domingo, 8 de novembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS - XIX - "É que a realidade é inacreditável"

Enquanto o esperava para que, por alguns minutos, junto dele, recuperasse alguma intimidade com o mundo e pudesse sentir por alguns minutos o sentimento de si, puxou, irrefletidamente, um livro da estante. Novamente Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Sentou-se no sofá mais amplo, de costas para a porta de entrada, e recomeçou a leitura. Sentiu-se aquecida e esqueceu-se. O ranger da porta não a atraiu mas um clamor de alma se ouviu, e um pressentimento tremulando a sua pele comunicou a presença atrás de si. E então ela levantou o rosto girando levemente a cabeça para trás e para cima. Ele caminhava devagar e sorria calmo. Ela reviu o rosto relaxado onde os olhos pequenos, desproporcionais à amplidão quadrada da face disparavam flechas invisíveis. E incendiárias. Ele era um samurai. Precisos disparos não lhe custavam movimento algum. Sentiu a macia penetração das flechas e as acolheu com o corpo inteiro, vibrando cada poro. Aprendera a encontrá-lo. Aprendera a estar com ele – sem palavras, nem gestos. Silenciosamente fervente. Ele vestia a camisa pólo azul do clube dos homens. Era um deboche. E nele o deboche ficava mais debochado. Temperado de ironia. A camisa descia desdenhosa sobre a calça jeans no desalinho elegante que lhe ampliava o peito. Sentou-se à sua direita, meio metro à distância, e olhou para o brilho novo do assoalho. Ela lembrou-se do único momento em que o tocara: o abraço pelo aniversário. Reviveu aquele átimo de aconchego no rápido contato dos lábios em sua face: inesperado beijo inteiro. Então, ele levantou a cabeça movendo apenas o pescoço e lhe acertou diretamente os olhos. Falou como quem diz: eu tenho sede: eu estou apaixonado. Nenhum músculo se apresentou. O rosto era sossegado como um lago sob lua em noite de verão sem vento. O corpo estava solto sob as roupas. O tronco tombado para frente descansava sobre os braços apoiados nas coxas. Ele mantinha o rosto virado mostrando as duas fontes abrasadas que eram os seus olhos. Ela permaneceu quieta recebendo as luzes. Deixou-se iluminar. Havia anos encontrava-o duas manhãs a cada semana. Duas vezes a cada manhã ..., ao todo, contando a vez de agora, mil duzentas e sete vezes. Reviu as vezes em que tentou conversar. Ressentiu a incômoda indiferença de seus monossílabos. Percebeu então o aprendizado lento que lhe fora imposto durante o tempo em que ele promoveu uma gradativa e constante aproximação sem palavras. Até o momento do abraço. Um agasalho. Depois do abraço aprazou-se no calor que lhe restou no corpo, demarcando-lhe cada pedacinho da pele tocada por ele. Deixava-se lentamente arder. Lembrou-se que não o percebera até uma manhã em que: ... sentia apenas dores e temor quando alguém ao lado disse algo incompreensível e apontou um homem, de costas, barrando-lhes o caminho. Desconsiderou o comentário e para disfarçar a dor cantarolou: “.. passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão...” , então, o homem se voltou e literalmente fugiu espremendo-se contra a parede. Para conseguir escapar ele segurou-lhe com força o braço. Foi a primeira ardência. Em faixa, onde começa o braço direito. Um permanente incêndio. Desde aquele momento começou a caçá-lo. Nos primeiros dias confundia-o com todos. Mal o vira. Tinha tão poucos elementos: um homem que causa queimaduras. Viste? Não podia perguntar isso. Uma manhã, em meio à monótona melodia da multidão percebeu um descompasso. Era ele. Totalmente confortável dentro da dissonância que parecia causar ao redor. Ele simplesmente prosseguia sua melodia. Bom dia. Não houve resposta. No dia seguinte acreditou surpreende-lo seguindo-a. Primeiro engano. Ele mais se deixava surpreender. Logo aprendeu. A verdade é que ele não duvidava nunca. Estava sempre calmo e em paz, vivendo a vida pacificamente, gota a gota, saboreando cada segundo, cada mínimo átomo. Em outra manhã, quando ainda sofria dores e despeito,ela trombou com ele, desastrada e distraída, quando entrava com pressa na sala de aula. Ele disse apenas: ‘heiiiii, com licença’. E se foi sem olhar pra trás. Nas manhãs seguintes, ele a fez saber que era seguida. Que a vigiava. Depois fez com que ela visse que não era perseguida. Apenas a assistia. Ela aquietou-se. E o soltou. Quase se destemperou quando encontrou as mãos que eram as mãos dele. Ele gostava de tocar violão. Conteve-se. Amou-o a mais. E se foram anos. Voltou, e o reencontrou samurai sentado ao seu lado, olhando olhando depois de ter dito:eu estou apaixonado. Ele se impregnava de silêncio e mantinha sem desconforto a posição torcida. Esperava em paz. A faxineira saiu barulhando a porta. Ainda incapaz de estar no momento de agora, capaz apenas de lembranças, ela abaixou a cabeça e disse: - é desconcertante não encontrar a palavra. Você é zen-budista? Tolerante, ele sorriu silente. Depois disse: seremos.

Agora neste momento, desatinada de ansiedade, olhando Wolf solto sobre a cadeira de balanço, lendo, tão concentrado, o livro que escreveu aos sobressaltos, Lóri só se acalma lembrando-se dele, e fugindo dele ali concentrado lendo seu livro. E Lóri quer gritar mas não grita. Decide decorar outra vez Drummond: dorme que eu te dou
um vestido, um país, te dou... ah isso não dou não
...’ e se levanta para procurar o poeta na estante.

CODA: É que a realidade é inacreditável. Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Dorme que eu... etc. Canção para ninar mulher, Carlos Drummond de Andrade. As vitrines, Chico Buarque. Chico é ótimo com Chico. As vitrines também são boas com Paulinho Moska. Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=SnkUF916iyM

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