segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um século de literatura, liberdade e dignidade: Francisco Ayala

Considerado um dos grandes escritores do século XX, Francisco Ayala morreu a 3 de novembro deste ano, na sua casa em Madrid. Ayala encontrava-se com boa saúde até agosto, quando adoeceu com uma bronquite. Além de ter ganho o prêmio "Príncipe das Astúrias", o escritor espanhol foi distinguido também com outros prêmios, como o da "Crítica" em 1972, o "Nacional de Narrativa", em 1983 e o das "Letras Espanholas e Andaluzas" em 1988 e 1990.O escritor faria 104 anos em Março de 2010.


Aos dezesseis anos mudou-se para Madrid onde estudou Direito, Filosofia e Letras. Nesta época publicou as suas duas primeiras novelas, Tragicomedia de un hombre sin espíritu e Historia de un amanecer. No final da República exilou-se em Buenos Aires, onde passou dez anos trabalhando e colaborando na revista Sur e no diário La Nación. Nesse tempo foi co-fundador da revista Realidad. Posteriormente, ainda na década de 1950, Ayala passou a residir em Porto Rico, país no qual deu cursos na Faculdade de Direito. De Porto Rico viajou para os EUA onde foi professor de Literatura Espanhola nas Universidades de Princeton, Rutgers, Nova Yorque (NYU) e Chicago, embora mantendo estreitas ligações intelectuais e culturais com Porto Rico, onde igualmente viveram longos exílios Paul Casals e Juan Ramon Jimenez, entre outros. Em 1960 regressou pela primeira vez à Espanha e, pouco a pouco, reintegrou-se na vida literária espanhola. Em 1976 instalou-se definitivamente em Madrid, continuando o seu trabalho de escritor, conferencista e colaborador da imprensa. Em1983, aos 77 anos, foi eleito membro da Real Academia Espanhola e leu o seu discurso de entrada um ano depois. Até idade muito avançada continuou a escrever com plena lucidez. Em 1988 obteve o Prêmio Nacional de Letras Espanholas; em 1990 foi nomeado Filho Predileto de Andaluzia; em 1991 ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes e em 1998 o prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. A crítica dividiu geralmente a trajetória narrativa de Francisco Ayala em duas etapas: a anterior e a posterior à guerra civil.



Na primeira etapa, escreveu Tragicomedia de un hombre sin espíritu e Historia de un amanecer, que se inscrevem numa linha narrativa tradicional. Com El boxeador y un ángel e Cazador en el alba aborda a prosa vanguardista. Em ambas as coleções de contos predomina o estilo metafórico, o brilhantismo expressivo, a falta de interesse pela anedota e o fascínio pelo mundo moderno.


Após um longo silêncio, Francisco Ayala iniciou a sua segunda etapa no exílio com El hechizado, e que faz parte de Los usurpadores, livro composto por sete narrativas cujo tema comum é a ânsia do poder. A história serve aqui para refletir sobre o passado, a fim de conhecer com maior profundidade o presente. Em 1949 publica La cabeza del cordero, conjunto de relatos sobre a Guerra Civil Espanhola, nos quais presta maior atenção à análise das paixões e comportamentos das personagens que à crônica de acontecimentos externos. Muertes de perro constitui uma denúncia da situação de um povo submetido a uma ditadura, ao mesmo tempo que apresenta a degradação humana num mundo sem valores. El fondo del vaso é um complemento da novela anterior, que está presente neste novo relato através dos comentários que dela fazem as personagens. A ironia converte-se no recurso central desta obra, ainda que uma maior compreensão com o gênero humano vá substituindo o desprezo. Em algumas ocasiões, como em El hechizado, aproxima-se do mundo existencial e absurdo de Franz Kafka, com uma denúncia implícita da imoralidade e estupidez do poder.


Depois destas novelas Francisco Ayala continuou publicando relatos, como os recolhidos em El As de Bastos, El rapto e El jardín de las delicias , livro que se baseia no contraste entre a objetividade satírica da primeira parte, «Diablo mundo», e o tom evocativo, subjetivo e lírico da segunda, «Días felices». Em 1982 apareceu De triunfos y penas, e em 1988 El jardín de las malicias, onde recolheu seis contos escritos em diferentes épocas da sua vida.

Grande importância tem também a sua obra ensaística, que abrange temas políticos e sociais, reflexões sobre o presente e o passado de Espanha, o cinema e a literatura. Escreveu interessantes memórias: "Recuerdos y olvidos".


“A equanimidade não deve jamais titubear; até nossa paixão, nossos arrebatamentos, devem ser medidos e ponderados”. (Francisco Ayala - 1905 -2009)



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