segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Lições de Calvino 4


“O elemento literário do ‘cômico’ tem importância para mim, mas não é a sátira a postura que reconheço como mais congenial.

A sátira tem um componente de moralismo e um componente de zombaria. Esses dois componentes, eu gostaria que me fossem estranhos, até porque não os amo nos outros. Quem é moralista acredita ser melhor que os outros, e quem zomba acredita ser mais esperto, ou melhor, acredita que as coisas sejam mais simples do que parecem aos outros. Em todo caso, a sátira exclui uma postura de interrogação, de busca. Não exclui, no entanto , uma parte forte de ambivalência, isto é, a mistura de atração e repulsão que anima qualquer satírico verdadeiro com relação ao objeto de sua sátira. Ambivalência que, se contribui para dar à sátira uma espessura psicológica mais rica, nem por isso a transforma em instrumento de conhecimento poético mais dúctil: o satírico é obstaculizado pela repulsão por compreender melhor o mundo pelo qual é atraído, e obrigado pela atração a ocupar-se do mundo que lhe causa repulsa.

O que busco na transfiguração cômica ou irônica ou grotesca ou na chalaça é o caminho de saída da limitação e univocidade de toda representação e de todo julgamento. Podemos dizer uma coisa ao menos de duas maneiras: a maneira como quem a diz quer dizer aquela coisa e somente ela. E uma maneira como queremos dizer, sim, aquela coisa mas ao mesmo tempo recordar que o mundo é muito mais complicado e vasto e contraditório. A ironia ariostesca, o cômico shakespeariano, o picaresco cervantino, o humor sterniano, a truanice de Lewis Carroll, de Edgar Lear, de Jarry, de Queneau valem para mim na medida em que, por meio deles, alcançamos essa espécie de distanciamento do específico, de sentido da vastidão do todo.

(...) Dessas predileções derivam minhas reservas quanto à sátira, concentrada como ela é, com paixão exclusiva e ambivalente, no pólo negativo do próprio universo, atenta em manter fora da própria contestação do eu do autor. Porém, aprecio e amo o espírito satírico quando ele aparece sem uma intenção específica, à margem de uma representação mais ampla e mais desinteressada. E decerto admiro a sátira e me torno pequenino diante dela quando a carga da fúria derrisória é levada às últimas conseqüências e ultrapassa o limiar do particular para pôr em questão todo o gênero humano, como em Swift e em Gogol, confinando com uma concepção trágica do mundo. (Ítalo Calvino – Assunto Encerrado – Discursos sobre literatura e sociedade, 1980 – Companhia das Letras, 2009)

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