quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Poeta deste meu agora: Derek Walcott

Corte profundo na arte ocidental, a escrita do poeta antilhano Derek Walcott – Nobel de 1992 – reaviva discursos clássicos e acorda a pedra do sono. Aqui, em tradução de Nelson Ascher, um de seus poemas preferidos de Quase-Ser-Tão.



Love after Love

The time will come
When, with elation,
You will great yourself arriving
At your own door, in your own mirror,
And each will smile at the other’s
Welcome,

And say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was
Yourself.
Give wine. Give bread. Give back your
Heart
To itself, to the stranger who has loved you.

All your life, whom you ignore
For another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

The photographs, the desperate notes,
Peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.




Um amor depois do outro

Virá o tempo
Quando exultante
Saudarás a ti mesmo chegando
À tua porta, em teu espelho, e cada qual
Sorrirá ante a saudação do outro,

E dirá, senta-te aqui. Come.
Voltarás a amar o estranho que foste.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
A ele mesmo, ao estranho que toda a vida

Te amou, que por outro
Ignoraste, que te conhece a fundo.
Pega as cartas de amor na estante,

As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refestela-te com tua vida.







CODA: Derek Walcott é mais um poeta na confluência de muitos mundos. Nascido em 1930, completou 80 anos no último 23 de janeiro. De um lado o mar do Caribe, traçando círculos ao redor de sua ilha natal, a pequena Santa Lucia, ex-colônia britânica encravada no arquipélago das Pequenas Antilhas; de outro, o legado da literatura inglesa. Em Omeros, o mar e os negros pescadores de da ilha fornecem a matéria-prima, para os arquétipos da Ilíada e da Odisséia: estão aí, Aquiles, Helena, Heitor, e próprio Homero, encarnado num pescador cego, de nome Sete Mares. Misto de poesia, mito, romance e roteiro de cinema, Omeros é também uma meditação sobre questões cruciais do mundo contemporâneo, como a destruição da Natureza, a identidade das minorias e o desenraizamento individual e coletivo.

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