
RÁPIDO E RASTEIRO
Vai ter uma festa
Que eu vou dançar
Até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro
Tiro o sapato
E danço o resto da vida.
COMO ERA BOM
o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo era muito mais asséptico
do que quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia.
CODA: Em 2007, a editora brasileira Cosac Naify lançou uma reunião com a produção do poeta Chacal. O conjunto mostra a força e a originalidade desse autor que está no centro da transformação da poesia brasileira do final do século XX até os nossos dias.Chacal, Ricardo Carvalho Duarte, nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Aos vinte anos, lançou Muito prazer, Ricardo. Em seguida, O preço da passagem e América. Os três livros foram produções independentes, com tiragens pequenas, distribuídas de mão em mão nos bares, portas de cinema e teatros. Em 1975, lançou a narrativa em versos Quampérios pelo grupo Nuvem Cigana, uma produtora de eventos e inventos que uniu escritores, artistas plásticos, músicos, atores e pirados em geral. Em 1979, colocou na rua, novamente de forma independente, a trilogia Olhos vermelhos, Nariz aniz e Boca Roxa. O verso de Chacal, dialogando com as cenas rápidas, o humor, a fala telegráfica de um dos mais inventivos modernistas brasileiros, Oswald de Andrade, constrói um poema que deixa velho o que vinha se fazendo até então. A fala sem cerimônia, a gíria, o rock, a contracultura, a festa, as drogas, tudo isso que estava fora da poesia entra como sangue novo dessa nova linguagem. O poema e o poeta também são indissociáveis na voz de Chacal dizendo ao vivo seus textos. Entretanto, todos esses atributos de época, mesmo sendo importantes, não dão conta da totalidade de Chacal. A linguagem sempre nova de seus poemas, mesmo os escritos já há mais de trinta anos, resistindo a virar redundância, mostra uma sabedoria criativa com as palavras que só possuem os que conhecem os mistérios da expressão poética. Sua visão do mundo, do ser humano, da sociedade, do poder, da sexualidade, da linguagem confere uma verticalidade ao que é dito, encontrando e tateando, mesmo no clima de festa do seu texto, camadas menos aparentes da existência. Chacal está sempre na contramão. Tem um olhar enviesado sobre tudo. As verdades são postas em cheque, assim como a literatura, a postura de literato ou de autor, a poesia, as palavras, a edição, o livro, a vaidade. Sua origem de esportista, de garoto de praia traz um ar bom de respirar para o texto. Mas mesmo esse garoto rockeiro, hoje já com 58 anos, está com um pé na festa e outro num espaço próprio, crítico e, sobretudo, reflexivo. Enquanto afirma a vida, afirma a dúvida. Até porque a palavra vida está dentro da palavra dúvida.
“UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS”
o poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento da sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando
o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho
o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não panfleto
mas o jeito de distribuir
quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
- se engavete com os seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.



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