sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Parada para reflexão: Freud, Thomas Mann e o terror.


Na Conferência XXXV, “A questão da Weltanschauung”, Freud traz um interessante ponto: o suicídio da ciência. A teoria da relatividade e suas dramáticas conseqüências para os princípios clássicos das ciências empíricas vão transtornar também a Freud, evidentemente. Afinal embora submerso na ambivalência que a paixão pelas ‘ciências humanas’ impõe à ‘exatidão’ de sua ciência, Freud insiste na defesa do rigor ‘científico’ da psicanálise. Diante dos detratores da psicanálise, defesa só realizável seguindo os cânones científicos então vigentes, ou seja, segundo os padrões das ciências naturais. Fala então de uma ‘Weltanschauung’ equivalente do anarquismo político, de niilistas intelectuais, que agora, com as descobertas da física moderna, parece ter recrudescido e conduzir tais intelectuais a promoverem uma espécie de auto-anulação da ciência. Diz Freud: ”querem forçá-la ao suicídio”.

Freud certamente não está disposto a perder o objeto de seus ardores. Havia que defender a ‘ciência psicanalítica’ até a morte. Embora a defesa surja recheada de contradições, como sói acontecer, revela-se mais uma vez o potencial profético do gênio freudiano. Veja-se: “Tem-se, amiúde, a impressão de que, a esse respeito, o niilismo é apenas uma atitude temporária, a ser mantida até que essa tarefa se tenha concretizado. Uma vez eliminada a ciência, o espaço vago pode ser preenchido por algum tipo de misticismo ou, de algum modo, pela antiga ‘Weltanschauung’ religiosa. Segundo a teoria anarquista, a verdade não existe, não há conhecimento seguro do mundo externo. O que proclamamos como verdade científica é apenas produto de nossas próprias necessidades, tal como estas hão de se expressar sob condições externas mutáveis; ou seja, também são ilusões. Fundamentalmente, encontramos somente aquilo de que necessitamos e vemos apenas o que queremos ver. Não temos outra possibilidade. De vez que está ausente o critério de verdade — correspondência com o mundo externo —, não importa, em absoluto, que opiniões adotarmos. Todas elas são igualmente verdadeiras e igualmente falsas. E ninguém tem o direito de acusar outrem de erro”.

Como se viu, e se vê, Freud estava coberto de razão: o misticismo grassa. Ou nem isso: uma cínica resignação à condição de objeto, ‘ao sabor da última droga cientificamente produzida’, é a condição vigente. Mas a culpa não é da física quântica que tão somente apontou a relatividade das coisas e o nosso reino feito de probabilidades. A culpa é dos dogmáticos, cientistas, políticos ou religiosos, dos carregados de certezas. Se, hoje, nos ameaçam de apedrejamento se nos levantamos para o elogio da arte como último princípio de retomada de um caminhar honesto para verdade, em meados do século XX, Freud não o ousaria. Só em sonhos, como se pode verificar em sua biografia. De qualquer forma, atestamos hoje ‘o suicídio da ciência’, por um lado, porque nos negamos submetermos às perturbadoras resultantes das descobertas da física quântica – probabilidades -, e por outro, pelas mesmas razões que a análise do suicídio esboçada por Freud mostrou e que este estudo tentou levantar. Numa palavra: uma doença narcísica da cor da violência. Um homem-bomba. De volta ao começo... O sujeito...?”

(Albert Einstein e Thomas Mann)

Continuando com gênios proféticos: há poucos dias falamos em A Montanha Mágica de Thomas Mann por conta de Ítalo Calvino, e também publicamos um poema de Antônio Cícero. Hoje, queremos novamente citar o gênio Thomas em A Montanha Mágica, que Antônio Cícero prefaciou para a Nova Fronteira (2009) com a sensibilidade de destacar: “Um calafrio nos percorre quando nos damos conta do caráter profético das palavras que Thomas (bem antes de Auschwitz ou dos aviões de homens-bomba) – [defende] : ‘o segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é: o terror”.

CODA: fragmento do ensaio Freud Romântico: um estudo psicanalítico do suicídio, de Magda Maria Campos Pinto.

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