segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Poesia... para sempre.


"Fios brancos começaram a entretecer meus cabelos pretos. Manchas amassavam minha pele antigamente lisa. Minhas pernas vacilavam. Meus joelhos entorpeceram. Meus olhos se velavam. Meu coração se cansava. Só minha memória era a mesma, apresentava e reapresentava a mesma imagem: um pedaço de tecido marrom.

Meus pés doeram para sempre naquele dia e decidi sentar-me naquele banco da praça atrás daquela placa que um dia me chamou: ACHADOS E PERDIDOS. E dentro de mim, uma voz disse: eu fico aqui mesmo. Caiu o primeiro dia. Passou a primeira noite. Não senti o segundo, nem a segunda. Não vi nenhum tempo mais. Perdi o tempo, o dia, a hora. A noção. Muitos se sentavam ali; falavam. Não falavam. Queixavam. Maldiziam a vida. Celebravam a vida. Riam. Choravam. Eu ouvia, e esperava. Num sem tempo, muito tempo depois, um moço de barba de três dias sentou-se sem que eu o visse, mas ouvi : “ela disse que estaria sentada e quieta me esperando numa cadeira de pernas bem torneadas e finas, de ferro, e que não morreria mesmo que a matassem, a mãe, a ditadura, o preconceito, a fome, a inveja, o medo, a dor, injustiça, o abandono...”. Ouvi e tremi ouvindo o meu escrito, escrito há quarenta anos. Curvei meu corpo buscando os pés daquele banco; a pessoa ao lado fez o mesmo movimento. Eram pernas finas, torneadas, de ferro. Nos olhamos. Meu caderno estava em suas mãos. Nos vimos. Eu disse: este caderno é meu. Ele disse: eu o encontrei, e nele está escrito que existem umas mãos que gostam de fazer barbas de três dias. Você as conhece?"

(fragmento de Achados e Perdidos)

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