sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Da alegria de ser triste: Gilles Deleuze e criatividade

O texto de hoje é de Francisco Bosco, um jovem pensador com quem coincidimos na perspectiva visada, e de quem admiramos a escrita clara, concisa e bem fundamentada. Aproveitem.

Elogio da Tristeza

Francisco Bosco
Consta que o grande Jorge Benjor declarou certa vez se orgulhar de jamais ter feito uma canção triste. De fato, suas canções são, geralmente, mais do que alegres, são empolgantes, eufóricas, chegam para animar a festa. São sobretudo livres, desfrutam de uma liberdade inigualável: só Benjor pode fazer do nome de um plâncton o refrão de uma canção popular. Um refrão de sucesso: “Que plâncton é esse?/Que plâncton é esse?/ É spyro gyro/ É spirogyra”. Só ele pode misturar frases em latim com citações de Rilke, tudo em ritmo de samba – e a coisa funcionar esteticamente. E mesmo quando suas canções têm temas tristes, como “Todo dia era dia de Índio” ou “Zumbi”, a música é alegre: a melodia, o ritmo, em suma, o significante. Pois o significante pode perfeitamente contrariar o significado; e, como demonstram certas canções infantis – da perversa “Atirei o Pau no Gato” à ameaçadora “Boi da Cara Preta” – é sempre o significante que vence: as crianças cantam alegremente, sem se dar conta da maldade contra o gato, e dormem embaladas com a melodia suave do acalanto, apesar do boi pavoroso.
Benjor se orgulha de suas canções alegres, mas não há por que dizer que Lupicínio ou Nelson Cavaquinho deveriam se orgulhar menos da suas canções, sendo estas, entretanto invariavelmente tristes. E Vinicius, conquanto afirmasse que é melhor ser alegre que ser triste, confessava ao mesmo tempo que a alegria era para ele improdutiva: que pra fazer um samba é preciso um bocado de tristeza. E o igualmente grande Milton Nascimento é como que o avesso de Benjor: suas canções são sempre tristes, mesmo quando alegres: “Paula e Bebeto” parece alegre, mas quando o coro das crianças entoa a melodia a canção revela sua origem triste (uma tristeza cuja origem parece ser a nostalgia da infância, sentido este que, entre os parceiros de Milton, Fernando Brant foi quem melhor soube perceber e explorar). E, entretanto, dando mais uma volta no parafuso, é uma tristeza sempre alegre, celebradora, vital, afirmativa, que parece vir do fundo da terra e dirigir-se às estrelas. É melhor ser alegre que ser triste?
Há uma confusão, primeiramente, conceitual nisso tudo, e quem a esclarece é o filósofo Gilles Deleuze, por intermédio de Espinoza. O filósofo holandês, segundo a leitura deleuziana, dizia que a alegria ocorre toda vez que se dá a realização de uma potência. Uma potência é, portanto, uma possibilidade de produção de alegria. Uma potência é virtualmente uma alegria: esta se realiza quando a potência é efetivada. A potência de um escritor é efetivada quando este conquista a linguagem; a de um jogador de futebol, quando executa um drible ou um chute preciso; a de um bailarino, quando seu corpo inventa um movimento, e assim por diante. De modo que se toda efetivação de uma potência é alegre, não há, a rigor, criação triste: a música dos escravos norte-americanos cantando o Mississipi não é triste, a poesia de Trakl não é triste, os desenhos de Caspar Friedrich não são tristes. Para Deleuze, a tristeza decorre da impossibilidade da criação, isto é, de tudo aquilo que impede que as pessoas desenvolvam e realizem suas potências.
(Gilles Deleuze)
É por isso que o filósofo francês afirmou que, se não fosse homem e filósofo, gostaria de ser uma carpideira [une pleureuse]. O lamento das carpideiras pertence à mesma categoria dos poemas elegíacos: á um canto, uma forma de acessar os mistérios da vida, sua tragicidade, sua grandeza. Deleuze chega mesmo a atribuir um estatuto elegíaco aos queixumes do hipocondríaco. De resto, há toda uma tradição filosófica atenta às dialéticas do sofrimento: do sublime de Burke e Kant à melancolia dos românticos, sabe-se que a dor pode ser apenas a contraface da alegria, e que muitas vezes as duas andam juntas, inseparáveis. A confusão nominal não é importante. Não é preciso decidir sobre uma terminologia que não se contradiga: pode-se dizer que um poema é triste, e ao mesmo tempo concordar com Deleuze em que não há poemas tristes (triste é estar impedido de criar poemas); é a confusão conceitual, portanto, que se deve deslindar.
Ou seja: é fundamental saber que uma canção triste, ou a tristeza de que se origina uma canção triste, pode ser ao mesmo temo e, sobretudo algo alegre e afirmativo. E que, da mesma forma, uma canção alegre pode ser ao mesmo tempo algo triste: há sempre certa tristeza nas criações fracas, a tristeza de uma alegria forçada, sem base, como um cheque sem fundos. E é precisamente essa espécie de alegria fake que a cultura da alta performance e do Prozac estimula: uma alegria sem espessura, evasiva, em fuga. Nossa cultura, esta do mercado financeiro, do Viagra, das celebridades e das academias recalca sistematicamente a tristeza – mas nem por isso é mais alegre. Pois produz muitas vezes uma alegria triste – e aí pode-se afirmar que é melhor ser triste que ser alegre. E é afinal o que Vinicius dizia: que, se para conquistar a alegria é preciso encarar a tristeza, deve-se pagar este preço.
Com efeito, para alguns a tristeza é a única possibilidade de alegria. Volto a Milton nascimento. Basta ouvir uma canção como “San Vicente” para entender tudo o que está em jogo: a melodia que começa triste e a letra que alude, fragmentariamente, como num ‘sonho estranho’ a um drama histórico da América Latina de repente irrompem em uma alegria irresistível (na primeira parte sem letra), que cede novamente a vez à tristeza, mas já aqui se trata nitidamente de uma terceira margem do afeto, alegretriste, tristealegre, que explode em sua irredutibilidade no vocalise final. Milton é o homem triste, por excelência. Mas não é fácil sustentar a tristeza na cultura contemporânea. É assim que Milton vem tentando, desde há algum tempo, flertar com a estética da alegria: usa roupas mais modernas, canta canções pop, procura movimentar-se mais no palco. Mas, ao fazê-lo, trai seu genius, que neste instante o abandona: sendo triste, Milton é o mais alegre dos homens – sendo alegre, é um homem triste.
CODA: In Banalogias, Objetiva, RJ, 2005 - Francisco Bosco é ensaísta e letrista, escritor, editor da revista Cultura Brasileira Contemporânea, publicação da Biblioteca Nacional, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ e colunista da revista Cult. Seu texto, seus temas, suas miradas têm sintonias grandes com Quase-Ser-Tão. A gente aprende com ele da maneira que gostamos de aprender; por exemplo: ‘oh, num é que é mesmo isso que a gente dizia...’. Procurem-no. Gostarão. Sobre Deleuze (já nos deram o adjetivo ‘deleuzianos’... pois é!) falaremos outro dia. De Milton falamos e falaremos. No momento, escolham (ou não, podem devorar tudo que é bom) e desfrutem:
(e mais o luxo de Naná Vasconcelos!!)
E Paula e Bebeto já estiveram por aqui...


Um comentário:

  1. No Tratado sobre as paixões, na Suma Teológica, S. Tomás trata a possibilidade de experimentar alegria e tristeza simultaneamente. Tal simultaneidade acontece por causa do objeto diferente de cada uma delas. Um poeta, por exemplo, pode experimentar alegria por ter sido capaz de expressar uma vivência num poema. Mas ao mesmo tempo tristeza, porque tal vivência é negativa.

    Por outro lado, S. Tomás também diferencia prazer de alegria e dor de tristeza. A alegria e a tristeza são mais "interiores", "espirituais". Von Hildebrand diria: são intencionais. Se a tristeza é boa ou não vai depender se se trata de uma resposta afetiva adequada ou não a um objeto. O mesmo se aplica à alegria. Acredito eu que nosso problema hoje, o da nossa cultura que foge da tristeza (mais também de uma alegria profunda) é o do vivermos de maneira egocêntrica ou, como diria Saint Exupèry, somos burgueses que não se deixam surpreender, que esqueceram que habitam um planeta errante. Mecanismos para permanecer nessa segurança burguesa hoje nós temos em abundância.

    Gostei do artigo!

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