sábado, 31 de outubro de 2009

DIA DE DRUMMOND

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira. O poeta maior é o mais querido do Clube Quase-Ser-tão. A homenagem de hoje é toda dele.

Belo Horizonte, 22 de setembro de 2008

Querido Drummond,

Eu espero que você esteja bem. Há muito sim, há muito eu não te escrevo. Você sabe como a vida muda. Eu te conto como a minha vida agora é muda. Salvou-se apenas aquela palavra escrita no meu sangue desde o nascimento: amor. Mas como você também sabe, a vida prossegue. Nem todos se libertaram ainda. Eu? Ainda estou presa à vida. Outra. E mesma. Meus ombros suportam o mundo. Por isso eu escrevo. Eu preciso de você, poeta. Eu tenho que me contar: estúpido, ridículo e frágil é o meu coração. Estúpido, ridículo e frágil é o meu coração.

Não. Não é por causa da pedra no caminho. Nem do mundo, mundo, vasto mundo. Não é porque Minas não há mais, poeta. Nem vou dizer que seja culpa daquele verbo antipático, impuro, ensinando ser não ser. Tampouco digo que seja o caso da vida presente, a vida vida, a vida apenas, sem mistificação. Digo sim que a vida vida foi um constrangimento. Grande susto encontrá-la de repente nua, em si, sem disfarce. Foi duro. Sozinha no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia, e eu nem me chamava José. Mau jeito seu apresentar-me a vida vida. Sempre nessa toada: briga perdoa, perdoa briga. Hoje beija, amanhã não beija. Depois de amanhã é domingo, e segunda-feira ninguém sabe o que será. Meu ouvido torto, né? Sei. Aprendi, aprendi que não se deve xingar a vida, que o amor volta pra perdoar. Pra brigar, né? Amor! Cachorro, bandido, trem. Eu? Não sou orgulhosa, nem sou de ferro. Muito menos alheia a porosidades, meu caro poeta! Você me impregna completamente. Por isso eu te perdoei. Afinal, a infância passou, os três amores também, e você tinha razão: o coração continua. A estas alturas, eu já aprendi a me chamar José. Tenho três gatos e aceito o convite pra fazer um poema... ou qualquer besteira.

Sua visita me alivia, nada de: então, desanimamos, adeus tudo! Não, não, não, não! Mil anos depois aqui estou eu para depositar sobre você minha gratidão e meu amor. Amor tão forte, amor tão dor. Tão desbaratado. Amor que bate na aorta, como eu lhe dizia. Ah, não eu era quem dizia. Claro. Mas... êta vida besta, né? Pois é, nem me lembro de orgasmos passados, e pouco me importa o futuro pânico. Sabe poeta, quase foi na idade madura. Aquele amor roçando cada poro do céu do corpo. Este amor, poeta, privilégio que chega tarde. Segredos de quem ama, a cama. Eu entendi. Quase... Ah, apenas e tão somente quase, querido poeta. Tá bom, tá bem... eu confesso que não respirei por muitos e muitos segundos. Não aqueles que implacavelmente nos vigiam, né? CON-FIS-SÃO! Verdade que eu te amei loucamente naquele pássaro... Vinha azul e doido. E não sofri esfacelando-me em ti... Ah, poeta, um escândalo isso! Quase insuportável tão vida vida! Você devia se conter um pouco. Gauchismo também tem limite.

Que fazer? Aspirei a vida. Aspirei o tempo. Todo o presente, meu coração cresceu, cresceu mais de dez metros e não explodiu. Não podia explodir, pois você já me recriara a vida. Lembra? Uai! A vida vida que você jurou criar. Lembrou-se?

Oh... Eu tenho que te contar que na vida vida coisas incomuns se passaram comigo. E ainda se passam. Despi-me dos vestidos rendados. E o dos padres! Casei-me com leiteiros. Encontrei a famosa flor e me curei da náusea. Casei-me mais sete vezes com Charles Chaplin. E ainda me caso, vez por outra... assim com um Garcia Lorca.

Ué, você se vire para se explicar! Afinal, o mundo, vasto mundo é todo seu. E quem prendeu o amor (pobre o Amor, preso por tanto desatino!) e soltou a Loucura foi você! Eu..., eu me senti livre. Banhada em sua fina ironia, levada pelo seu deboche (elegante!), mergulhei no seu claro enigma.

Ah, poeta... Mas ainda não foi dessa vez. Mal rompe a manhã, lá estou eu: lutando com as palavras, à procura da poesia, considerando o poema, explodindo a ilha de Manhattan....?!?... Vai saber.... POETA! Eu quero lhe dar tudo. Ah..., isso não. Isso não dou não. Eu não lhe disse que sou senão... hein!?... MULHER! É isso, poeta? Exatamente isso: mulher. Ai, Deus, mulher! Precisamente isso.

Na idade de sentir essas coisas. Sem medo dessa hora, com amor forte, Fulana.

PS- meu vestido esconde algo. Eu tenho coxas reais. Eu... Pantera de garra quebrada.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CONCURSO: PEDAÇOS - Concorrente

" Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz ."
( Mateus 6:22)

Foto: Rosane Palha

Amor aos pedaços XVI - Estevão acorda

Preciso escrever sobre o que me sobreveio aos quarenta e três anos de idade.

Repentinamente me senti imerso numa viscosidade que escapava dos meus poros e fixava em minha pele; eu me afogava em invisível muco amarelado. Senti-me sem apoio, sem solo. Sensação de contínuo afundamento. E no mais às vezes era fria a lama em que me naufragava. Em verdade em verdade eu vivia um esquecimento dos limites do corpo; perdido em meu próprio território. A coisa viscosa amarelada era eu mesmo, ou era coisa minha, não sei exatamente como me expressar. Sei que era algo sensível, e algumas vezes insuportavelmente gelado. Desde esse dia o meu corpo não se delimitou precisamente, a pele estendia-se numa gelatina disforme e amarelada. Eu percebia minha deformidade, mas não havia como comunicá-la. Vivia a deformidade solitariamente. Em verdade, exatamente, digo, rigorosamente, não se deve dizer que fosse coisa que se sentisse, tratava-se antes de um pressentir, pois a dúvida era parte do que me sobreveio. Eu tinha apenas a certeza de que se tratava do corpo; de resto, eu tentava apreender - apenas tentava - e assim, eu logo comecei a pensar que a dúvida é coisa que está no corpo.

Aos quarenta e três anos, isso me aconteceu. Quando, aos quarenta e três anos, eu pensei nisso, sobre os limites do meu corpo, eu pressenti os limites de meu corpo como uma geléia amarelada, secretada através de meus poros, os quais, assim que pensei sobre eles, tornaram-se um punhado de letras. Chamei-os, aos meus poros, ou seja, aos meus limites, solidão. Porque me pareceu ser uma coisa feminina. Sei que é estranho, mas repito, aos quarenta e três anos, quando pensei em meu corpo, nos limites de meu corpo, eles se tornaram um punhado de letras, e os chamei ‘solidão’ pois achei que eles eram uma coisa feminina.

Repito-me para que eu bem me diga: aos quarenta e três anos pressenti que os limites do meu corpo eram uma viscosa massa amarelada que fazia sentir-me sem solo, limites que ao se traduzirem eram um punhado de letras, as quais constituíram o nome 'solidão' para os limites do meu corpo. Foi quando eu descobri que também Wolf amava a Lóri. E que eu amava Lóri e amava Wolf.

Os pensamentos são letras. E, naquele tempo, eu não reconheci as letras que eram os meus, noutras palavras, eu desconhecia os limites do meu corpo. Não podemos pensar sobre as coisas por inteiro, pensamos apenas sobre os limites das coisas. Ou seja, só temos acesso às bordas das coisas. Não sei se me explico.

O que reconheci primeiro sobre a borda do meu corpo, aos quarenta e três anos, foi um pensamento que era uma vontade de ser. Noutras palavras, descobri em mim que eu não era coisa precisamente reconhecível, e surpreendi primeiro em mim um querer ser, enfim, descobri meu não-ser. Ao que não é, falta peso. Foi precisamente assim: sobreveio-me um não peso. Não estou com isso dizendo que era leve, pois, afinal, era um desconhecimento. Então, talvez, eu me dissesse melhor se dissesse que me tornei um suspense. Ao mesmo tempo, eu soube que neste lugar, onde não há peso nem limite, se dá o pensar. Só se pensa sobre o que nos escapa. Pensar nos lança sobre o que nos escapa, e vamos além do corpo. Este 'pensar sobre o que se lhe escapa' capturou-me tão logo foi dito. E eu disse que o limite do corpo são letras. A pele. E penso - com toda a ambigüidade-: escrever é a parte que me cabe.

O pensar é balançar-se sobre o nada. Vejo o pensar como uma trapezista bonita. E solitária. E não há platéia no circo. Vislumbro, neste momento, neste exato momento em que penso isso - que o pensar é uma trapezista bonita - o ser que eu busco ser. Faz-se discretamente um sorriso em mim, pois vejo a trapezista, e ela se parece com Lóri. Quando Lóri me disse que queria ser trapezista, e que só por isso ela era uma trapezista, eu não a compreendi. O pensar é arriscar-se sobre os limites do corpo; e a borda do seu corpo é um trapézio. Tudo começa com os limites do corpo. Um pensamento qualquer. Uma lembrança doída como um dedo irremediavelmente preso numa porta. Ou um lamento interrompido, como um beijo que morreu nos lábios. Triste, como saudade do pai. Escuro, como ausência de amigo. Leve, como os balões da festa de aniversário de cinco anos. Frio, como aurora de inverno no sertão. Quente, como abraço de avó. Sonoro, como despertar com algazarra de pardais. Saboroso, como pão quentinho. Ou arrasador, como abandono de mãe. Ah. Eu me delimitei agora. Nasci. Eu, Estevão.

Então, foram estes os meus limites aos quarenta e três anos. Eram os meus trapézios. Meus pensares. Tudo o mais, eu desconhecia. Tudo o mais eu não precisava saber. Meu desconhecimento não me chegou totalmente invisível ou impalpável. Posso escrever alguma coisa a respeito. No momento em que se me ocorreu (a hora em que nasci e que descobri tudo que eu desconhecia) havia cabelos brancos, óculos, resignação de viver sozinho, desencontro com mulher, falta de filhos, desistência da fé, ceticismo político, medo de mãe, dois amigos como irmãos, duas ex-mulheres estranhas... Aquela coisa viscosa, amarela, ligeiramente transparente, tinha, entre outros, esses tantos modos de ser, e de não ser. Foi isso o que me sobreveio aos quarenta e três anos. Só se pode pensar sobre o que se lhe escapa. Chamei solidão ao que me ocorreu aos quarenta e três anos... Agora que vi meus limites a geléia amarelada está se desfazendo. Eu apareço e posso pensar sobre meu não-ser que andei sendo.

De certo modo, em meio ao manto de viscosidade, havia uma onda de calor pelo meu corpo. Como um todo que vacilava em seus limites, mas que ainda se mostrava um todo. Verdade era que ardia. E então, nestes momentos de ardume, eu queria uma mulher, pois me ocorria que uma mulher extinguisse em mim aquela dor. Mas era apenas um fugaz querer querer. Rapidamente eu desistia. A mulher era para mim uma idéia dolorosa, eu desconfiava sempre, e então, a tal viscosidade amarelada continuava me asfixiando na indefinição do corpo. Eu queria uma mulher, mas doía. Então, eu desistia da mulher, pois nunca suportei a dor. A dor sempre me enlouqueceu. No começo, tudo se me desesperava e demônios se apossavam de mim. Às vezes me rebelava e insistia no encontro com uma mulher. Encontrava-a na esquina. Ou na universidade. Ou no bar. Mas logo logo tornou-se tão somente um querer querer. Eu queria uma mulher. Mas não podia ter uma mulher. E ficou apenas o deslimite em mim. Sempre e quando eu busquei por uma mulher, ela passou a ser a razão dos meus dias. Mas todas as razões dos meus dias não duraram todos os meus dias. E eu, por via das esperanças, sempre de volta ao penoso e lento dissecar dos livros. De volta, às bromélias. De volta às viagens. Breves, duradouras, ou eternas. Mas voltei sempre. Voltei às minas profundas e frias, ásperas, duras, cortantes, infinitamente profundas, da minha terra natal. Eu voltava para a terra, dizia-me eu. Eu nunca soube nada do que eu dizia. Nesse exato momento, em que escrevo ‘minas profundas, ásperas, duras... ’ não posso deixar de pensar nas vaginas obscuras pelas quais me sangrei... Wolf acha que tenho problemas sexuais, apenas isso, e Freud resolveria. Lóri acha que não tenho nenhum problema, e gosta de mim. Eu penso que não quero tratar de meus problemas. Que sou um crápula. Que odeio todo mundo. Não, eu amo Lóri e Wolf. E me odeio. E tenho vergonha do meu pai, que me amou.

Este é meu passado. Agora vou pegar a estrada, vou viajar. Já decidi. É madrugada ainda, mas eu vou.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De poetas malditos....

Henry Charles Bukowski (1920 – 1994) foi um poeta, contista e romancista. Sua obra de estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinou gerações de jovens à procura de modelos. Nasceu na Alemanha, a 16 de agosto de 1920, filho de um soldado americano e de uma jovem alemã. Aos três anos de idade, foi com a família para Estados Unidos, onde se criou em Los Angeles. É mais um dos chamados escritores “malditos” da literatura norte-americana, também considerado um autor beat (mas não caminhou com outros como Jack Kerouac e Allen Ginsberg). Fez uma literatura fortemente autobiográfica – pode-se dizer, explicitamente autobiográfica, pois é possível que toda literatura possa ser chamada autobiográfica. Fez uma opção pela marginalidade, também se pode dizer. Embora mais velho que a geração propriamente beat – 60/70 - neste tempo, isso fazia certo sentido, e tinha seu charme. Extremamente inteligente, ágil, ferino, irônico e corrosivo. Destacam-se entre suas obras, o romance "Mulheres", 'Crônicas de um amor louco', 'Cartas na rua'. E Pulp, um livro incomum; aqui, Dona morte, aparece cheia de sensualidade. Por sua temática e ironia já foi comparado a Henry Miller. Morreu aos 73 anos, de leucemia em 09 de março de 1994. De fato, o ‘velho safado’ (uma autodenominação) conseguiu momentos memoráveis; obriga à reflexões de temas fundamentais, quase sempre evitados de maneira fóbica: a morte, a loucura, o erotismo, o ócio. Bukowski tem até seus momentos de lirismo, como o Bluebird. Deve-se conhecê-lo.


"Bluebird " (Pássaro Azul)

there's a bluebird in my heart that, wants to get out
but I'm too tough for him

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele


I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see you

Eu falo "fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver"


there's a bluebird in my heart that, wants to get out,
Em meu coração existe um pássaro que quer sair

but I pur whiskey on him and inhale cigarette smoke
and the whores and the bartenders and the grocery clerks
never know that he's in there

mas eu taco uísque nele e respiro fumaça de cigarro
e as putas e os barmen e as caixas do mercado
nunca sabem que ele está aqui dentro

there's a bluebird in my heart that, wants to get out
but I'm too tough for him

Em meu coração existe um pássaro, que quer sair
mas sou mais forte que ele

I say, stay down, do you want to mess me up?
you want to screw up the works?
you want to blow my book sales in Europe?

Eu falo "fique aí, você quer me pôr em apuros?"
"você quer estragar meus trabalhos?"
"você quer estragar as vendas dos meus livros na Europa?"


here's a bluebird in my heart that, wants to get out
Em meu coração existe um pássaro, que quer sair


but I'm too clever,
I only let him out at night sometimes
when everybody's asleep

mas eu sou mais esperto,
só deixo ele sair de noite, às vezes
quando todos estão dormindo


I say, I know that you're there, so don't be sad.
then I put him back, but he's singing a little in there
I haven't quite let him die.

Eu falo "sei que você está aí, então não fique triste"
daí o ponho de volta, mas ele ainda canta um pouco aqui dentro,
Eu não o deixei morrer totalmente.


and we sleep together like that
with our secret pact
and it's nice enough to make a man weep

e a gente dorme junto desse jeito
com nosso pacto secreto
e é bacana o suficiente para fazer um homem chorar


But I don't weep, do you?

mas eu não choro, você chora?

Último livro de Charles Bukowski
Tradução de Marcos Santarrita

Coleção L&PM Pocket

“Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema.”

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Concurso PEDAÇOS - CONCORRENTE


Meu calcanhar de Aquiles

Meus pés pensam em você.

Meus pés sentem saudade de você.

Minh’ alma vê.

Meu coração chora.

Eu não penso nem sinto.

Eu não vejo nem choro.

Nada sei de mim.

Nada sou.

Só existe você em mim.

Aonde irei?

Meus pés só pensam em você.


Nome: Magda Campos

Texto: Meu calcanhar de Aquiles

De poesia e Portugal...

Hoje falamos novamente de portugueses. Imortais. Dois dos. Pessoa e Sophia.

Sophia de Melo Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto em 6 de novembro de 1919 e morreu em Lisboa em 2 de julho de 2004. Foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. A admiração por sua obra continua em crescimento. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante prêmio literário da língua portuguesa, o Prêmio Camões em 1999. Em 1964 recebeu o Grande Prêmio de Poesia pela Sociedade dos Escritores pelo seu ‘Livro Sexto’. Depois da revolução dos cravos, foi eleita para a assembléia constituinte, em 1975, pelo partido socialista. Mãe de cinco filhos que se distinguem na cena literária portuguesa, entre eles Miguel de Sousa Tavares, atualmente já um escritor premiado. Sophia distinguiu-se também como contista e autora de livros infantis e ainda, tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare.

MUNDO NOMEADO OU A DESCOBERTA DAS ILHAS

“Iam de cabo em cabo nomeando

Baías promontório enseadas:

Encostas e parais surgiam

Como sendo chamadas.

E as coisas mergulhadas no sem-nome

Da sua própria ausência regressadas

Uma por uma ao seu nome respondiam

Como sendo criadas.”




CRUZOU POR MIM, VEIO TER COMIGO, NUMA RUA DA BAIXA


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
áquele pobre que nao era pobre
que tinha olhos tristes por profissão

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

(ouça Jô Soares dizendo CRUZOU POR MIM, NUMA RUA DA BAIXA, em A MÚSICA EM PESSOA, selo Biscoito Fino. Você vai se emocionar)

Fernando Pessoa e Quase-Ser-Tão em Lisboa, 2006.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. (PESSOA)

“Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar” (SOPHIA)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Oiticica em Inhotim

LUTO NA ARTE BRASILEIRA: OITICICA
A perda de acervo de Hélio Oiticica pelo incêndio em sua casa no Rio de Janeiro causou-nos grande pesar.
O museu de arte contemporânea de Inhotim possui duas obras importantes de Oiticica, uma delas instalada há poucos meses. O clube de arte Quase-Ser-tão homenageia hoje Hélio Oiticica, um artista genuinamente brasileiro.
Hélio Oiticica e Neville D’Almeida - Cosmococa 5 Hendrix War, projetores, slides, redes, trilha sonora (Jimi Hendrix) e equipamento de áudio, dimensões variáveis, 1973


Hélio Oiticica, Invenção da cor, Penetrável Magic Square # 5, De Luxe, 1977 - Inhotim/foto: Quase-Ser-tão


Quase-Ser-Tão e Oiticica em Inhotim

CONVITE: Arte contemporânea em BH

MUSEU INIMÁ DE PAULA
Dentro das intenções do Museu em apoiar e dar visibilidade às diversas manifestações de arte contemporânea produzidas em Belo Horizonte, é com entusiasmo que recebemos PERPENDICULAR - ações para Museu, que acontecerá nas ruas que circundam o Museu Inimá de Paula. A realização é do artista e pesquisador Wagner Rossi. Contamos com a presença e participação de todos.


Quarta-feira, 28 de outubro de 2009, de 19hs às 21 hs, nas ruas em torno do museu.

E depois:

Clube de Arte Quase-Ser-tão vai estar lá.... vamos?


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

De poesia, filosofia e vida

“O senhor... mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo é às brutas. Mas Deus é traiçoeiro! Ah! Uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo – ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito,se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei. “Amanhã eu tiro...”, falei comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no outro ida, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal mas de chifre de galheiro. Aí está: Deus! Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende....

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)



“Se a missão é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar – e imediatamente -, senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranqüilos. O que corre risco de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tinta para criar ou disseminar poesia. De modo geral, os povos primitivos são poetas da ação, poetas da vida. Embora não nos comovam, ainda estão fazendo poesia. Se fôssemos suscetíveis ao poético, não seríamos imunes a seu modo de vida: teríamos incorporado essa poesia à nossa, teríamos impregnado nossas vidas da beleza que permeia as deles. A poesia do homem civilizado sempre foi exclusiva, esotérica. Isso acarretou sua próprio extinção”. (Henry Miller – in A hora dos Assassinos (um estudo sobre Rimbaud, em 1956)




"Porque em García Lorca a Espanha de hoje tinha sua expressão lírica mais veemente e ao mesmo tempo mais concentrada, mais sutil. Não era homem de partido. Era um poeta, ou seja, um indivíduo dotado do poder de recriar os objetos e a atmosfera em que eles se realizam. E era também poeta no sentido medieval e eterno em que a poesia é dom que se distribui, meio de comunicação entre os homens, efusão lírica da massa concentrando-se num indivíduo e refluindo sobre a massa através dos cânticos que o indivíduo produziu sob a sua influência e o seu ditado. Sua experiência poética, rica de ensinamentos fecundos, mostra a possibilidade de coexistência de um grande poeta nacional com uma força poética universal. Assim, pode renovar a tradição gitana dos romances e canções, em versos que têm o colorido forte de Granada, os cheiros e palpitações sensuais daquela terra amorosa, e, ao mesmo tempo, integrar-se na corrente supranacional daqueles que, em diferentes países do mundo, conseguiram depurar a poesia de tudo quanto é acidental, insubstancial ou meramente decorativo."

(Carlos Drummond de Andrade in A morte de Federico Garcia Lorca, em 1936)


(a bailaora Bella Lira no sarau Drummond: Amor - Pois que é palavra essencial, realizado pelo Clube de Arte Quase-Ser-Tão, em 22/09/2008)