segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos

Canto ao homem do povo Charlie Chaplin (Fragmentos)

Carlos Drummond de Andrade


Era preciso que um poeta brasileiro,

Não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,

Girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver

Como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

Era preciso que esse pequeno cantor teimoso,

De ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior

Onde nem sempre se usa gravata mas todos são extremamente polidos

E a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

Era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,

Preso à sua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,

Viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse

Para dizer-te algumas coisas, sob color de poema.

(...)


Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,

Que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,

visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados de justiça, os simples de coração,

Os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,

Os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,

Os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,

Falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,

Os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,

Cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.

(...)

O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.

No festim solitário teus dons se aguçam.

És espiritual e dançarino e fluido,

Mas ninguém virá aqui saber como amas

Com fervor de diamante e delicadeza de alva,

Como, por tua mão, a cabana se faz lua.

Mundo de neve e sal, de gramofones roucos

Urrando longe o gozo de que não participas.

Mundo fechado, que aprisiona as amadas

E todo desejo, na noite, de comunicação.

Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,

Ninguém te quis, todos possuem,

Tudo buscaste dar, não te tomaram.

Então caminhas no gelo e rondas o grito.

Mas não tens gula de festa, nem orgulho

Nem ferida nem raiva nem malícia.

És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa

Correndo, os copos voam,

Os corpos saltam rápido, as amadas

Te procuram na noite.... e não te vêem,

Tu pequeno,

Tu simples, tu qualquer.

Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,

Andar aos mil num corpo só, franzino,

E ter braços enormes sobre as casas,

Ter um pé em Guerrero e outro no Texas,

Falar assim a chinês, a maranhense,

A russo, a negro: ser um só, de todos,

Sem palavra, sem filtro,

Sem opala:

Há uma cidade em ti, que não sabemos.

(...)

Colo teus pedaços. Unidade

Estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.

E nós, que a cada passo nos cobrimos

E nos despimos e nos mascaramos,

Mal retemos em ti o mesmo homem,

Aprendiz

Bombeiro

Caixeiro

Doceiro

Emigrante

Forçado

Maquinista

Noivo

Patinador

Soldado

Músico

Peregrino

Artista de circo

Marquês

Marinheiro

Carregador de piano

APENAS SEMPRE ENTRETANTO TU MESMO,

O QUE NÃO ESTÁ DE ACORDO E É MEIGO,

O INCAPAZ DE PROPRIEDADE, O PÉ

ERRANTE, A ESTRADA

FUGINDO, O AMIGO

QUE DESEJARÍAMOS RETER

NA CHUVA, NO ESPELHO, NA MEMÓRIA

E TODAVIA PERDEMOS.

(...)

Foi bom que te calasses.

Meditavas na sombra das chaves,

Das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,

Juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,

Anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta

De mil, os braços cruzados de mil e nada dizias. E um bolo, um engulho

Formando-se. E as palavras subindo.

Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.

Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopro aos exaustos.

Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,

Crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,

Ó CARLITO, MEU E NOSSO AMIGO, TEUS SAPATOS E TEU BIGODE CAMINHAM NUMA ESTRADA DE PÓ E ESPERANÇA.

(A Rosa do Povo, 1945)


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