quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poesia... mais poesia!

“A gente não parte. Retoma o caminho, e carregando meu vício, o vício que lançou raízes de dor ao meu lado desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.
A última inocência e a última timidez. Está dito. Não levar ao mundo meus dissabores e minhas traições.
Vamos! O ir, o fardo, o deserto, o tédio e a cólera.
A quem me alugar? Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei? Que mentira devo sustentar? Em que ânimo avançar?
Antes de tudo, acautelar-se com a justiça. A dura vida, o simples embrutecimento; levantar, com a mão seca, a tampa do caixão, sentar, se asfixiar. Assim nada de velhice nem de perigos: o terror não é francês.
Ah! Estou tão abandonado que ofereço à não importa que imagem divina os impulsos para a perfeição.
Ó minha abnegação, ó minha maravilhosa caridade! Aqui na terra, no entanto. De profundis Domine, estou aparvalhado!”

CODA: in Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud, L&PM, tradução de Paulo Hecker Filho, edição bilíngüe, Porto Alegre, 2008.

Rimbaud foi a criança rebelde e genial; o maldito poeta adolescente, capaz de mergulhar nas profundezas das origens. O inocente sem medidas. “O maior de todos”, segundo Vinicius de Moraes; a “vida inimitável” segundo Verlaine. E por Henry Miller: ‘A última palavra do desespero, da revolta, da maldição. A poesia tudo deve a Rimbaud. Até agora ninguém o superou em audácia e imaginação’.

(O poeta e o Centauro, de Moreau)

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