domingo, 3 de janeiro de 2010

Elementos 1



O ausente

Ausência: todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado – quaisquer que sejam a causa e a duração – e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.

  1. Werther. Grande quantidade de líber, de melodias de canções sobre a ausência amorosa. E, n entanto, não se encontra essa figura clássica no Werther. A razão é simples: lá, o objeto amado (Charlotte) não se movimenta; é o sujeito apaixonado (Werther) que, em determinada momento, se afasta. Ora, só há ausência do outro: é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem; ele é, por vocação, migrador, quanto a mim, que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar, não resgatado como um embrulho. Num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica – e não de quem parte; eu sempre presente, só se constitui diante de você, sempre ausente. Dizer a ausência é, de início, estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar, é dizer “sou menos amado do que amo”.
  2. Hugo. Historicamente, o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária, o Homem é caçador, viajante; a Mulher é fiel (ela espera), o homem é conquistador (navega e aborda). É a mulher que dá forma à ausência: ela tece e ela canta; as Tecelãs, as ‘chansons de toile’, dizem ao mesmo tempo a imobilidade (pelo ronrom do tear ) e a ausência ( ao longe, ritmos de viagem, vagas marinhas , cavalgadas). De onde resulta que todo homem que fala a ausência do outro, feminino se declara: esse homem que espera e sofre, está milagrosamente feminizado. Um homem não é feminizado por ser invertido sexualmente, mas por estar apaixonado (mito e utopia: a origem pertence, o futuro pertencerá àqueles que têm algo feminino).


CODA: Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes, Francisco Alves Editora, RJ. 1991.


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