sábado, 20 de fevereiro de 2010

Para Ana 1, a das pedras e das conchas. A louca da Mesa. Do latim, grego e Sêneca. E outras coisinhas simples... Querida da alma Quase-Ser-Tão.


Olhando assim lá pra longe parece que o sol vai entrar no mar; mais um pouco a tarde acaba.

Ninguém na praia.

Mas tem barco de pescador esperando pra sair.

No coqueiral do lado folha nenhuma se mexe, desde manhã cedo não deu nem um pouco de vento. No chão tem uma folhagem que se espalhou pela areia, é verde escura e lustrosa, e deu uma flor azul.

Se não é a onda pequena batendo na praia a gente até pensa que a vida parou.

E quando o coqueiral acaba que tem aldeia de pescadores e a salina. Perto da salina uma ou outra casa de comércio e do pessoal que trabalha ali. Muito pouca gente ao todo.

A Rafaela sai de casa e vem beiradeando a salina. Olho procurando no chão pra ver se encontra uma coisa bonita, uma concha, uma estrela-do-mar, quem sabe uma flor? Pra levar pra Mariana.

Entra no coqueiral. Pára. De tanto coqueiro assim junto, lá dentro está meio escuro, vai é melhor voltar? Mas o olho vê lá longe Flor Azul.

De olho na Flor Azul a Rafaela vai indo e vai indo.

Pára de novo. Lembra do Pescador que ela encontrou na praia. Foi na quinta? Não, foi no sábado. Era que nem agora: a tarde ia acabando. O pescador tinha olho que já não enxerga, o cabelo era todo branco, a mão ia apalpando e consertando uma rede; e a Mariana falou, eu gosto de ajudar ele a consertar rede e gosto de ficar ouvindo as coisas que ele conta. Sentaram junto do Pescador. E ele contou de um tal casamento que a chuva tinha feito com o sol e que não tinha dado lá muito certo.

Contou que um peixe (grande assim) chegava ao anoitecer numa onda grande assim querendo encontrar uma menina que ele andava procurando pra levar pro fundo do mar.

Contou que a Morte andava a cavalo e que ela gostava de galopar. Aonde ela passava um vento grande levantava, e se tinha flor no caminho a pata do cavalo amassava.

Contou que no coqueiral tinha uma folhagem rasteira que dava uma flor azul. A flor era grande e bonita: guardava lá dentro dela o Amor. Contou que a Morte adorava essa flor, e quando via ela de longe já gritava pro cavalo, não pisa naquela que ela é minha! E o cavalo não pisava.

A Rafaela ficou olhando pra Flor Azul e nem viu o homem lá perto, encostado num coqueiro. Lembrou que ela tinha perguntado pra Mariana, é verdade as coisas que o Pescador velho contou? Mariana tinha rido, ora Rafa! É tudo imaginação. E a Rafaela então indo pra colher a Flor Azul.

O homem está quieto, que nem a paisagem em volta. Quieto e olhando pro mar.

De repente levanta uma ventania que desmancha toda essa impressão de coisa parada. O mar se encrespa, a onda cresce, a areia levanta; tudo que é folha do coqueiral se torce se bate se parte.

(continuamos depois...)



CODA: in NÓS TRÊS, Lygia Bojunga, Agir, RJ, 1998. Lygia Bojunga ganhou o premio Hans Christian Andersen pelo conjunto de sua obra em 2004, o prêmio Jabuti em 1997, entre incontáveis outros tantos; está publicada em vários idiomas; exaltada pela crítica européia, e um de seus livros (Corda Bamba) foi filmado na Suécia, e vários são radiofonizados em muitos países. Lygia nasceu em Pelotas, RS, em 26 de agosto de 1932; foi ainda criança para o Rio de Janeiro; envolveu-se com o teatro, e trabalhou com Fernanda Montenegro, Henriete Morineau, entre outros. Após abandonar a carreira de atriz passou a escrever para o rádio e TV, até abraçar a literatura como: ‘agora sim, o jeito de viver que realmente eu queria para mim’. Tempos depois fundava junto com seu segundo marido – ‘um inglês que apareceu por estes verdes’- uma pequena escola rural, chamada TOCA. Em 1982, mudou-se para a Inglaterra: “foi lá que eu compreendi por inteiro que o escritor é cidadão da sua língua”. Criou a Casa Lygia Bojunga que mantém intenso e profícuo trabalho, no Rio de Janeiro. QUERIDA - sua mais recente publicação foi um dos cinco livros selecionados pela JUGENDBIBLIOTHEK - IJB (a maior biblioteca de literatura para jovens e crianças, situada em Munique, Alemanha) para representar o Brasil em seu catálogo anual, o WHITE RAVENS 2010, a ser lançado na Feira de Bolonha. Na categoria infanto-juvenil A bolsa amarela - a terceira obra escrita por Lygia - foi o livro mais procurado em 2009 nas bibliotecas públicas do Rio.

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