menos, após 2ª guerra Mundial. Eu fui crescendo ouvindo falar do Canal de Suez, Ben-Gurion, Guerra dos Seis Dias, da Palestina dividida em dois estados; dos comunistas "que comiam criancinhas", Fidel Castro, Che Guevara, início e fim da Guerra do Vietnã. O suicídio de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, renúncia de Jânio Quadros.
A TV era novidade. Em preto e branco. A Jovem Guarda, não me agradou muito. Mas tinha Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Caetano. A Guerra Fria. Cortina de Ferro. JK e Brasília em 1960! Gagarin, russo, vi ir ao espaço! No mesmo ano, Sheppard, americano, também foi. O Concílio de 1962! Céééuuusss!!!!!! Quanta mudança. E eu no meio dos Padres e das Freiras modernosos. Sexo, Pecado, Virgindade. A Baía dos Porcos e os mísseis. Em 1963 Kennedy John é assassinado.
A “Revolução" de 31 de março, 1964 (que, muito tempo depois, compreendi que foi Golpe de Estado). O Regime Militar, os AI. Meus primos fugindo para o Uruguai e Chile. Em 1965 aconteceu um grande show dos Beatles em Nova York. E eu ia indo, ia indo...., atenta a tudo. As notícias chegavam devagar, no dia seguinte, dias seguintes, através de jornais, revistas e no Repórter Esso.... Havia o Rádio, mas bem precário.
Jovem mulher, a pílula anticoncepcional, as saias curtas, shorts, o mundo não era melhor que hoje, mas a gente era jovem... Na Faculdade, nos Grupos de Jovens discutíamos com fé, com esperança, ousadia. Acreditávamos que tudo era fácil de resolver. Com Paz e Amor. Mas, Che morreu, Martin Luther King morreu. O estudante Edson Luiz, também...
1968 foi um ano de explosões. Aqui, na França,nos Estados Unidos. O Homem pisou na lua. Eu tinha tudo quanto era material, para mostrar aos alunos. Acreditam que muitos pais disseram aos alunos, seus filhos, que eu estava enganando-os? Sharon Tate foi assassinada de maneira macabra, num ritual negro.
Quando foi em agosto deste ano de 1969, de 15 a 18, aconteceu Woodstock. Lembro que anunciaram "Uma exposição Aquariana". No FOLHA DE SÃO PAULO li que Bethel foi transformada em área de calamidade pública. Não havia estrutura, para providenciar saneamento ou primeiros socorros para a multidão (umas 500.000 pessoas: velhos, jovens; homens, mulheres, crianças) que teve que lutar contra o mau tempo, racionamento de comida e condições mínimas de higiene. O festival foi pacífico, apesar de 02 mortes, por overdose de heroína e após um atropelamento de trator. Houve 02 partos e 04 abortos. O local se tornou uma manisfestação contra cultural, na qual as mentes estavam abertas, drogas eram o que havia de mais legal; o cheiro doce de maconha flutuava pelo campo e o amor era "livre".
Verdade seja dita: Woodstock contou com uma qualidade musical das melhores. Passei a apreciar Joan Baez-muuuito!-(que estava grávida na época), Janis Joplin, Ravi Shankar(que cantou debaixo dágua), Creedence Clearwater Revival, Joe Cocker, Jimi Hendrix.



Ravi Shankar e George Harrison em 1967

PÉS - CONCORRENTE

FOTO: Eu calço tênis, logo existo!
Nome: Daniel

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pés - concorrente

Foto: Pé da fofa
Nome: Luiz Felipe


Poema para o pé
(poema infantil)

Declamo o pé,
meu nobre pé,
conhecido apenas
por seu chulé,
mas que tem
muitas virtudes:
sobre tudo me carrega
pra lá e pra cá
sem nem muito
se queixar.

Quem é o pé?
Ora bolas, o pé
é nada menos que
a mão da perna.
Ou será que a mão
é que é o pé do braço?
Enfim, é o pé
que me acode
na hora de andar,
de pedalar,
de correr,
de pular,
de dançar.

E é em homenagem ao
humilde pé
que temos:
o arrasta-pé,
o pé-de-moleque,
o "ao pé da letra."

Proponho o
Dia Nacional do Pé.

(Lavínia Saad)