sábado, 21 de novembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS XXII – DA SOLIDÃO NECESSÁRIA

“ O que se torna preciso, é no entanto isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança...”. - Não se esqueça da liberdade. Lembre-se. Quer ver? Escuta. Haja o que houver, alguma coisa poderá ser feita, dane-se tudo, mas você não desista, sempre se pode fazer alguma coisa. Você faça. Não espere. Eu faço tudo, mil vezes, qualquer coisa pra você, um milhão de vezes, mas não adianta um nada para você. Pouco sei, mas disso eu sei: faço para você, mas não adianta. Entenda. Quer ver? Escuta. Escutou? Faça.

Este era meu pai me ensinando a viajar. Eu não o conhecia quando o ouvi falar assim. Ele estava emocionado e me pareceu forte como um cavalo. Bonito e inquieto. In-tré-pi-do, a palavra ecoava suavemente em meus ouvidos enquanto eu o escutava. Depois de abraçar o meu destino, determinado pela única direção clara e inteira que ele – só ele – emocionado – me dava – faça você mesmo -, eu lhe admirava o porte. Outro verso. Modos. As composições. Atitudes. As posições. Ele parecia calcular cada milímetro. Como parecia calcular cada sí-la-ba, cada som. Eu me acalmava, e parte de mim deliciava-se em extrapolar-me assim. Ao entregar-me à contemplação de seus modos. Meu pai parecia nunca se distrair; estava sempre no próprio corpo. Era todo presença.

- Melhor é a consciência de liberdade. Difícil é a consciência de liberdade.

Ele sabia que quem é, se mostra, e por isso se cuidava. Ele sabia também que ser assim – faça você mesmo – é uma grande e dura prova humana, sabia que me legava uma imensa tarefa, mas inescapável; meu pai sabia a condição de humanidade. E se apiedava de mim. Apiedou-se até o fim, quis ensinar-me a morrer quando ele mesmo morria. Mas não falarei disso. Ainda não. Não posso. Não quero. A solidão. A compaixão de meu pai ainda me sustenta; tal como me sustentou sempre que a humana sina me surpreendeu nas curvas do caminho – quando a morte quis me abraçar na infância, e novamente na adolescência, quando tive de deixar a sua casa, quando... quando – e ainda me sustenta. Compadecia mas não vacilava quanto à lição que se impunha: faça sozinha.

- É o preço da liberdade.

Ele disse. Continuou: ter tamanho, vergonha na cara, prudência na alma, silêncio nos lábios. E fechou o pacote com um laço forte e bem feito.

Era à tarde, pelas cinco talvez, o sol fraquejava pela minha esquerda e brilhava-lhe a face direita. Eu o via em cores, e inteiro, como sempre se mostrava. Eu o descobria agora num depois das palavras. Altivo, imponente e arisco como um grande felino selvagem. Eu começava a me situar. Ele pegou minhas malas sem olhar pra mim e se encaminhou para o carro. Ajeitou-as perfeitamente. E concluiu sem se virar: - quer ver? Escuta. E voltou para dentro de casa sem se despedir. Fiquei olhando.

Ele era grande. A sombra cobria toda a murada. Ele era um gigante. Desde então, esta é a imagem mais calma de mim: meu pai em cores maiores que a sombra, movendo-se com calma, me dizendo: quer ver? Escuta. Mil anos depois, eu procurava uma palavra que o consolasse do assédio da morte, mussitava, eu compreendo, gaguejava: a vida humilha, a vida submete... e ele reagiu! Não me sinto assim. Eu estremeci. Não se esqueça: faça você mesmo. Não solte seu direito; quanto à morte, pior é pensar que você vai ter que... Não. Disso ainda não falarei. Eu quis morrer. Ele ainda se punha maior apesar de tudo, ele sabia que eu precisava de um maior que eu e se dispôs até o fim. Eu fui só solidão. Ele se assustou com meu tremor, teve compaixão, e me consolou:

- Como acontece com todo mundo.

Esta foi a primeira e última vez que Lóri falou-me de seu pai. A última frase: como acontece com todo mundo. Não sei se ela nunca mais falou porque sabe o quanto me incomoda. O quanto me enlouquece; nada sei de pai. Sei que Lóri fala com Estevão; que conversam sempre. Mesmo depois da morte de Estevão. Falam de pais. Eles se amaram, entendem tudo de pais. Ela sorri e desconversa quando eu lhe digo que meu amor é do tamanho do vazio que ela carrega. É linda quando vem pra mim; tantas vezes eu quis morrer ali. Ela foi capaz de sorrir e dizer: tudo bem. E me deixar dormir. Não sei se Lóri se inteirou. Ela me escapa, ainda escapa.

Uma indizível poesia.

CODA: ‘O que se torna preciso....etc.’, Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke.

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