quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tango: arte, história e patrimônio

A UNESCO declarou o TANGO Patrimônio Cultural "Imaterial" da Humanidade, durante reunião nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2009, do Comitê Intergovernamental do organismo, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. "Essa é uma homenagem a todos os que sustentaram o tango durante muito tempo. Uma homenagem àqueles que mantiveram a tradição, transmitindo a poesia e a dança de geração para geração", disse Lombardi, secretário de cultura da cidade de Buenos Aires.

A candidatura do tango (música e baile) para ser "Patrimônio Cultural da Humanidade", foi apresentada em novembro de 2008 pelos governos das cidades de Buenos Aires, na Argentina, e Montevidéu, no Uruguai. O tango é reconhecidamente uma fortíssima manifestação da identidade dos habitantes do Rio da Prata. Os portos do Rio da Prata, que banha as cidades de Montevidéu e Buenos Aires, são lugares/fonte do tango.O dois por quatro (outra forma de chamar o tango) conta as emoções e traços dos povos do Sur desde a virada do século vinte. Desde então, o tango é identificado como cultura das cidades do Rio da Prata. As letras do tango, afirmam os especialistas, sugerem melancolia porque demonstram a solidão dos que saíram de países europeus para uma terra desconhecida. Nos últimos anos, a musicalidade do tango foi renovada com o nascimento de grupos jovens que adotaram outros instrumentos, além do clássico bandeneon, para tocá-lo. E foram abertas dezenas de "milongas" (lugar e modalidade para dançar esta música) na capital argentina.
O chamado “nuevo tango” que uniu a tradição tangueira dos portenhos e gauchos à batida eletrônica da música contemporânea trouxe renovação e revitalidade ao ritmo. O mundo inteiro volta a dançar o tango. Recentemente, no Campeonato Mundial de Tango realizado em Buenos Aires, um casal de japoneses que aprendeu a dança no Japão venceu a disputa na categoria "dança de salão". No entendimento das autoridades argentinas, foi a confirmação de que o tango já atravessou "há muito tempo" as fronteiras de Buenos Aires e Montevidéu.

O tango está presente no clube Quase-Ser-tão, na nossa prática cotidiana e em nosso estudo das identidades americanas. Assim, a partir de hoje passamos a contar um pouco da história do tango; dessa maneira vamos conhecer mais dos vizinhos sul-americanos, hermanos completos e complexos nas tramas da fraternidade. Antes de mais, nosso abraço forte nos amigos argentinos já presentes no nosso clube: Daniela Peez Klein e Juan Miguel Expósito, mestres de tango e atuantes em nosso último congresso de arte ‘Em todo sentido’ e Laia e Sebastián, atores e autores, atuantes no mesmo congresso. Saravá, hermanos.


Artemulherpoema...

Maggy de Matos apresenta a poeta Maria Antonia Coelho Moreira. O clube Quase-Ser-Tão tem a honra de receber a poeta de hoje. Sem esquecer que poeta é gente de todos os tempos.

Sem tradução

Não decifre o encanto.
Deixe sem ponto de chegada.
Na busca,
me divirto com o engano
driblando a inteção.
agarro o impossível
e sigo a estrada.

Não controle o encanto.
Deixe sem prazo, sem limite.
Na escolha da nuança
o sabor da descoberta
me liberta do grilhão.
Põe a minha alma em festa
deixalivre a tradução.


Convicção

Vou cruzar a fronteira
Guiada por tua luz.
Ouço o pulsar forte de tua ternura

Aguarde-me.
Chego entre uma batida e outra
Do teu coração.


(In Quando o coração escreve. Maria Antonia Coelho Moreira, Manuscritos, Belo Horizonte, 2009)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

PÉS - CONCORRENTE

FOTO: Minha sobrinha vai à praia pela primeira vez e perde a cabeça!
NOME: Santuza Campos

Arte e passagens II. E de dor... voltamos a Rimbaud.


“ ‘Que tédio! Que faço eu aqui?’, pergunta Rimbaud em uma de suas cartas da Abissínia. “Que faço eu aqui?” Esse grito de desespero resume a situação do acorrentado à Terra. Falando dos longos anos de exílio que Rimbaud profetizou para si mesmo na Saison, Edgell Rickword observa: “O que procurava quando saiu do casulo humano eram os meios para manter-se na condição de pureza transcendente, de desilusão sublime, em que surgiu”. Mas ninguém jamais consegue sair de seu casulo humano, mesmo na loucura. Rimbaud parecia-se mais com um vulcão que, tendo esgotado as erupções, torna-se extinto. Se realmente chegou a surgir, foi para se isolar no auge da adolescência. E ali permanece suspenso no cume, uma espécie de jeune Roi Soleil.

Essa recusa de amadurecer, tal como a vemos, possui uma qualidade de grandeza patética. Amadurecer para quê? Podemos imaginá-lo perguntando-se a si mesmo. Para uma vida adulta que redunda em escravização e castração? Tinha desabrochado prodigiosamente, mas – florescer? Florescer implicava expirar em corrupção. Prefere morrer em botão. É o gesto supremo da juventude triunfante. Vai permitir que seus sonhos sejam massacrados, mas não conspurcados. Teve um relance da vida em todo seu esplendor e plenitude. Não trairia essa visão tornando-se um cidadão do mundo domesticado”. (Henry Miller in A hora dos assassinos – Um estudo sobre Rimbaud – L&PM POCKET – Porto Alegre, 2003)

Adeus

O outono já! – mas pra que sentir falta dum sol permanente, se nos empenhamos na descoberta da claridade divina – longe dos que morrem pelas estações.

O outono. Nossa barca nas brumas imóveis avança para o porto da miséria, a enorme cidade manchada de fogo e lama. Ah! Os farrapos podres, o pão molhado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Ela não terminará com o vampiro rei de milhões de almas e corpos e que serão julgados! Me imagino com a pele tomada pelo barro e a peste, vermes cheios de cabelos e axilas e o maior deles no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Teria podido morrer... A terrível evocação! Execro a miséria.

E temo o inverno por ser a estação do conforto!

- Não raro vejo no céu praias sem fim cobertas de brancas nações alegres. Um grande navio de ouro, acima de mim, agita as bandeiras multicores sob as brisas da manhã. Criei todas as festas, todos os êxitos, todos os dramas. Procurei inventar flores novas, astros novos, carnes novas, línguas novas. Pensei adquiri poderes sobrenaturais. Bem! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Uma bela glória de artista e narrador suprimida!

Eu! Eu que tinha me dado por mágico ou anjo, dispensado de toda moral, à superfície da terra, com um dever a buscar, e a realidade rugosa a estender! Aldeão!

Me enganei? A caridade seria irmã da morte para mim?

Afinal pedirei perdão por me ter nutrido de mentira. Prossigamos.

E nem uma mão amiga! Onde encontrar socorro?

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Sim, a hora nova é a menos severa.

Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram – inveja pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. – Condenados, se eu me vingasse!

É preciso ser absolutamente moderno.

Nada de cânticos: manter o passo dado. Dura noite! O sangue seco recende no meu rosto, e nada tenho atrás de mim senão este horrível pinheiro!... O combate espiritual é tão brutal quanto a batalha de homens. Mas a visão da justiça é o prazer apenas de Deus.

Entretanto, a vigília. Recebemos todos os influxos de vigor e ternura real. E na aurora, armados duma ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas.

Que falei de mão amiga! Uma vantagem é que posso rir dos falsos amores e causar vergonha a esses casais mentirosos – vi o inferno das mulheres – e me será lícito possuir a verdade numa alma e num corpo. (abril-agosto, 1873)

(Último capítulo de Uma temperada no inferno, Arthur Rimbaud, [L&PM POCKET PLUS –edição bilíngüe, Porto Alegre, 2008] aos 18 anos, quando encerra sua carreira literária e começa uma ‘segunda’ vida: poesia em ato, segundo alguns críticos. Depois de perambular, literalmente, pela maior parte do mundo, morre aos 36 anos, 10 de novembro de 1891, num hospital em Marselha, com um tumor canceroso no joelho, acompanhado pela irmã Isabelle.)

(Rimbaud no dia de sua primeira comunhão,

12 anos, já escrevia versos em latim.)


Fragmento de carta de Rimbaud a sua irmã Isabelle em 10 de julho de 1891, do hospital onde se encontrava, em Marselha:

“Não sei lhes dizer o que farei, ainda estou muito mal para chegar a uma conclusão. Nada vai bem, repito. Receio algum acidente. Meu pedaço de perna está muito mais espesso que a outra e cheio de nevralgias. O médico, naturalmente, não me vê mais, porque que para ele basta que a ferida esteja cicatrizada para que ele a abandone o doente. Diz que você está curado. só se preocupa quando há abscessos, etc., etc.,. ou quando surgem outras complicações que exijam outras facadas. Consideram os doentes apenas como objetos de experiências. Sabemos disto muito bem. Principalmente no hospitais, pois os médicos não são pagos. Buscam este posto apenas para ganharem reputação e clientela.

Gostaria muito de ir para perto de vocês porque ai está fresco, mas acho que aí não há terrenos próprios aos meus exercícios acrobáticos. Depois. Depois, receio que faça frio. Mas a primeira razão é que não posso me mover. Não posso e não poderei andar por muito tempo e para dizer a verdade, acho que não estou curado interiormente, aguardo alguma explosão. Seria preciso me carregarem até o trem, me descerem, etc., etc. é muita complicação, muita despesa e muito cansaço. O meu quarto está pago até o fim de julho. Refletirei e verei o que posso fazer neste intervalo, por enquanto, prefiro crer que vou melhorar como vocês querem que eu acredite, por mais estúpida que seja a existência, o homem sempre se apega a ela.”



Verlaine (último à esquerda), Rimbaud (segundo à esquerda), outros escritores e poetas parisienses; óleo sobre tela de 1872, de Henry Fantim-Latour. A diferença de idades e o comportamento crítico de Rimbaud em relação ao grupo fica bem evidente na tela. Ele concordou em posar uma única vez (às instâncias de Verlaine), e impôs sua posição no quadro.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Leminski... nem me fale em saudade, que saudade é quase maldade...


você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto