terça-feira, 2 de março de 2010

Da leitura:


“Qual a importância ética da leitura? (...) O meu ponto de partida, implicando tomar a palavra ética no sentido amplo de ethos, modo de ser e agir do homem – e privilegiando a leitura de determinados textos, os ficcionais de caráter literário -, é que a importância ética da leitura está no seu valor de descoberta e de renovação para a nossa experiência intelectual e moral. A prática da leitura seria um adestramento reflexivo, um exercício de conhecimento do mundo, de nós mesmo e dos outros. Por certo que essa prática é solitária. Quem lê isola-se por momentos do mundo, à rebours de la conversation, como observou Proust, e recolhe-se na companhia do livro, à escuta de sua silenciosa conversa. Mas nesse recolhimento, provocado por outra voz que não a nossa e a daqueles que nos rodeiam, trava-se uma singular dialética entre nós mesmos e o texto. A experiência da leitura, particular e momentânea, reverte a favor da experiência da vida, geral e cumulativa. (...) Os textos literários são obras de discurso a que falta a imediata referencialidade da linguagem corrente: poéticos, abolem, ‘destroem o mundo circundante’, cotidiano, graças à função da imaginação que os constrói. E prendem-nos na teia de sua linguagem, a que devem o poder de apelo estético que nos enleia; seduz-nos o mundo outro, irreal, neles configurado, a que aderimos por willing suspensio of disbelief (desejada suspensão da descrença), assim, chamado Colerige o efeito de continuidade do apelo estético. No entanto, da adesão a esse “mundo de papel”, quando retornamos ao real, nossa experiência ampliada e renovada pela experiência da obra, á luz do que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o e pensando-o de maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção aclara o real ao desligar-se dele, transfigurando-o, e aclara-o já pelo insight que em nós provocou.”


CODA: Benedito Nunes, Ética e Leitura, in Estado de Leitura. Benedito José Viana da Costa Nunes, nasceu em Belém do Pará no dia 21 de novembro de 1929. Intelectual respeitado define-se como “um tipo mestiço das duas espécies, a filosofia e a literatura”. Professor, filósofo, crítico e ensaísta, especializou-se em analisar obras de grandes escritores como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa dentre outros.

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