quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma dose de Goethe, Quintana e tango pelo ano novo. Feliz 2010.

“Meu amigo começava, com efeito, a iniciar-me nos segredos da filosofia. Havia estudado em Jena com Daries; sua cabeça muito bem organizada apanhava com nitidez o conjunto dessas lições que procurava comunicar-me. Infelizmente, essas idéias recusavam dispor-se com a mesma ordem no meu cérebro. Eu fazia pergunta a que ele prometia responder mais tarde; exprimia pretensões que não podiam ser satisfeitas de momento. Entretanto, o que mais nos dividia era que, no meu modo de ver, não havia necessidade erigir a filosofia em disciplina à parte, já que toda ela estava compreendida na poesia e na religião. Era o que ele não queria admitir. Procurava, ao contrário,demonstrar-me que a poesia e a religião devem basear-se inicialmente na filosofia. Eu negava obstinadamente que fosse assim e, no seguimento de nossas palestras, encontrei a cada passo argumentos em favor de minha opinião. Com efeito, como a poesia pressupõe uma certa fé no impossível, e religião uma fé igual no imponderável, os filósofos que pretendiam demonstrar uma e outra dentro de seu domínio,me pareciam encontrar-se numa posição muito difícil, e não tardei também a verificar, pela história da filosofia,que cada um busca sempre uma base nova e diferente das de seu predecessores,e finalmente surgia o cético para declarar tudo sem base e sem fundo.

No entanto essa história da filosofia, que meu amigo teve de passar em revista comigo porque eu não podia tirar nenhum proveito da exposição dogmática, foi de grande interesse para mim, mas apenas no sentido que uma doutrina me parecia tão boa como outra qualquer, pelo menos na medida em que eu era capaz de compreendê-las. O que, sobretudo me agradava nas escolas e nos filósofos mais antigos era que poesia, religião e filosofia tornavam um todo só, eu sustentava com mais vivacidade a minha primeira opinião quanto o Livro de Jó, o Cântico dos Cânticos e os Provérbios de Salomão,assim como as poesia de Orfeu e de Hesíodo,me pareciam testemunhar em favor dela”.

“Se as crianças se desenvolvessem tal como se anunciam, só haveria gênios. Mas o crescimento não é um simples desenvolvimento; os diversos sistemas orgânicos que formam a unidade humana decorrem uns dos outros, sucedem-se uns aos outros, transformam-se uns nos outros, substituem-se e até destroem-se uns aos outros, de sorte que, de diversas faculdades, de diversas manifestações de forças, mal podemos, ao cabo de algum tempo encontrar ainda algum vestígio. E mesmo nos casos em que as disposições do indivíduo têm uma direção pronunciada, é difícil ao conhecedor mais hábil e mais experimentado fazer um prognóstico seguro; pode-se muito bem, pelo contrário, assinalar aquilo que pressagiava o futuro depois que este se configurou.”

( in W. Goethe, Memórias: Poesia e verdade. Hucitec, Brasília, 2002)


(foto de Gregory Colbert)


"No princípio, era a Poesia. No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim, a Filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas." (Mário Quintana)




E no mais, tim tim*, 2009!, com abraço para o nosso amigo, grande músico argentino Carlos Libedinsky, líder do Narcotango. Se ainda não conhece, não continue perdendo. Músicas como Gente que si, Vi luz y subi, Plano Secuencia são algumas que fazem o disco. Palavras de Libedinsky:



"Narcotango é um abraço profundo entre o tango e a atmosfera musical eletrônica de nosso tempo. Pensei nisso vendo alguns poucos pares dançando na pista, se negando a terminar a noite; e foi nessa hora que nasceu o Narcotango. Imaginei a música que queria dançar e ver dançar. É nessa hora que o poder narcótico do tango seduz, uma vez que entramos nesse universo e não queremos mais sair. Porque o tango é como uma droga: proporciona uma incrível sensualidade e uma poderosa energia."


Divirtam-se:

http://www.youtube.com/watch?v=3xerZgGwjjc



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