sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Dia 1. De Agoras.

De Paul Auster

“O livro da memória. Livro dez


Quando ele fala do quarto, não tem intenção de desdenhar as janelas que às vezes estão presentes no quarto. O quarto não precisa ser uma imagem da consciência hermética e, quando um homem ou uma mulher está de pé ou sentado sozinho em um quarto, há mais coisas acontecendo ali. A. se dá conta, do que o silêncio do pensamento, o silêncio de um corpo lutando para exprimir seus pensamentos em forma e palavras. Tampouco pretende sugerir que, entre as quatro paredes da consciência, só o sofrimento tem lugar, como nas alusões feitas a Hölderlin e Emily Dickinson. Ele pensa, por exemplo, nas mulheres de Vermeer, sozinhas em seus quartos, com a luz brilhante do mundo real se derramando através de uma janela, fechada ou aberta, e a imobilidade absoluta daquelas solidões, uma evocação quase dolorosa do dia-a-dia e de suas variáveis domésticas. Pensa, sobretudo em uma pintura que viu em sua viagem a Amsterdã, Mulher de Azul, que quase o paralisou no estado de contemplação, Rijksmuseum. Conforme escreveu um comentarista: ”A carta, o mapa, a gravidez da mulher, a cadeira vazia, a caixa aberta, a janela que não se vê – sã o todos índices ou emblemas naturais de ausência, do não visto, de outras mentes, vontades, tempos e lugares, do passado e do futuro, do nascimento e talvez da morte – em geral, de um mundo que se estende além dos limites da moldura, e de horizontes maiores, mais largos, que circundam e invadem a cena suspensa diante de nossos olhos. E, no entanto é na plenitude e na auto-suficiência do momento presente que Vermeer insiste – com tamanha convicção que as capacidades de orientar e incluir se reveste de um valor metafísico”.

Mais ainda do que os objetos citados nessa lista é a singularidade da luz que atravessa janela fora de vista, à esquerda do observador, que acena calorosamente para que ele volte sua atenção para o lado de fora, para o mundo além da pintura. A. olha fixamente o rosto da mulher, à medida que o tempo passa, ele quase começa a ouvir a voz dentro da cabeça da mulher enquanto ela lê a carta em suas mãos. A mulher, tão grávida, tão serena na imanência da maternidade, com a carta retirada da caixa, sem dúvida sendo lida pela centésima vez; e ali, pendurado na parede à sua direita, um mapa-múndi, que é a imagem de tudo o que existe fora do quarto: essa luz, que verte docemente sobre seu rosto e reluz em seu avental azul, a barriga inflada de vida e seu azul banhado de luminosidade, uma luz tão pálida que beira a brancura. Continuar com outras pinturas do mesmo tipo: Mulher vertendo o leite, Mulher segurando uma balança, Mulher com colar de pérolas, Moça na janela com jarra, Moça lendo carta em janela aberta.

“A plenitude e a auto-suficiência do momento presente.””


CODA: in A invenção da solidão, Paul Auster, Companhia das letras, SP, 2004.


(Mulher de Azul. Vermeer)

Nenhum comentário:

Postar um comentário