quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

AMOR AOS PEDAÇOS XXIV– O começo do fim.

- Liffff... cent...

- Heinn?

- Life...

- E?

- LifeCenter. Não faz sentido.

- A gameleira ainda está aqui. Ainda majestosa e bonita, me assusta, nada faz sentido...

- Não começa! Nunca fez sentido. Muito menos aqui...

- Santaclareava...

- Era escuro.

- Era esperança.

- Você pirou?

- Em terra de cego quem tem um olho é o demônio. Ela me disse isso... Não me esqueço dela. A mulher que me viu.

- Você enlouqueceu...!

- Não tive competência. Já me emudeci.

- Desculpe, conte, eu escuto.

- Mentira. Eu sei de cor.

- Eu quero ouvir; eu disse que um dia lhe daria a prova de amor que você pedia. Eu dou. Eu ouço. Não fuja agora.

- Eu queria morrer. Eu quis morrer. Eu tentei morrer naquela noite. Então ela me chamou; eu estava de plantão e ela nunca chamava; nunca. Havia quarenta anos estava lá; emudecida, sozinha no quarto nu. Uma cama dura. Uma camisola branca e longa, de algodão. Cabelos brancos e fartos; absurdamente brilhantes; olhos pequenos, claros, ferozes. Pele branca, toda rugas. Quarenta anos e nenhuma palavra. No mais, docilidade. Desde que não se lhe dissesse o nome. Foi então que ela me chamou. Eu tinha decidido morrer. Eram duas horas da manhã, eu não iria ver o amanhecer, e ela me chamou. A enfermeira, perplexa; eu me levantei e arrastei-me por um corredor cheio de sombras; eu era uma sombra. Aquele mesmo caminho, aqueles mesmos gestos, as mesmas palavras, as mesmas prescrições; dias e noites. Tudo igual. Eu não queria mais. Segui como robô; queria voltar logo para cama e esperar um amanhecer que eu não veria. Bati na porta, já estava aberta, dormiam todos, a enfermeira falava sem parar, apenas repetia, repetia: ela me mandou te chamar imediatamente, gritou, ela gritou agora!, mandou, eu chamei... Eu disse, e daí? Ela está sentada na cama dela te esperando. Entrei, os olhos claros ferozes me fixaram e ordenaram: senta aí. Sentei. Uma voz tranqüila mandou a enfermeira sair, eu mandei a enfermeira sair, a enfermeira vacilou e saiu. Só então entendi que a mulher que não falava me mandara chamar. E falou: em terra de cego quem um olho é o demônio. Escuta. E eu ouvi palavra por palavra, decorei e não entendi nada. Hoje entendo tudo. Hoje não há mais nada. Laifeeee ... centerrr...

- Continua.

- Pra que?

- Por que eu preciso cumprir minha promessa. Promessa de amor.

- Faz-me rir. Não, faz-me ódio.

- Não fale assim.

- Argh. Amor, esta burrice. Até quando você vai insistir nisso? Este falso sentido, esta mentira, esta burrice, infantilidade, loucura, estupidez, maldição, estupidez

- PÁRA! Eu não admito; pára, isso é que é burrice...

- Burrice é querer amar.

- O que você entendeu? Que sentido aquela maluca te ensinou?

- Você não admite.

- Tente. Eu mereço.

- Não merece. Ninguém merece.

- Está bem. Você não merecia e ela te deu. Então me dê.

- A rainha-mãe sente saudade do mundo e, muitas vezes, pede desculpas por não me visitar. Ela diz que ninguém sabe o quanto é difícil ser a rainha daquela gente, mas eu sou capaz de imaginar tal dificuldade. Margareth, a nossa irmã mais velha, é uma bruxa. A pior das bruxas. Toda noite, Margareth faz sopa com pedacinhos de meninos de rua e alimenta uma porção de gente, especialmente a gente do governo. Eu já provei dessa sopa e, hoje, eu tenho medo da Margareth. Ela sempre me diz que é uma boa pessoa e que gosta de ensinar as mágicas que sabe. Mas eu sei: finge que está ensinando: todo mundo acaba enfeitiçado e gasta o dinheiro que não tem. É sempre assim, ela nos faz viver com o dinheiro dos outros, pensando que é dinheiro da gente. Depois vêm os juros e, então, é tarde. Dinheiro é qualquer coisa, cabe em qualquer vontade, e Margareth sabe disso. Eu só não sei a graça que ela acha nessa vontade que é a dela. Eu tenho uma vontade diferente. O José foi meu homem. Debaixo de uma árvore tirou minhas roupas e me deitou sobre um formigueiro. Depois, quando eu virei esqueleto, ele chupou os meus ossos. Um por um. Foi uma delícia porque eu acreditava que essa era vontade dele. Acho que o José não sabia direito do próprio querer e, por isso, se enjoou de ossos. Não entendeu o quanto eu o amava, em especial quando ele começava a inchar. Eu o admirava, queria ficar olhando, pegando, lambendo... Ele nem ligava para isso de amor. Ele nem ligava para o que ele tinha e cismava de me fazer em ossos. Eu deixava, pensando em agradá-lo. Mas porque, de fato, ele não sabia do que gostava, acabou por se nausear. E, pior: morreu logo depois, mordido por uma aranha enorme, que vivia no porão dele mesmo. A bichinha se rebelou por causa do medo que o José dela sentia. Os homens podem ser patéticos. Guardei essa aranha comigo e, todos os dias, eu dou a ela um pedacinho de pau, sem medo nenhum. Sossegada, ela devora lambendo os beiços. Antes, eu a odiava, mas agora, acho que a aranha é a minha amiga. Até já a perdoei por ter mordido o José. Você sabe, também acabei aprendendo que a vítima nunca é assim tão inocente e, depois, ela está tão bonita quanto as plantas que nasceram em minhas costas... Ou em minha frente? Na primavera do ano passado floresceram crisântemos amarelos em mim, mas se eles continuarem a crescer dessa maneira, vão me pesar as costas e me impedirão de fazer as caminhadas que eu preciso fazer. Todo dia eu visito um povo que me ensina a entender os dinossauros. Já aprendi muito sobre eles. Sei, por exemplo, que existem tanto na Rússia quanto na Patagônia, e que gostam de estudar filosofia. Ainda não aprendi – ou talvez não tenha conseguido entender – a razão pela qual os dinossauros são perseguidos, presos em camisas de força e trancados em corredores de azulejos brancos e frios. Como esses. Penso às vezes que é por causa da aparência exagerada que eles exibem ou, quem sabe, por causa da obviedade que trazem em si. Mas nada disso justifica a perseguição. O povo que eu visito lá atrás daquela serra, diz que eu ainda vou compreender. Dizem que foram os dinossauros que inventaram o jeans, mas os americanos roubaram a idéia, só para não vender pra Cuba. São uns bobos os americanos, mas não são inócuos. Se se fizesse com eles uma massa de acarajé, não ia ter nenhum sabor. Tem massa que não dá ponto, nem pega tempero, já dizia a minha avó, mas dá indigestão, dizia ela também. Entretanto a capacidade de sobrevivência do povo americano é assustadora. Outra burrice. Para mim, é verdadeiro enigma o sucesso da burrice. Talvez sejam salvos pelo cinema. É tão lindo! Na tela, eles são a própria vida. Aquela gente do morro fala que, um dia, os americanos serão javalis. Eu prefiro javalis, têm algo de dinossauros e há quem diga que podem ser domesticados. Vou te contar mais uma coisa: lá na minha casa, antigamente, só ficávamos calmos à noite. Pela manhã, nós tínhamos vontade de matar e depois do meio-dia nós dormíamos um pesadelo. À tarde ficávamos ocupados em desmanchar os escritos, tudo mentira, que os carteiros diariamente, deixavam em nossa caixa do correio. Escreviam barbaridades. A última foi até engraçada. Escreveram que o amor foi inventado para facilitar a nossa vida. Ahahahaa... Rio de ódio. Quando inventaram o amor, eu e todos nós, já havíamos morrido há muito tempo. Minha mãe é que cismou de não querer morrer. Custava. Coitada, ninguém mais suportava ficar perto dela, mas a boba continuava berrando que estava viva. Berrava como uma louca... Você sabe que louco é quem pensa que está vivo? Talvez isso nos obrigasse a ter vontade de matá-la. Mas ninguém tinha coragem; e a gente lá esperando, esperando... Esperando o juízo dela libertar a gente. Enquanto ela não morresse continuaria aquela ladainha infernal do amor. Uma vez eu mostrei a ela as fotos do meu futuro, só pra ver se a convencia morrer sem escândalo, e acabava logo com aquela ladainha..., mas que nada, a mãe gritava que não morreria e que além de tudo o mais, ainda queria se casar novamente. Uma indecência. Casou-se umas vinte vezes, a pobre. Só não se casou comigo porque eu lutei. Detesto idiotas, especialmente aqueles que não usam os vestidos que deveriam usar. Como era o caso dela. Quer mais um segredo meu? Adoro demônios. Acho lindos aqueles chifrinhos, e mais ainda, o rabo comprido que mexe pra lá e pra cá... minha maior frustração é não ter conseguido seduzir nenhum. Também, eu até pensei, os demônios não sejam assim facilmente conquistáveis. Vai ver essa é mais uma mentira da mãe. Talvez eles só gostem de outros demônios; e penso que demônios verdadeiros são difíceis de encontrar, e... por isso, ... ah, por isso, por isso, eu decidi acabar com a farsa e tentei ajudá-la, disse a ela que não se preocupasse, que eu a mataria e tudo acabaria bem. Ah, ah, por isso, por isso... amarraram-me aqui, prenderam-me aqui, e ela continua lá, gritando que vai viver, e eu aqui presa, esperando o juízo dela, presa, só porque eu entendi e quis: faça-se em mim segundo a vossa palavra...

- Lóri... Não assim tão fundo...

- Não acabou, Wolf. Você quis... Eu avisei...

- Eu tenho medo de que você tenha razão.

- Eu tenho medo de que você me dê razão.

- Eu vou conseguir. Eu quero. Siga.

- Faça-se em mim segundo a vossa palavra. E isso é tudo. Você já está morta, logo pare com essa bobagem de querer morrer. Não seja besta. Viver é só saber que já se morreu. Ou vai ficar aqui, tonta como eu, esperando o juízo de minha mãe?

- Lóri...

- Descanse, Wolf, descanse...

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