sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Do amor III

Bendito Rubem Braga. Rubem nasceu em Cachoeiro do Itapemirim como Roberto Carlos. Foi jornalista desde sempre; viveu em muitas cidades brasileiras, inclusive Belo Horizonte. Acompanhou a FEB na segunda guerra como correspondente; viajou o mundo, foi diplomata. Exonerou-se. Nunca deixou de escrever. É elegante, inteligente, gentil, sutil, bravo, irônico... Foi amigo de Clarice Lispector, de Pablo Neruda. De Carlos Drummond, de Dorival Caymmi. Grande, também de amigos. Seu texto é ‘fininho’ como aquelas chuvinhas delicadas e frescas, em tarde muito clara de verão, gotas que brilham e mostram coisas inusitadas, aqui pertinho.

A mulher e seu passado
Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”
Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado, e tenho vontade de dizer:
“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbado de rua que te assustou; e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; a e a mulher anônima que vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “ moça linda..”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”
Abril, 1964.


CODA: in 200 crônicas escolhidas – as melhores de Rubem Braga, Record, R. J.,1978.

(Bendito Rubem Braga)
O jornalista e escritor Marco Antonio de Carvalho escreveu Rubem Braga: Um Cigano Fazendeiro do Ar (Globo, RJ, 2007), seguindo a tendência das biografias de que se pode dizer profissionais; quer dizer, trabalho extenso, bem escrito, bem fundamentado. O livro possui números portentosos: 267 entrevistas na preparação, dez anos para ser finalizado, 448 páginas - das quais vinte de bibliografia. Rubem Braga, o criador da crônica moderna e, por fim, o homem que transformou a crônica, para além de sua ambivalência de origem, em literatura, aparece em sua imensa riqueza lírica e venturosa. Vencedor do prêmio Jabuti 2008, na categoria biografia.

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