quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

De atualizações: CHACAL


RÁPIDO E RASTEIRO


Vai ter uma festa
Que eu vou dançar
Até o sapato pedir pra parar.

Aí eu paro
Tiro o sapato
E danço o resto da vida.


COMO ERA BOM


o tempo em que marx explicava o mundo

tudo era luta de classes

como era simples

o tempo em que freud explicava

que édipo tudo explicava

tudo era clarinho limpinho explicadinho

tudo era muito mais asséptico

do que quando eu nasci

hoje rodado sambado pirado

descobri que é preciso

aprender a nascer todo dia.


CODA: Em 2007, a editora brasileira Cosac Naify lançou uma reunião com a produção do poeta Chacal. O conjunto mostra a força e a originalidade desse autor que está no centro da transformação da poesia brasileira do final do século XX até os nossos dias.Chacal, Ricardo Carvalho Duarte, nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Aos vinte anos, lançou Muito prazer, Ricardo. Em seguida, O preço da passagem e América. Os três livros foram produções independentes, com tiragens pequenas, distribuídas de mão em mão nos bares, portas de cinema e teatros. Em 1975, lançou a narrativa em versos Quampérios pelo grupo Nuvem Cigana, uma produtora de eventos e inventos que uniu escritores, artistas plásticos, músicos, atores e pirados em geral. Em 1979, colocou na rua, novamente de forma independente, a trilogia Olhos vermelhos, Nariz aniz e Boca Roxa. O verso de Chacal, dialogando com as cenas rápidas, o humor, a fala telegráfica de um dos mais inventivos modernistas brasileiros, Oswald de Andrade, constrói um poema que deixa velho o que vinha se fazendo até então. A fala sem cerimônia, a gíria, o rock, a contracultura, a festa, as drogas, tudo isso que estava fora da poesia entra como sangue novo dessa nova linguagem. O poema e o poeta também são indissociáveis na voz de Chacal dizendo ao vivo seus textos. Entretanto, todos esses atributos de época, mesmo sendo importantes, não dão conta da totalidade de Chacal. A linguagem sempre nova de seus poemas, mesmo os escritos já há mais de trinta anos, resistindo a virar redundância, mostra uma sabedoria criativa com as palavras que só possuem os que conhecem os mistérios da expressão poética. Sua visão do mundo, do ser humano, da sociedade, do poder, da sexualidade, da linguagem confere uma verticalidade ao que é dito, encontrando e tateando, mesmo no clima de festa do seu texto, camadas menos aparentes da existência. Chacal está sempre na contramão. Tem um olhar enviesado sobre tudo. As verdades são postas em cheque, assim como a literatura, a postura de literato ou de autor, a poesia, as palavras, a edição, o livro, a vaidade. Sua origem de esportista, de garoto de praia traz um ar bom de respirar para o texto. Mas mesmo esse garoto rockeiro, hoje já com 58 anos, está com um pé na festa e outro num espaço próprio, crítico e, sobretudo, reflexivo. Enquanto afirma a vida, afirma a dúvida. Até porque a palavra vida está dentro da palavra dúvida.

“UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS”


o poeta se faz do sabor

de se saber poeta

de não ter direito a outro ofício

de se achar de real utilidade pública

no cumprimento da sua missão sobre a terra

escrevendo tocando criando


o que pesa é não se achar louco

patético quixote inútil

como quem fala sozinho

como quem luta sozinho


o que pesa é ter que criar

não a palavra

mas a estrutura onde ela ressoe

não o versinho lindo

mas o jeitinho dele ser lido por você

não panfleto

mas o jeito de distribuir


quanto a você meu camarada

que à noite verseja pra de dia

cumprir seu dever como água parada

fica aqui uma sugestão:

- se engavete com os seus sonetos

porque muito sangue vai rolar e não

fica bem você manchar tão imaculadas páginas.

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