domingo, 22 de novembro de 2009

DO AMOR I

(A metamorfose de Narciso - Salvador Dali)


O DISCÍPULO

Quando Narciso morreu, o lago de seu prazer transformou-se de receptáculo de águas doces em poço de lágrimas salgadas, e as Oreádes vieram chorando pelo bosque cantar para o lago e dar-lhe conforto.

E quando viram que o lago havia se transformado de poço de águas doces em poço de lágrimas salgadas, soltaram as tranças verdes de seus cabelos, choraram pelo lago e disseram:

- Não nos admiramos de que chores desta maneira por Narciso, tão belo era ele.

- Mas Narciso era belo? – perguntou o lago.

- Quem saberia melhor do que tu? – responderam as Oréades. Por nós, ele sempre passava direto, mas tu ele procurava, e deitava-se à tuas margens e fitava-te, e no espelho de tuas águas admirava sua própria beleza.

E o lago respondeu:

- Mas eu amava Narciso porque , quando ele se deitava em minhas margens e olhava pra mim, no espelho de seus olhos eu sempre via minha própria beleza refletida.

(Oscar Wilde – 1854-1900)

CODA: As oréades eram um tipo específico de ninfas que habitavam e protegiam as montanhas, cavernas e grutas. Elas não eram imortais, porém tinham vida muito longa e não envelheciam. Tinham ainda o dom de curar, profetizar e nutrir. Eco era uma oréade que foi privada do dom da fala por Hera, sempre enciumada e, desde então, foi condenada a repetir os sons que são produzidos em montanhas e grutas. Eco amou Narciso, em vão, não podia falar com ele e só lhe repetia as palavras.

(Ninfa Eco, Nicolas Poussin -1594-1665)

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