domingo, 29 de novembro de 2009

Grande Ser tão...

"Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?"

O sertão é sem lugar.

O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa.

Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas.

O Sertão de Guimarães Rosa é um mundo construído na linguagem, assim Guimarães se liberta e nos liberta. Os sertões são muitos. Guimarães Rosa escreveu como se fosse o próprio sertão. Ou talvez, construiu-se buscando um lugar/tempo que denominou sertão. Ouvindo Mia Couto declarar-se leitor e aprendiz de Guimarães, ouvi: “tal processo de construção de um lugar fantástico permitiu ao brasileiro alcançar o sentido sugerido pela palavra em si: ser-tão, existir-tanto”. Nesse momento, encontrei o nome do nosso clube de arte: Quase-Ser-Tão. Mia Couto prosseguia: “ Na obra de Guimarães Rosa, o tempo não é vivido, mas sonhado. As coisas importantes da vida vão para além do tempo, libertam-se da ditadura da realidade. Para se libertar da prisão que é a realidade, fechada com a chave da razão, é preciso desvalorizar suas paredes”. E concluiu: "Somente renovando a língua se pode renovar o mundo”.

(Mia Couto)

“ Procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei. Só que fui demais, o que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe: tudo o que não é oração, é maluqueira... então, não se vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador... (Grande Sertão: Veredas)

Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

O sertão é uma espera enorme.

CODA: Colagem de citações de Guimarães Rosa sobre o sertão. Texto-relato Quase-Ser-tão. Fragmento de Grande Sertão: Veredas

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