domingo, 20 de dezembro de 2009

'A vida apenas, sem mistificação...'


Quase-Ser-Tão começa hoje, em sua própria forma e seu próprio lema, a publicar seus desejos e anseios de Natal e Ano Novo para todos, conhecidos, desconhecidos, a conhecer... Destarte, antecipamos que nada de novo trazemos. Apenas insistimos, porque é Natal.



A FORMA JUSTA


Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades podiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

- Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004)


CODA: Voltamos a Sophia hoje, pois que é só sabedoria. A sua escrita, tensa e contida, constrói-se em volta do mar, quer do mar do destino português, quer do mar da Grécia Clássica, a cuja mitologia, Sophia foi buscar muito do material sobre o qual levantou uma obra ímpar. Ao caráter excepcional da sua obra acresce ainda a grande exigência moral que sempre revelou e que a tornou numa figura cívica incontornável no Portugal anterior e posterior à instauração da democracia. (in Cem poemas portugueses no feminino- Terramar – Lisboa, 2005). 'A vida apenas....': Carlos Drummond de Andrade

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