terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Novos votos de bom natal... com nova declaração de amor: Eduardo Galeano



A NOITE/1

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora mas tenho uma atravessada em minha garganta.


A NOITE/2

Eu adormeço às margens de uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo.


A NOITE/3

Eles são dois por engano. A noite corrige.


A NOITE/4

Solto-me do abraço, saio às ruas.
No céu, já clareando, desenha-se, finita, a lua.
A lua tem duas noites de idade.
Eu, uma.




CODA: Eduardo Galeano, in Mulheres, L&PM POCKET, Porto Alegre, 1998. Galeano nascido no Uruguai em 1940, foi reconhecido internacionalmente com o livro Veias Abertas da América Latina, hoje um clássico de denúncia da opressão e exploração da América Latina. Sua obra é por inteiro profundamente arraigada à cultura latinoamericana, em toda sua diversidade histórica, imaginária, geográfica, artística, amorosa... dos pampas à amazônia, das cordilheiras andinas aos litorais atlânticos. Em Montevidéo dirigiu o semanário Marcha e o jornal Época; em Buenos Aires, a revista Crisis. Esteve exilado na Argentina e Espanha entre 1973 e 1985 quando regressou ao Uruguai. Recebeu vários prêmios, entre eles, o Casa das Américas por duas vezes, o Aloa dos editores dinamarqueses em 1993, o American Book Award em 1989, e o Prêmio à Liberdade da Cultura, em 1999, em sua edição inaugural pela Fundação Lannan, dos Estados Unidos.

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