quinta-feira, 26 de novembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS XXIII – O amor volta...



“O amor, já de si, é algum arrependimento...” esta é uma tarde de vinte e oito de dezembro. Chove há dias e a pouca luz entristece, lentifica, tudo parece devagar, tudo a esperar, ou tudo parece agonizar. Agora, eu sei, eu confundo todas as coisas. Por isso, eu também penso que o mundo está mais macio. O mundo está com um jeito de edredom. É isso, eu confundo todas as coisas. Elas se misturam em mim. Elas ficam como eu me sinto, eu fico como as coisas me parecem. A euforia vivida pelo natal afrouxou, respira-se uma certa ressaca, embora, como sempre, a ressaca esteja disfarçada na expectativa ansiosa do ano novo. Eu já disse essa mesma coisa muitas vezes, eu me repito muito, mas a insistência do ser humano é absurda e ridícula. Noutras palavras, espera-se a primeira manhã. Fé na boa fada, no gênio bom. E todo fim de ano é a mesma ladainha. Eu também sou um humano bem comum. Assim do tipo medíocre. Assim apesar da recente frustração com os embrulhos coloridos, a esperança do ano novo, a esperança do bom, ainda vence a chuva e a desilusão, como se a chegada do novo já estivesse marcada naquele calendário que esperou sobre a mesa durante trezentos e cinqüenta e quatro manhãs... esperando a manhã do dia primeiro... o primeiro dia. O ano novo. Sinto um certo asco, um enjôo de mim, mas, apesar de tudo, persevero, e também, e também espero. E me sinto a mais ridícula das criaturas. Estou renovada, eu mudei, eu me minto: quase não consumo, estou sozinha em casa, a família viajou, eu quis ficar, à toa, estou de férias, à toa, habito minha casa. É certo, estou diferente. Sou diferente. Tento me convencer. Ouço a chuva, e o telefone toca.

Wolf está tranqüilo, se diz saudoso. Daquele jeito lacônico, quase mudo, que ele tem de dizer as coisas. Diz que quer vir, eu digo que quero que venha, mas me queixo de que ele sempre muito demora pra chegar. Wolf me faz dizer muito mais coisas do que eu queria dizer. Sempre escapa. Mas ele chega mais bonito ainda. Seu corpo parece maior, os ombros estão ainda mais largos. Os olhos calmos são águas-marinhas esverdeadas, que combinam com as folhas lavadas das árvores que espiam pela janela. Eu me embalo fácil... gosto de ver as coisas pelo avesso, e todo esse verde parece sussurrar pra mim: vem! Os ombros enormes também estão verdes, como o verde da floresta amazônica, visto de cima, do avião, num fim de tarde com sol manhoso, assim como depois da chuva de hoje. Ele veste um delicado suéter de lã verde. Eu pulo do avião, caio num abraço imenso, que aos poucos começa a me aquecer. E me incendeia. Um incêndio que me derrete. Perco pele, carne e ossos. Viro vento morno, lépido, beijo árvores água e olhos. Olhos de transparência de luar. Meu Deus!, eu sempre exagero. De repente, a lua apareceu num céu sem nuvens. A chuva continuou sua viagem, e, lavada e fresca, a noite chegou em prata. Chegou também um arrepio. Voltou meu peso, pousei, e quando eu lhe disse ‘tchau’ e fechei a porta tudo escurou completamente, pois, agora, a luz que há, tremeluz. É parca luz amarela.

Há um distante ponto de luz do abajur que se insinua pela porta semi-aberta no final do corredor, um ponto amarelo que parece estar a quilômetros de mim. Então eu vejo duas clarabóias mínimas e rubras, aqui pertinho de mim. Cintilam. Mas não refletem luz, pelo contrário, de fato elas parecem engolir a luz que resta nesse mundo. Vejo raios de luar entrarem pela janela e desaparecerem naqueles pequenos buracos oblongos e imóveis. Nenhum pulso e o mundo enegrecendo, enegrecendo, vou desaparecer, eu quero gritar. Sou lançada noutro universo. Fui raptada, tenho certeza. Estou em pânico.

Diante do marciano, meu coração perde o compasso, meu sangue transborda como cachoeira. A mente tenta resistir e me diz que encontrar um marciano pode não ser o fim afinal, me diz, mas então, as cintilações rubras começam a se mover, não vou suportar... agora os pontos vermelhos estão soltando pequenos raios, vermelhos, vermelhos, são paralisantes, não vou suportar..., de repente, os raios se apagam, me vejo cega, o chão foge, os joelhos doem e me despenco num abismo negro até que ressurge um inferno rubro à altura de meus olhos e um estertor rouco invade meu tímpano. Grito. Gritam. Urro, urram. Salto. Saltam. Todo o universo se fragmenta em raios e ruídos dissonantes que desabam sobre mim. Sou mil pedaços desarticulados.

Alcanço o interruptor, e o mundo é, outra vez, inteiro e pálido. Outro choque, ele está ali, de pé, de nariz para o alto e quieto. Olha pra mim como se eu fosse um inseto dessecado, mostra-me dentes afiados, ronrona, e começa a espreguiçar preguiçosamente. Alonga-se, alonga-se. É todo um longo bocejo entediado. É um sarcasmo. Afasta-se, desdenhando. Desmascara minha histeria, devora minha ilusória diferença, desdenha da minha dor, me joga na cara a idiotice da minha aflição, minha vaidade, a esperança, ah, quanta banalidade! Agora vem o choro. Isso me acontece por causa do Wolf. Eu morro de vergonha. Por que Wolf desata em mim este furor de nada? Ele detesta meu desespero. Ele vai embora por causa do meu desespero. Envergonhado, meu coração demora pra se reunir, e meu sangue se atropela nas vias embaraçadas do meu corpo. Quero me reerguer, mas é só um querer, logo sou ruína e, novamente, desmorono. Desanimo e me largo ali mesmo no chão. Só lágrimas. Minha mente quer sobreviver a tanta mediocridade mas apenas colabora para o espancamento que estou sofrendo, e grita comigo dentro da minha cabeça: isto significa apenas que você está, e vai ficar, no inferno. A sua vida é um inferno. E a vida é inapelável. Compreendo. Minha mente me abandona no inferno. Mas demoro pra me consumir, sou vaso ruim, osso duro de roer, minha garganta resiste, e se abre, engulo um seco. Percebo: inapelável é engolir em seco nesta vida humana. Mas posso ser irremovível. Há mais que mentes em mim. Há muito mais em mim, outros sussurros, e então.. recomeçam meus internos debates eternos. E quero me reerguer.

- Inapelável é amar por amar. É desejar alguém suave e forte dentro de si. Só por querer. Pulsando. Outro em si. Quem sabe disso?

Meus olhos conseguem devagar um foco razoável, e vejo o meu gato onipresente em seu espreguiçar contínuo, suave, quase angélico, diante de mim. Vira-me as costas, e desfila a sua inabalável exuberância indiferente. Decido: de agora em diante, isto é, às dezenove horas e vinte e cinco minutos do dia vinte e oito de dezembro de mil novecentos e noventa e cinco eu deixei de amar os gatos. Já me sinto melhor, nada como tomar decisões, nada como dirigir a própria vida, ... como quando a crise começa a passar. Então sossego, e me entrego à minha espampanante feminilidade, espampanante!, ainda rio de mim mesma, e meu sangue retorna a meus veios. Enrosco-me. Um dia eu ainda vou ser gato. Nada mais calmante que tomar decisões como essa na vida: um dia eu ainda vou ser gato. Ai, por que Wolf me dilacera assim? Por que Wolf é meu demônio? Não terá fim essa queda?

Pelo caminho que o gato seguiu eu me arrasto, sem elegância mas decidida a decidir a quem irei amar de hoje em diante, por exemplo, não amo mais os gatos e encontro este meu gato cheio de conforto, tranqüilo, com estes grandes olhos de clarabóias me dizendo ‘bocó’...’ e eu respondo argh, brghhhh... ele nem tchumm, engulo outro seco de vergonha porque ele ocupa inteiro o centro certo da minha cama, quero deitar-me, peço licença... dá licença... chega pra lá um pouquinho... ele nem tchum, e ousado se enrosca em meus pés... sem pedir licença, gato é, gato é o quê? , é gato... e eu? Sou o quem? Não sou o quê, sou quem... mais que eu, o que há a mais em mim que eu?.... Então eu grito. Berro. E chuto este gato. Sim. SAIAAAA! Grito novamente. CHUTO ESTE GATO. O que há além de mim em mim... E choro. WOLF. Levanto e grito: Wolf.

A chuva voltou. A campainha toca.

- WOLF?

CODA: "O amor já de si....etc." Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário