segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CONCURSO: PEDAÇOS

Foto: Ah! Meu nariz!
Nome: Luiz Felipe


Ah! Meu nariz!
Ele me ajuda a respirar,
deixa o ar que vem do pulmão sair
e também deixa o ar de fora entrar!

Convite: arte nova!


Para todos aqueles que tiverem curiosidade, interesse e disponibilidade,
será um prazer recebe-los no desfile dos meus trabalhos finais do semestre,
Amel


QUASE-SER-TÃO CONVIDA E APOIA. E APROVEITA PARA AGRADECER A PRECIOSA COLABORAÇÃO E DISPONIBILIDADE DAS JOVENS ARTISTAS AMEL E SARAH DURANTE 2009. DESEJAMOS QUE FAÇAM ARTE, MUITA ARTE, PELA VIDA AFORA...

Um século de literatura, liberdade e dignidade: Francisco Ayala

Considerado um dos grandes escritores do século XX, Francisco Ayala morreu a 3 de novembro deste ano, na sua casa em Madrid. Ayala encontrava-se com boa saúde até agosto, quando adoeceu com uma bronquite. Além de ter ganho o prêmio "Príncipe das Astúrias", o escritor espanhol foi distinguido também com outros prêmios, como o da "Crítica" em 1972, o "Nacional de Narrativa", em 1983 e o das "Letras Espanholas e Andaluzas" em 1988 e 1990.O escritor faria 104 anos em Março de 2010.


Aos dezesseis anos mudou-se para Madrid onde estudou Direito, Filosofia e Letras. Nesta época publicou as suas duas primeiras novelas, Tragicomedia de un hombre sin espíritu e Historia de un amanecer. No final da República exilou-se em Buenos Aires, onde passou dez anos trabalhando e colaborando na revista Sur e no diário La Nación. Nesse tempo foi co-fundador da revista Realidad. Posteriormente, ainda na década de 1950, Ayala passou a residir em Porto Rico, país no qual deu cursos na Faculdade de Direito. De Porto Rico viajou para os EUA onde foi professor de Literatura Espanhola nas Universidades de Princeton, Rutgers, Nova Yorque (NYU) e Chicago, embora mantendo estreitas ligações intelectuais e culturais com Porto Rico, onde igualmente viveram longos exílios Paul Casals e Juan Ramon Jimenez, entre outros. Em 1960 regressou pela primeira vez à Espanha e, pouco a pouco, reintegrou-se na vida literária espanhola. Em 1976 instalou-se definitivamente em Madrid, continuando o seu trabalho de escritor, conferencista e colaborador da imprensa. Em1983, aos 77 anos, foi eleito membro da Real Academia Espanhola e leu o seu discurso de entrada um ano depois. Até idade muito avançada continuou a escrever com plena lucidez. Em 1988 obteve o Prêmio Nacional de Letras Espanholas; em 1990 foi nomeado Filho Predileto de Andaluzia; em 1991 ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes e em 1998 o prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. A crítica dividiu geralmente a trajetória narrativa de Francisco Ayala em duas etapas: a anterior e a posterior à guerra civil.



Na primeira etapa, escreveu Tragicomedia de un hombre sin espíritu e Historia de un amanecer, que se inscrevem numa linha narrativa tradicional. Com El boxeador y un ángel e Cazador en el alba aborda a prosa vanguardista. Em ambas as coleções de contos predomina o estilo metafórico, o brilhantismo expressivo, a falta de interesse pela anedota e o fascínio pelo mundo moderno.


Após um longo silêncio, Francisco Ayala iniciou a sua segunda etapa no exílio com El hechizado, e que faz parte de Los usurpadores, livro composto por sete narrativas cujo tema comum é a ânsia do poder. A história serve aqui para refletir sobre o passado, a fim de conhecer com maior profundidade o presente. Em 1949 publica La cabeza del cordero, conjunto de relatos sobre a Guerra Civil Espanhola, nos quais presta maior atenção à análise das paixões e comportamentos das personagens que à crônica de acontecimentos externos. Muertes de perro constitui uma denúncia da situação de um povo submetido a uma ditadura, ao mesmo tempo que apresenta a degradação humana num mundo sem valores. El fondo del vaso é um complemento da novela anterior, que está presente neste novo relato através dos comentários que dela fazem as personagens. A ironia converte-se no recurso central desta obra, ainda que uma maior compreensão com o gênero humano vá substituindo o desprezo. Em algumas ocasiões, como em El hechizado, aproxima-se do mundo existencial e absurdo de Franz Kafka, com uma denúncia implícita da imoralidade e estupidez do poder.


Depois destas novelas Francisco Ayala continuou publicando relatos, como os recolhidos em El As de Bastos, El rapto e El jardín de las delicias , livro que se baseia no contraste entre a objetividade satírica da primeira parte, «Diablo mundo», e o tom evocativo, subjetivo e lírico da segunda, «Días felices». Em 1982 apareceu De triunfos y penas, e em 1988 El jardín de las malicias, onde recolheu seis contos escritos em diferentes épocas da sua vida.

Grande importância tem também a sua obra ensaística, que abrange temas políticos e sociais, reflexões sobre o presente e o passado de Espanha, o cinema e a literatura. Escreveu interessantes memórias: "Recuerdos y olvidos".


“A equanimidade não deve jamais titubear; até nossa paixão, nossos arrebatamentos, devem ser medidos e ponderados”. (Francisco Ayala - 1905 -2009)



Aproveite escute e veja: impossível não admirar:



domingo, 29 de novembro de 2009

Grande Ser tão...

"Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?"

O sertão é sem lugar.

O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa.

Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas.

O Sertão de Guimarães Rosa é um mundo construído na linguagem, assim Guimarães se liberta e nos liberta. Os sertões são muitos. Guimarães Rosa escreveu como se fosse o próprio sertão. Ou talvez, construiu-se buscando um lugar/tempo que denominou sertão. Ouvindo Mia Couto declarar-se leitor e aprendiz de Guimarães, ouvi: “tal processo de construção de um lugar fantástico permitiu ao brasileiro alcançar o sentido sugerido pela palavra em si: ser-tão, existir-tanto”. Nesse momento, encontrei o nome do nosso clube de arte: Quase-Ser-Tão. Mia Couto prosseguia: “ Na obra de Guimarães Rosa, o tempo não é vivido, mas sonhado. As coisas importantes da vida vão para além do tempo, libertam-se da ditadura da realidade. Para se libertar da prisão que é a realidade, fechada com a chave da razão, é preciso desvalorizar suas paredes”. E concluiu: "Somente renovando a língua se pode renovar o mundo”.

(Mia Couto)

“ Procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei. Só que fui demais, o que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe: tudo o que não é oração, é maluqueira... então, não se vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador... (Grande Sertão: Veredas)

Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

O sertão é uma espera enorme.

CODA: Colagem de citações de Guimarães Rosa sobre o sertão. Texto-relato Quase-Ser-tão. Fragmento de Grande Sertão: Veredas

sábado, 28 de novembro de 2009

Convite: Lembrando: Tai Chi Chuan na Praça

Lembramos a vocês todos que amanhã, domingo, dia 29/11/2009 é dia de Tai Chi Chuan na Praça da Liberdade. Será o último encontro do ano, a partir de 9:00 hs... Vamos comemorar 2009 celebrando a saúde do corpo com alma serena. Até...

DO AMOR II

CHORO BANDIDO
EDU LOBO
CHICO BUARQUE
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim


Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim



Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons.

USUFRUA: dois artistas geniais:

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

No pantanal com Guimarães Rosa - Manoel de Barros


“Andamos para ver a roça de mandioca. Tatu estraga muito as roças por aqui. Há muito tatu, Manoel? Eles fazem buraco por baixo do pau-a-pique, varam pra dentro da roça, revolvem tudo e comem as raízes. Remédio contra tatu é formicida. Fura-se um ovo, bota formicida dentro e esquece ele largado no solo da roça. Rolinha passa por cima e nem liga. Mas o tatu espurga, vem e bebe o ovo. Sente a fisgada da morte num átimo e sai de cabeça baixa, de trote pra o cerrado, penando na morte. Homem é igual, quando descobre sua precariedade, abaixa a cabeça. Já sabe que carrega sua morte dentro, seu formicida. Essa é a nossa condição – Rosa me disse. Falou: eu escondo de mim a morte, Manoel. Disfarço ela. Lembra o livro do nosso Álvaro Moreira? A vida é de cabeça baixa? Deveria de não ser – ele disse. Chegamos perto da metafísica. E voltamos. Havia araras. Havia o caramujo perto de uma árvore. Ele disse: Habemos lesma, Manoel. Eu disse: caramujo é que ajuda árvore crescer. Ele riu. Relvas cresciam nas palavras e na terra. Rosa escutava as coisas. Escutava o luar comendo as árvores. E, como é o home aqui, Manoel? Eu fui falando nervoso. Ele queria me especular. O homem se completa com os bichos – eu disse -, com os seus marandovás e com as suas águas. Esse ermo cria motucas. Por aqui não existem ruínas de civilizações para o homem passear dentro delas. Só bichos e águas e árvores para a gente ver. Não têm coisa de argamassa, ferragens destripadas do deserto, essas coisas que aparecem nos relentos da Europa. Aqui é brejo , boi e cerrado. E anta que assobia sem barba e sem banheiro. Rosa me olhou de esguelha”. (Manoel de Barros, in Gramática expositiva do chão, seção: Conversas por escrito (entrevistas: 1970-1989)


(Manoel de Barros)

(Tatu-Peba)


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

guima_rosa.gif (2444 bytes)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS XXIII – O amor volta...



“O amor, já de si, é algum arrependimento...” esta é uma tarde de vinte e oito de dezembro. Chove há dias e a pouca luz entristece, lentifica, tudo parece devagar, tudo a esperar, ou tudo parece agonizar. Agora, eu sei, eu confundo todas as coisas. Por isso, eu também penso que o mundo está mais macio. O mundo está com um jeito de edredom. É isso, eu confundo todas as coisas. Elas se misturam em mim. Elas ficam como eu me sinto, eu fico como as coisas me parecem. A euforia vivida pelo natal afrouxou, respira-se uma certa ressaca, embora, como sempre, a ressaca esteja disfarçada na expectativa ansiosa do ano novo. Eu já disse essa mesma coisa muitas vezes, eu me repito muito, mas a insistência do ser humano é absurda e ridícula. Noutras palavras, espera-se a primeira manhã. Fé na boa fada, no gênio bom. E todo fim de ano é a mesma ladainha. Eu também sou um humano bem comum. Assim do tipo medíocre. Assim apesar da recente frustração com os embrulhos coloridos, a esperança do ano novo, a esperança do bom, ainda vence a chuva e a desilusão, como se a chegada do novo já estivesse marcada naquele calendário que esperou sobre a mesa durante trezentos e cinqüenta e quatro manhãs... esperando a manhã do dia primeiro... o primeiro dia. O ano novo. Sinto um certo asco, um enjôo de mim, mas, apesar de tudo, persevero, e também, e também espero. E me sinto a mais ridícula das criaturas. Estou renovada, eu mudei, eu me minto: quase não consumo, estou sozinha em casa, a família viajou, eu quis ficar, à toa, estou de férias, à toa, habito minha casa. É certo, estou diferente. Sou diferente. Tento me convencer. Ouço a chuva, e o telefone toca.

Wolf está tranqüilo, se diz saudoso. Daquele jeito lacônico, quase mudo, que ele tem de dizer as coisas. Diz que quer vir, eu digo que quero que venha, mas me queixo de que ele sempre muito demora pra chegar. Wolf me faz dizer muito mais coisas do que eu queria dizer. Sempre escapa. Mas ele chega mais bonito ainda. Seu corpo parece maior, os ombros estão ainda mais largos. Os olhos calmos são águas-marinhas esverdeadas, que combinam com as folhas lavadas das árvores que espiam pela janela. Eu me embalo fácil... gosto de ver as coisas pelo avesso, e todo esse verde parece sussurrar pra mim: vem! Os ombros enormes também estão verdes, como o verde da floresta amazônica, visto de cima, do avião, num fim de tarde com sol manhoso, assim como depois da chuva de hoje. Ele veste um delicado suéter de lã verde. Eu pulo do avião, caio num abraço imenso, que aos poucos começa a me aquecer. E me incendeia. Um incêndio que me derrete. Perco pele, carne e ossos. Viro vento morno, lépido, beijo árvores água e olhos. Olhos de transparência de luar. Meu Deus!, eu sempre exagero. De repente, a lua apareceu num céu sem nuvens. A chuva continuou sua viagem, e, lavada e fresca, a noite chegou em prata. Chegou também um arrepio. Voltou meu peso, pousei, e quando eu lhe disse ‘tchau’ e fechei a porta tudo escurou completamente, pois, agora, a luz que há, tremeluz. É parca luz amarela.

Há um distante ponto de luz do abajur que se insinua pela porta semi-aberta no final do corredor, um ponto amarelo que parece estar a quilômetros de mim. Então eu vejo duas clarabóias mínimas e rubras, aqui pertinho de mim. Cintilam. Mas não refletem luz, pelo contrário, de fato elas parecem engolir a luz que resta nesse mundo. Vejo raios de luar entrarem pela janela e desaparecerem naqueles pequenos buracos oblongos e imóveis. Nenhum pulso e o mundo enegrecendo, enegrecendo, vou desaparecer, eu quero gritar. Sou lançada noutro universo. Fui raptada, tenho certeza. Estou em pânico.

Diante do marciano, meu coração perde o compasso, meu sangue transborda como cachoeira. A mente tenta resistir e me diz que encontrar um marciano pode não ser o fim afinal, me diz, mas então, as cintilações rubras começam a se mover, não vou suportar... agora os pontos vermelhos estão soltando pequenos raios, vermelhos, vermelhos, são paralisantes, não vou suportar..., de repente, os raios se apagam, me vejo cega, o chão foge, os joelhos doem e me despenco num abismo negro até que ressurge um inferno rubro à altura de meus olhos e um estertor rouco invade meu tímpano. Grito. Gritam. Urro, urram. Salto. Saltam. Todo o universo se fragmenta em raios e ruídos dissonantes que desabam sobre mim. Sou mil pedaços desarticulados.

Alcanço o interruptor, e o mundo é, outra vez, inteiro e pálido. Outro choque, ele está ali, de pé, de nariz para o alto e quieto. Olha pra mim como se eu fosse um inseto dessecado, mostra-me dentes afiados, ronrona, e começa a espreguiçar preguiçosamente. Alonga-se, alonga-se. É todo um longo bocejo entediado. É um sarcasmo. Afasta-se, desdenhando. Desmascara minha histeria, devora minha ilusória diferença, desdenha da minha dor, me joga na cara a idiotice da minha aflição, minha vaidade, a esperança, ah, quanta banalidade! Agora vem o choro. Isso me acontece por causa do Wolf. Eu morro de vergonha. Por que Wolf desata em mim este furor de nada? Ele detesta meu desespero. Ele vai embora por causa do meu desespero. Envergonhado, meu coração demora pra se reunir, e meu sangue se atropela nas vias embaraçadas do meu corpo. Quero me reerguer, mas é só um querer, logo sou ruína e, novamente, desmorono. Desanimo e me largo ali mesmo no chão. Só lágrimas. Minha mente quer sobreviver a tanta mediocridade mas apenas colabora para o espancamento que estou sofrendo, e grita comigo dentro da minha cabeça: isto significa apenas que você está, e vai ficar, no inferno. A sua vida é um inferno. E a vida é inapelável. Compreendo. Minha mente me abandona no inferno. Mas demoro pra me consumir, sou vaso ruim, osso duro de roer, minha garganta resiste, e se abre, engulo um seco. Percebo: inapelável é engolir em seco nesta vida humana. Mas posso ser irremovível. Há mais que mentes em mim. Há muito mais em mim, outros sussurros, e então.. recomeçam meus internos debates eternos. E quero me reerguer.

- Inapelável é amar por amar. É desejar alguém suave e forte dentro de si. Só por querer. Pulsando. Outro em si. Quem sabe disso?

Meus olhos conseguem devagar um foco razoável, e vejo o meu gato onipresente em seu espreguiçar contínuo, suave, quase angélico, diante de mim. Vira-me as costas, e desfila a sua inabalável exuberância indiferente. Decido: de agora em diante, isto é, às dezenove horas e vinte e cinco minutos do dia vinte e oito de dezembro de mil novecentos e noventa e cinco eu deixei de amar os gatos. Já me sinto melhor, nada como tomar decisões, nada como dirigir a própria vida, ... como quando a crise começa a passar. Então sossego, e me entrego à minha espampanante feminilidade, espampanante!, ainda rio de mim mesma, e meu sangue retorna a meus veios. Enrosco-me. Um dia eu ainda vou ser gato. Nada mais calmante que tomar decisões como essa na vida: um dia eu ainda vou ser gato. Ai, por que Wolf me dilacera assim? Por que Wolf é meu demônio? Não terá fim essa queda?

Pelo caminho que o gato seguiu eu me arrasto, sem elegância mas decidida a decidir a quem irei amar de hoje em diante, por exemplo, não amo mais os gatos e encontro este meu gato cheio de conforto, tranqüilo, com estes grandes olhos de clarabóias me dizendo ‘bocó’...’ e eu respondo argh, brghhhh... ele nem tchumm, engulo outro seco de vergonha porque ele ocupa inteiro o centro certo da minha cama, quero deitar-me, peço licença... dá licença... chega pra lá um pouquinho... ele nem tchum, e ousado se enrosca em meus pés... sem pedir licença, gato é, gato é o quê? , é gato... e eu? Sou o quem? Não sou o quê, sou quem... mais que eu, o que há a mais em mim que eu?.... Então eu grito. Berro. E chuto este gato. Sim. SAIAAAA! Grito novamente. CHUTO ESTE GATO. O que há além de mim em mim... E choro. WOLF. Levanto e grito: Wolf.

A chuva voltou. A campainha toca.

- WOLF?

CODA: "O amor já de si....etc." Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CONCURSO: PEDAÇOS


Foto: Com a perna no mundo
Nome: Rosane Palha



Com a perna no mundo - Gonzaguinha


Acreditava na vida

Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer

Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade

O Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu

E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar

Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá

Mas, e daí, ô ô ô e á
O moleque acabou
De chegar ô ô ô e á
Nessa cama é que eu quero
Sonhar, ô ô ô e á
Amanhã bato a perna no
Mundo, ô ô ô e á
É que o mundo é que é....


Aproveite e ouça: http://www.youtube.com/watch?v=PtE48yc_AO0

Sinta muita saudade e se lembre que: há que sonhar! Gonzaguinha está entre o que há de melhor no Brasil. Obrigada Rosane!



Ser tão quase...: Manoel, Rosa, Couto e tantos.

Outros. Nos próximos dias vamos falar em torno da palavra SERTÃO. E teremos por eixo o encontro Manoel de Barros/Guimarães Rosa.

“Nossa conversa era desse feitio. Ele inventava coisas de Cordisburgo. Eu inventava coisas do pantanal”. (Manoel de Barros, 1990)

“Os versos são coisas rupestres. Não podem ser explicados. São pinturas primitivas da nossa voz. Não tenho nenhuma estima pelas verdades. Gosto mais das semelhanças, as verossimilhanças. A verdade poética vem da harmonia, da letra, da sílaba etc. As verdades costumam vir da idéias, dos conceitos e coisas assim. Eu prezo a verdade poética, que de ser mágica e irreal.” (...)

“Acho que a poesia é a arte de nascer as palavras; é mais que o nascimento de um tema. Qualquer tema, até mesmo escatológico, tratado com vontade estética serve para a poesia. O nosso Guimarães Rosa, no meu entender, é imortal não tanto pelas histórias que construiu, mas pelas frases que desconstruiu”. (...)

“O poeta é um ser ‘letral’ mais que local. Posso ter chegado a outras geografias, mas gostaria de pensar que o motivo é lingüístico, não paisagístico. Acho que o fato de ser pantaneiro tem muito peso, mas passa pelo que o Pantanal tem de exótico, pelo que representa de lugar adônico”.

(Manoel de Barros: in entrevista originalmente publicada em Riba del dessemblat, publicado pela Editora Lleonard Muntaner, em 2005. Trata-se de uma antologia de poemas de Manoel de Barros, traduzidos por alguns poetas catalães, e reproduzida no Suplemento Literário de Minas Gerais, de abril/2009, dedicado à literatura brasileira na Espanha)

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá MT, 1916). Publicou seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. Formou-se bacharel em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1941. Nas décadas seguintes publicou Face Imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Gramática Expositiva do Chão (1969), Matéria de Poesia (1974), O Guardador de Águas (1989), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), O Fazedor de Amanhecer (2001), entre outros. A partir de 1960 passou trabalhar como fazendeiro e criador de gado em Campo Grande MS. Ao longo das décadas de 1980 e 1990 veio sua consagração como poeta. Em 1990 recebeu o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Manoel de Barros é um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Em sua obra, segundo a crítica Berta Waldman, "a eleição da pobreza, dos objetos que não têm valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais".

Do Livro das Ignorãnças – de Manoel de Barros

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV


No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para Dálias.
É quando ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.


(desenho de Karmo)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CONVITE: Arte de todos para todos. Superdica da ceramista Rosane Palha

(Anjo - de Rosane Palha)


QUASE-SER-TÃO CONVIDA E APOIA:

20ª Feira Nacional de Artesanato: Os quatro cantos da Arte no Brasil

Local: Expominas - Avenida Amazonas, 6.030 - Belo Horizonte

25/11/2009 a 29/11/2009

Quarta a Sexta-feira de 14 às 22hs
Sábado de 10 ás 22hs
Domingo de 10 ás 21hs

Stand da Rosane Palha: EE21.

Quando o barro se dobra, se entrega, se abre...

e se mostra...


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Lições de Calvino 4


“O elemento literário do ‘cômico’ tem importância para mim, mas não é a sátira a postura que reconheço como mais congenial.

A sátira tem um componente de moralismo e um componente de zombaria. Esses dois componentes, eu gostaria que me fossem estranhos, até porque não os amo nos outros. Quem é moralista acredita ser melhor que os outros, e quem zomba acredita ser mais esperto, ou melhor, acredita que as coisas sejam mais simples do que parecem aos outros. Em todo caso, a sátira exclui uma postura de interrogação, de busca. Não exclui, no entanto , uma parte forte de ambivalência, isto é, a mistura de atração e repulsão que anima qualquer satírico verdadeiro com relação ao objeto de sua sátira. Ambivalência que, se contribui para dar à sátira uma espessura psicológica mais rica, nem por isso a transforma em instrumento de conhecimento poético mais dúctil: o satírico é obstaculizado pela repulsão por compreender melhor o mundo pelo qual é atraído, e obrigado pela atração a ocupar-se do mundo que lhe causa repulsa.

O que busco na transfiguração cômica ou irônica ou grotesca ou na chalaça é o caminho de saída da limitação e univocidade de toda representação e de todo julgamento. Podemos dizer uma coisa ao menos de duas maneiras: a maneira como quem a diz quer dizer aquela coisa e somente ela. E uma maneira como queremos dizer, sim, aquela coisa mas ao mesmo tempo recordar que o mundo é muito mais complicado e vasto e contraditório. A ironia ariostesca, o cômico shakespeariano, o picaresco cervantino, o humor sterniano, a truanice de Lewis Carroll, de Edgar Lear, de Jarry, de Queneau valem para mim na medida em que, por meio deles, alcançamos essa espécie de distanciamento do específico, de sentido da vastidão do todo.

(...) Dessas predileções derivam minhas reservas quanto à sátira, concentrada como ela é, com paixão exclusiva e ambivalente, no pólo negativo do próprio universo, atenta em manter fora da própria contestação do eu do autor. Porém, aprecio e amo o espírito satírico quando ele aparece sem uma intenção específica, à margem de uma representação mais ampla e mais desinteressada. E decerto admiro a sátira e me torno pequenino diante dela quando a carga da fúria derrisória é levada às últimas conseqüências e ultrapassa o limiar do particular para pôr em questão todo o gênero humano, como em Swift e em Gogol, confinando com uma concepção trágica do mundo. (Ítalo Calvino – Assunto Encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade, 1980 – Companhia das Letras, 2009)