segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Proust, Beckett, Percy Adlon, Nestrovski : literatura, ensaio, cinema, música... reflexões.

(...) A equação proustiana nunca é simples. O desconhecido, escolhendo suas armas de um manancial de valores, é também o inconhecível. E a qualidade de sua ação fica sob dois cabeçalhos. Em Proust, cada lança pode ser uma lança de Télefo. Este dualismo na multiplicidade será examinado em detalhe com relação ao ‘perpectivismo’ proustiano. Para os propósitos desta síntese, convém adotar a cronologia interna de demonstração proustiana, examinado em primeiro lugar esse monstro de duas cabeças, danação e salvação – o Tempo.
(...)
Mas se o amor, para Proust, é uma função da tristeza do homem, a amizade é função de sua covardia; e se nenhum dos dois pode concretizar-se, devido à impenetrabilidade (ao isolamento) de tudo que não for cosa mentale, ao menos o fracasso da posse terá talvez a nobreza do que é trágico, enquanto que a tentativa de comunicar-se onde não é possível qualquer comunicação não passa de vulgaridade simiesca, ou horrendamente cômica, como o delírio que sustenta um diálogo com a mobília. A amizade, segundo Proust, é a negação da solidão irremediável à qual cada ser está condenado. A amizade subentende uma aceitação quase piedosa das aparências. A amizade é um expediente social, como carpetes e cortinas ou a distribuição de sacos de lixo. Não tem qualquer significado espiritual. Para o artista, que não lida com superfícies, a rejeição da amizade é não só razoável, mas uma necessidade. Porque o único desenvolvimento espiritual possível é no sentido da profundidade. A tendência artística não é uma expansão, mas uma contração. E arte é a apoteose da solidão. Não há comunicação porque não há veículos de comunicação. Mesmo nas raras ocasiões em que palavra e gesto ocorrem ser expressões válidas da personalidade, perderão seu significado ao passar através da catarata da personalidade alheia. Ou falamos e agimos por nós mesmos – e neste caso ação e fala serão destorcidas e esvaziadas de seu significado por uma inteligência que não é nossa – ou então falamos e agimos pelos outros – e neste caso mentimos.
(...)
“O homem, diz Proust, não é um mero edifício que pode crescer se aumentarmos sua superfície, mas uma árvore cujo tronco e ramagem são expressão de seiva interior”. Estamos sós. Incapazes de compreender e incapazes de sermos compreendidos. “O homem é a criatura que não consegue sair de si mesmo, que só conhece os outros em si mesmo e que , quando afirma o contrário, mente.”

(Samuel Beckett)
CODA: in Proust, Samuel Beckett, L&PM, tradução de Arthur Rosenblat Nestrovski, Porto Alegre, 1986.
Samuel Beckett nasceu nas proximidades de Dublin, a 13 de abril de 1906, e viveu em Paris, onde ficou amigo de Joyce. Escreveu Proust aos 25 anos, em 1931, dando prosseguimento à sua obra literária que iniciara dois anos antes, com os ensaios sobre Joyce, Dante, Vico e Bruno. A fama chegaria em 1952, com a peça Esperando Godot. Em 1969, Beckett recebeu o Nobel de Literatura. Hoje, é fácil perceber em Proust a marca do gênio. Beckett é o apóstolo do nada e ninguém definiu melhor sua obra do que ele próprio: “Nada tenho a dizer, mas somente eu sei como dizer isso”.

Marcel Proust nasceu em Auteuil, Paris a 10 de julho de 1871, e morreu em Paris a 18 de novembro de 1922. Com uma saúde extremamente frágil, viveu uma vida bem singular; entrou para a École des Sciences Politiques, onde foi aluno de Henry Bérgson, mas logo desistiu da carreira diplomática para dedicar-se inteiramente à literatura. Freqüentou os salões da alta burguesia francesa, de onde veio o material de sua obra monumental: À la recherche du temps perdu. Vivendo da herança dos pais freqüentava a burguesia ociosa, e aos poucos foi se isolando, cada dia mais, até manter-se em quartos à prova de som, dedicando-se febrilmente à revisão de escrita. Sofreu de asma durante toda a vida, que o levou à morte, e que seguramente repercutiu em sua escrita. Proust foi, e é, um desafio para os leitores. Há um belo filme do grande Percy Adlon (Bagdá Café, Rosali vai às compras, etc), Celeste, baseado no livro da criada particular de Proust (a Celeste do título), que relata os anos febris do escritor, isolado em seu quarto, escrevendo sua obra.
(Percy Adlon)

(o livro de Celeste Albaret sobre Proust, em tradução de Cordélia Magalhães, no qual se baseia o filme de Percy Adlon)
Arthur Nestrovski nasceu em Porto Alegre em 26 de dezembro de 1959, é um compositor, violonista, crítico literário e musical, escritor e editor. Graduou-se em música na Inglaterra, e em Literatura e Música em Iowa nos EUA. Atuou como crítico de música clássica da Folha de São Paulo, e como editor da PubliFolha. Vai dirigir a orquesta sinfônica de S. P. a partir de 2010. Foi professor de Comunicação e Semiótica da PUC.SP. Abandonou a carreira acadêmica para dedicar-se à música. Gravou o cd solo Jobim Violão entre outros. É parceiro regular de Zé Miguel Wisnik (mais que presente aqui no clube) e vários outros artistas brasileiros.
(Wisnik e Nestrovski em uma de suas incríveis aulas/shows)

2 comentários:

  1. Boa noite, Quase-Ser-Tão. Sou Eliana, de Porto Alegre, e vi nessa postagem que vocês citam o filme Céleste, de Percy Adlon. Pois justamente hoje estou procurando uma maneira de encontrá-lo (ao filme). Pelos meus achados na web, só há em VHS e não encontro em locadoras ou lojas do gênero. Saberiam me dar uma luz? Obrigada, um abraço, o blog está muito legal.

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  2. ei, Eliana,
    obrigada pelo elogio e desculpe pela demora por responder; sim, nós temos uma cópia em VHS; e procurei pela cidade nas locadoras e lojas e não encontrei; estou em contato com alguém na Inglaterra para ver a possibilidade de conseguir, e neste caso, ou outra informação, nós te informaremos, ok? um abraço.

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