A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com sua sorte, que se contentam com a vida tal como a vivem. Ela é alimento de espíritos indóceis e propagadora da inconformidade, um refúgio para aquele a quem falta algo na vida, para não ser infeliz, para não se sentir incompleto, sem se realizar em suas aspirações. Sair para cavalgar junto ao esquálido Rocinante e seu desbaratado ginete pelos descampados de La Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, beber o arsênico com Emma Bovay ou nos converter num inseto com Gregório Samsa, é uma maneira inteligente que inventamos para desagravar a nós mesmos das ofensas e imposições dessa vida injusta, que nos obriga a ser sempre os mesmos, quando gostaríamos de ser muitos, tantos quanto exijam para se aplacar os desejos incandescentes de estamos possuídos.”
CODA: in A verdade das mentiras, Mario Vargas Llosa, ARX, SP, 2003. (ver outras postagens sobre Vargas Llosa)




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