sexta-feira, 27 de novembro de 2009

No pantanal com Guimarães Rosa - Manoel de Barros


“Andamos para ver a roça de mandioca. Tatu estraga muito as roças por aqui. Há muito tatu, Manoel? Eles fazem buraco por baixo do pau-a-pique, varam pra dentro da roça, revolvem tudo e comem as raízes. Remédio contra tatu é formicida. Fura-se um ovo, bota formicida dentro e esquece ele largado no solo da roça. Rolinha passa por cima e nem liga. Mas o tatu espurga, vem e bebe o ovo. Sente a fisgada da morte num átimo e sai de cabeça baixa, de trote pra o cerrado, penando na morte. Homem é igual, quando descobre sua precariedade, abaixa a cabeça. Já sabe que carrega sua morte dentro, seu formicida. Essa é a nossa condição – Rosa me disse. Falou: eu escondo de mim a morte, Manoel. Disfarço ela. Lembra o livro do nosso Álvaro Moreira? A vida é de cabeça baixa? Deveria de não ser – ele disse. Chegamos perto da metafísica. E voltamos. Havia araras. Havia o caramujo perto de uma árvore. Ele disse: Habemos lesma, Manoel. Eu disse: caramujo é que ajuda árvore crescer. Ele riu. Relvas cresciam nas palavras e na terra. Rosa escutava as coisas. Escutava o luar comendo as árvores. E, como é o home aqui, Manoel? Eu fui falando nervoso. Ele queria me especular. O homem se completa com os bichos – eu disse -, com os seus marandovás e com as suas águas. Esse ermo cria motucas. Por aqui não existem ruínas de civilizações para o homem passear dentro delas. Só bichos e águas e árvores para a gente ver. Não têm coisa de argamassa, ferragens destripadas do deserto, essas coisas que aparecem nos relentos da Europa. Aqui é brejo , boi e cerrado. E anta que assobia sem barba e sem banheiro. Rosa me olhou de esguelha”. (Manoel de Barros, in Gramática expositiva do chão, seção: Conversas por escrito (entrevistas: 1970-1989)


(Manoel de Barros)

(Tatu-Peba)


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

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