quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ainda de bons votos

3.

Escolho uma idade à minha medida.

Guia-nos o sul, com redemoinhos de pó sobre a estepe;

Renques daninhos, pragas de gafanhotos,

As cintilações faiscantes das ferraduras polidas,

Tudo profetizava – visões

De monge – que eu iria perecer.

Peguei no destino, atei-o à sela;

E agora que estou no futuro, permaneço

Hirto nos estribos como uma criança.



CODA: in 8 Ícones – Arseniî Tarkovskiî – Assírio & Alvim, Coleção Gato Maltês, Lisboa, 1987. Em "8 Ícones", Paulo da Costa Domingos selecionou e traduziu alguns dos mais belos poemas de Arsenii Tarkovskiî.

Quem viu os filmes de Andrei Tarkovskiî teve, talvez sem o saber, um primeiro contato com a obra do seu pai, o poeta Arsenii Tarkovskiî, que declamada em obras como O Espelho e Andrei Rubliov.

Andrei Tarkovsky tem ainda entre suas obras primas, o belo filme O Sacrifício, a respeito do qual disse:

"O assunto que abordo neste filme é, na minha opinião, o mais crucial: a ausência de espaço para a existência espiritual, em nossa cultura. Nós ampliamos a meta das nossas realizações materiais e conduzimos experiências materialistas sem levar em conta a ameaça que é privar o homem de sua dimensão espiritual. O homem está sofrendo, mas não sabe porque. Ele sente uma ausência de harmonia e procura a sua causa."



Do livro ‘Esculpir o tempo’ de A. Tarkovsky:

“O que hoje passa por arte é, na sua maior parte, mentira pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objetivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa o seu tempo em exibições auto complacentes de método. A questão da vanguarda é peculiar ao século XX, à época em que a arte vem progressivamente perdendo a sua espiritualidade. A situação é ainda pior nas artes visuais, que hoje estão quase inteiramente privadas de espiritualidade. A opinião corrente é a de que esta situação reflete a “desespiritualização” da sociedade moderna, um diagnóstico com o qual, no nível de simples constatação da tragédia, concordo plenamente: trata-se mesmo de um reflexo da actual situação. A arte, porém, não deve apenas refletir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade, como fez Dostoievski, o primeiro a expressar de forma inspirada o mal da época.”

(A. Tarkovski)

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