terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Desejamos a vocês...1


NOTÍCIA DA MANHÃ
Thiago de Mello
Eu sei que todos a viram
E jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
Denso de noite, estivesse
Profundamente dormido.
E aos dormidos – e também
Aos que estavam muito longe
E não puderam chegar,
Aos que estavam perto e perto
Permaneceram sem vê-la;
Aos moribundos nos catres
E aos cegos de coração –
A todos que não a viram
contarei desta manhã
- manhã é céu derramado
É cristal de claridão –
Que reinou, de leste a oeste,
De morro a mar – na cidade.



Pois dentro desta manhã
Vou caminhando. E me vou
Tão feliz como a criança
Que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
Vou no rumo da manhã,
Levado pelo menino
(ele conhece caminhos
E mundos, melhor do que eu).

Amorosa e transparente,
Esta é a sagrada manhã
Que o céu inteiro derrama
Sobre os campos, sobre as casas,
Sobre os homens, sobre o mar.
Sua doce claridade
Já se espalhou mansamente
Por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
Vai lavando corações
(não o do menino. O meu,
Que é cheio de escuridões).

Por verdadeira, a manhã
Vai chamando outras manhãs
Sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
Ou não despontam jamais)
Dentro dos homens, das coisas:
Na roupa estendida à corda,
Nos navios chegando,
Na torre das igrejas,
Nos pregões dos peixeiros,
Na serra circular dos operários,
Nos olhos da moça que passa, tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
Está no quintal dos subúrbios,
Está nas avenida das centrais,
Esta nos terraços dos arranha-céus.
(Há muita, muita manhã
No menino; e um pouco em mim.)



A beleza mensageira desta radiosa manhã
Não se resguardou no céu
Nem ficou apenas no espaço,
Feita de sol e de vento,
Sobre pairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.

As árvores da rua,
A réstia do mar,
As janelas abertas,
O pão esquecido no degrau,
As mulheres voltando da feira,
Os vestidos coloridos,
O casal de velhos rindo na calçada,
O homem que passa com cara de sono,
A provisão de hortaliças,
O negro na bicicleta,
O barulho do bonde,
Os passarinhos namorando
– ah, pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
Num pedacinho de rua,
Dão eterno testemunho
Da amada manhã que avança
E de passagem derrama
Aqui uma alegria,
Ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
À mulher que abre a janela,
Além deixa uma esperança,
Mais além uma coragem,
E além, aqui e ali
Pelo campo e pela serra,
Aos mendigos e os sovinas,
Aos marinheiros, aos tímidos,
Aos desgraçados, aos prósperos,
Aos solitários, aos mansos,
Às velhas virgens, às puras
E às doidivanas também,
Amanhã vai derramando
Uma alegria de viver,
Vai derramando um perdão,
Vai derramando uma vontade de cantar.

E de repente a manhã
- manhã é céu derramado,
É claridão, claridão –
Foi transformando a cidade
Numa praça imensa praça,
E dentro da praça o povo
O povo inteiro cantando,
Dentro do povo o menino
Me levando pela mão.


CODA: FAZ ESCURO MAS EU CANTO – THIAGO DE MELLO – CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 1978. "...um poeta que canta o amanhecer porque sabe que a noite não é eterna; que põe seus versos a serviço dos oprimidos e humilhados porque sabe que a redenção deles marcará a sua e a nossa liberdade." (Otto Maria Carpeaux)


(Thiago de Mello)

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