sábado, 13 de fevereiro de 2010

CLUBE DE ARTE QUASE-SER-TÃO E DOM QUIXOTE


“Não menos pensativo ia este, que, de puro moído e quebrantado, se não podia suster sobre o burrico, e de quando em quando dava uns suspiros, que chegavam ao céu; tanto, que obrigou o lavrador a perguntar-lhe de novo o que sentia. parecia que o demônio lhe não trazia à memória senão os contos acomodáveis aos seus sucessos, porque , deslumbrando-se então de Baldovinos, se recordou do mouro Abindarrais, quando o alcaide de Antequera Rodrigo de Narvais o prendeu, e preso o levou à sua alcaidaria. E assim, quando o lavrador lhe tornou a perguntar como estava e o que sentia, lhe respondeu as mesmas palavras e razões, que o Albencerrage cativo respondia Rodrigo de Narvais, do mesmo modo por que ele tinha lido a história na Diana de Jorge de Montemaior (ou de Monte-mór) onde ela vem descrita; aproveitando-se dela a propósito, que o lavrador se ia dando ao diabo de ouvir tamanha barafunda de sandices; por onde acabou de conhecer que o vizinho estava doido, e apressava-se em chegar ao povo para se forrar ao enfado que D. Quixote lhe dava com a sua comprida arenga. Rematou-a ele nestas palavras:
- Saiba Vossa Mercê, senhor Rodrigo de Narvais, que esta formosa Xarifa que digo é agora a linda Dulcinéia Del Toboso, por quem eu tenho feito, faço e hei de fazer as mais famosas façanhas de cavalaria que jamais se vira, vêem, ou hão de ver no mundo.
A isto respondeu o lavrador:
- Pecados meus! Olhe Vossa Mercê, senhor, que eu não sou D. Rodrigo de Narvais, nem o Marquês de Mântua; sou Pedro Alonso, seu vizinho; nem Vossa Mercê é Baldovinos, nem Abindarrais, mas um honrado fidalgo, o senhor Quixada.
RESPONDEU DOM QUIXOTE:
- QUEM EU SOU, SEI EU
; e sei que posso ser não só os que já disse, senão todos os dozes Pares de França, e até todos os nove da fama, pois a todas as façanhas que eles por junto fizeram e cada um por si se avantajarão as minhas.

CODA: in O engenhoso fidalgo Don Quixote de La Mancha; tradução dos Viscondes de Castilho e de Azevedo, Ilustrações de Gustavo Doré, Logos, S. P., 1955, vol. 1, cap. V, pag. 46.

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