domingo, 17 de janeiro de 2010

Sugestão: Mário Vargas LLosa

“Quando lemos romances, não somos o que somos habitualmente, mas também os seres criados para os quais o romancista nos transporta. Esse traslado é uma metamorfose: o reduto asfixiante que é nossa vida real abre-se e saímos para ser outros, para viver vicariamente experiências que a ficção transforma como nossas. Sonho lúcido e fantasia encarnada, a ficção nos completa – a nós, seres mutilados, a quem foi imposta a atroz dicotomia de ter uma única vida, e os apetites e as fantasias de desejar outras mil. Esse espaço entre a vida real e os desejos e as fantasias, que exigem que seja mais rica e mais diversa, é preenchido pelos livros de ficção.

No coração de todos esses livros chameja um protesto. Quem os fabula o fez porque não pode vive-los, e quem os lê – e neles acredita, durante a leitura – encontra, em suas fantasias, os rostos e as aventuras que necessitava para ampliar sua vida. Essa é a verdade que as mentiras da ficção expressam: as mentiras que somos, as que nos consolam e que nos desagravam das nossas nostalgias e frustrações. Assim, que confiança podemos ter nos testemunhos dos romances sobre a sociedade que os produz? Esses homens eram assim? Eles o eram, no sentido de que assim queriam ser, de que assim se viam amar, sofrer e desfrutar. Essas mentiras não documentam suas vidas, mas os demônios que as sublevaram, os sonhos nos quais se embriagaram para que a vida que viviam fosse mais tolerável. Uma época não está povoada somente de seres de carne e osso, mas também de fantasmas, nos quais esses seres se transformam para romper as barreiras que os limitam e os frustram.

As mentiras dos romances nunca são gratuitas: preenchem as insuficiências da vida. Por isso, quando a vida parece plena e absoluta e, graças a uma fé que tudo justifica e absorve, os homens se conformam com seus destinos, os romances não prestam serviço algum. As culturas religiosas produzem poesia, teatro e, raras vezes, grandes romances. A ficção é uma arte de sociedades em que a fé experimenta alguma crise, em que faz falta crer em algo, onde a visão unitária, confiante e absoluta foi substituída por uma visão rachada, e por uma incerteza crescente sobre o mundo em que se vive e sobre o outro mundo. Além da amoralidade, as entranhas dos romances aninham certo ceticismo. Quando a cultura religiosa entre em crise, a vida parece escapulir dos esquemas, dogmas e preceitos que a sujeitam e se transforma em caos: esse é o momento privilegiado para a ficção. Suas ordens artificiais proporcionam refúgio, segurança, e nelas se desdobram livremente aqueles apetites e temores que a vida real incita, e não consegue saciar ou conjurar. A ficção é um sucedâneo transitório da vida. O regresso à realidade é sempre um empobrecimento brutal: a comprovação de que somos menos do que sonhamos. O que significa que, ao mesmo tempo, os livros de ficção aplacam transitoriamente a insatisfação humana e também a atiçam, esporeando os desejos e a imaginação.

Os inquisidores espanhóis compreenderam o perigo. Viver a vida que não se vive é fonte de ansiedade, um desajuste com a existência que pode se tornar rebeldia, uma atitude indócil, indisciplinada, diante do estabelecido. É compreensível, então, que os regimes que aspiram a controlar totalmente a vida desconfiem das obras de ficção, e que as submetam a censuras. Sair de si mesmo, ser outro, ainda que seja ilusoriamente, é uma maneira de ser menos escravo e de experimentar os riscos da liberdade.”


CODA: in A verdade das mentiras, Mário Vargas Llosa, Editora Arx, Siciliano S.A, S. P., 2003.

Mário Vargas Llosa nasceu em Arequipa, Peru, em 1936. Escritor profícuo, desde seus primeiros romances obteve sucesso de público e crítica. Possui uma obra é ampla, e premiada. Para o Brasil, tem especial interesse o romance A GUERRA DO FIM DO MUNDO, sobre Canudos, trabalho grandioso. Exerce intensa atividade política em seu país. Mário Llosa é cidadão do mundo digno. O livro A verdade das mentiras reúne vários de seus artigos e ensaios sobre livros e autores. Como escreve a tradutora Cordélia Magalhães 'é uma comovedora declaração de amor à literatura'.

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