quinta-feira, 19 de novembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS XXI - Lóri se cura.

“Multipliquei-me para me sentir, para me sentir precisei sentir tudo, transbordei, não fiz senão extravasar-me, despi-me, entreguei-me, e há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente...’. Segunda-feira, e me sinto num beco sem saída, onde uma coisa não identificada, dura e fria, ameaça furar-me a barriga e me grita em voz rouca: fala. Quero rir da minha imaginação, desdenhar a tal voz rouca e decido desafiar o tal beco barrado. Penso na possibilidade de presentes, que são embrulhos de inimigos ocultos. Quero vomitar e quero rir novamente, pois me imagino construindo conclusões em dezembro. Não. Ficarei sozinha na casa vazia, sem gente, sem móveis. Não vou ceder em nada. Sem pensar em porquês, penso que isso deverá durar mais tempo, mais que dezembro. Levanto os olhos e vi os mesmos carros, os mesmos que me ameaçam a cada manhã. Hoje os vejo diferente, algo importa e não é a mediocridade geral. Sinto um arrepio no meio certo da barriga, esquisito, um arrepio marca meu centro. Estranho, nunca antes percebi meu próprio centro.

Melhor voltar para casa. Casa: exatamente: quarto, colchão no chão, roupa de seda na cama. Livros, som, televisão. Roupas no chão. Gosto. Respiro. Sala, livros, discos, televisão, tapete, e a tela da mulher em rosa. Plantas. Cozinha, alguma comida. E o gato. Lúcio, negro e indiferente. Pensei que minha casa estava vazia, e a vejo agora: já está muito cheia. Rio de mim, me sinto bem humorada, engraçado isso, caminho lentamente agora, estou calma, olho diretamente para o mundo e vejo idiotas apressados e atrasados.

Percebo meus ossos, estou certa de um novo prumo. Chego. Abro as janelas do escritório e gosto da cor amarela desse lugar. Rio. Reconheço minha nova superstição e sei que essa magia vai crescer. Adoro isso. Agora vou brincar com a vida. Se não me segurar vou gargalhar.

Passos. São passos de Pedro, mas não quero ouvir. Vejo sua beleza branca, esses olhos negros sobre o nariz fino, esse maldito jeito de chegar inteiro... ops! Há uma diferença: não tenho medo dele. Acabou. Melhor: não acabou medo algum, nunca tive medo de Pedro, não o quero mais. Acabou meu querer. Humm. Interessante correção, amanhã eu penso nisso: fica para a sessão de análise. Humm. Pedro: bonito e inteligente, bom profissional, perspicaz, bom, humm, medroso, inseguro, tenta ser debochado, defesa burra!, deixa de falar em rosas amarelas, não se sabe fingir de múmia, tem medo de sexo..., normalmente é assim, um homem comum, só se mostra quando mergulha, mas emerge tão rápido!, me enchi dessa entrega fugaz... me enchi. Rio. Não quero mais saber, que assim seja, fim. Aliás talvez não eu vá a análise nenhuma. Nunca mais. Chega. Com certeza, nunca mais. Livre de Pedro, ufa, enfim, basta balançar esses ombros. Não. É resistência, não sou assim. Droga. Agora sou assim sim. Mudei. Novo prumo. E não quero mais esse Pedro. Estranhas minhas mãos, estão magras, ossudas. Pensei que estavam gordas, lerdas. Bonitas minhas mãos, sei que Pedro me vê vendo-as, idiota, não sabe dizer nada. Quero trabalhar muito, e não direi palavra. Fico muda; e assim emudeço o Pedro. Pedro nunca ousa. Não vou almoçar hoje; quero emagrecer. Pronto, basta esse iogurte. Wolf... Wolf ama este iogurte. Chega, não vou pensar em Wolf. Me enchi de tudo. Será Wolf aquele que eu ando procurando? Desconsidere. Hummm. Terei de gritar? Desconsidere. Não adianta tentar respirar por essa janela, mesmos carros, trânsito, trânsito... Mil carros. Rua entupida. Vermes em proliferação. Vermes. Pára com isso, acabou esse vício: essa coisa trágica! Não se esqueça: você mudou. É, mas vai ser difícil me livrar desse vício: o trágico. Não tem mais iogurte. Wolf. Tantas vezes chorei, tantas noites, não dormi, chorei, chorei. Chega agora. Já sei viajar sozinha. É assim, viagem ao desconhecido. Que seja assim. Minhas mãos estão envelhecidas. Secas. Eram bonitas antigamente. Ágeis. Magras. Não me importa. Minha filha tem lindas mãos, ahh, maldita emoção, ‘veja se não é entre meus erros, uma imprevista verdade’. Maldito Drummond. Quero paz. Adeus tudo, desanimei. Ah, ainda posso ouvir clube da esquina 2. Rio. Melhor me segurar, ah, naquele distante dezembro de 79, aquele dezembro, Wolf desistiu de vir, deixou-me, escolheu Pedro, disse que não viria mais até Pedro não sentir mais ciúme. Inferno. Wolf não se importava como ciúme de Pedro mas não tolerou que Pedro não o confessasse, não o tolerou, a covardia de Pedro sempre machucou Wolf. Wolf não machuca ninguém. Machuca a mim? Não. Machucava-o minha tragédia. Wolf odeia minha tragédia. Por que Wolf pensa que sou mais forte que Pedro? Odeio que me pensem forte. Wolf odeia que eu não me pense forte. Não sei se Pedro se cura, Wolf não sabe se Pedro se cura. Ninguém sabe. Não me importo. Agora sei o que quero. Wolf sabe também. Espero em paz. Volto a 79 e me livro dos muitos dezembros que sofri, que me desesperei esperando Wolf. Esperando meu natal. Não há mais desespero. Não há mais medo de Pedro. Sei o que quero. Pedro sem medo. Um dia, Pedro e Wolf serão um. E talvez seja natal...

(Ulisses e as sereias - Herbert Draper)

CODA: 'Multipliquei-me para me sentir...etc.' Passagem das horas, Fernando Pessoa. 'Veja se não é entre meus erros...etc.' Carlos Drummond, para Julieta.

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