terça-feira, 23 de março de 2010

Esquisitices


Naquele tempo eu não me percebia, não me conhecia, não me pensava, mas via e observava todo o redor. Eu era um não lugar, uma incorporeidade, uma inexistência; eu também não falava. Além de enxergar, ouvia; sentia odores, calor, frio e medo; e tentava conhecer o que me barrava o caminho. Isto era um fato: o caminho estava sempre barrado. Mas como não existia, isto é, não ocupava lugar, ninguém desocupava o caminho.

Sentia os cheiros bons das flores, dos ventos, e também o cheiro de Deus dentro da igreja imensa e vazia. Era igreja muito alta, muito alta, e por mais que eu virasse o pescoço, a cabeça e os olhos, não conseguia ver com clareza o que havia lá em cima, no teto, eram cores difusas, cores que se misturavam, reflexos coloridos, mistura de tinta, sol, vidro, barro, sei lá, formando cenas surpreendentes, imaginadas pelo meu ser que não existia. Era um lugar fresco, agradável, silencioso que nem eu, vazio que nem eu, calmo que nem eu. E o cheiro de Deus, que mais que isso eu não conseguia saber, isto é, sentir o cheiro d’Ele era o máximo que eu conseguia, já devia até ser demais, mas me bastava. O cheiro não era constante, vinha às vezes, como brisa que não se deixa notar, e logo passava. Era cheiro solene, isso era. Eu sentia intimidade, ou cumplicidade, com aquele lugar; como já disse, não falava, mas ouvia, e nunca ouvi ninguém falar de cheiro de Deus.

Havia mais, percebia a maciez das pétalas das flores multicoloridas dos jardins da minha avó; ali conheci cores e formas que ninguém mais viu; não ouvi nunca alguém falar de cores e texturas de pétalas que se renovavam todo dia, nem a avó que as cultivava, falava, entretanto eu via o olhar curioso que,todos os dias,ela deitava sobre as flores, examinando-as lentamente. Então, eu ouvia uma conversação entre flores e olhares.

Algumas vezes vi desconcertantes abismos azuis no céu, vi arco-íris lançando flechas molhadas em pássaros distraídos, vi nuvens rebanhos de carneiros lerdos e nuvens penas de pássaros soltas vagando em luz. Um dia vi e senti uma pele negra de homem que suava inebriante odor. E não ouvi nada sobre peles embriagantes. Uma noite senti que as pedras do chão estavam sofrendo, estavam muito apertadas e secas, e pude ver que elas comemoraram a chuva que caiu e as folgou. Pensei que o banho as aliviou da sede. Ninguém falou sobre dores de pedras.

Os cavalos me assustavam, me pareciam fortes e arrogantes, e um dia os ouvi cochichando vinganças; eu não gostava deles. As borboletas me incomodavam com aquela mania de dançar sem música, de morrer de repente, e mais, aquela história jamais compreendida de um dia não terem sido borboletas.

Eu via as pessoas indo e vindo, as ouvia falando, falavam de mim como falavam dos móveis da sala, e sonhavam com o meu futuro. Algumas vezes tentei falar, mas, seja porque minha voz fosse desafinada e desagradável, seja porque as pessoas eram surdas, isso nunca passou de tentativas, e logo eu desisti. Emudeci de vez. Com exceção da minha avó de quem eu gostava de ver o olhar e o sorriso para ninguém, e da Teresa, que nada dizia e sorria se mostrando inteira e gorducha, cheia de dobras e maciezas, eu não conseguia ouvir outras pessoas. Acho que era porque elas não me enxergavam e falavam a meu respeito mesmo assim, decidindo coisas e definindo certezas sobre meu ser, que não viam nem ouviam. Então eu pensava que elas inventavam histórias incompreensíveis aos meus ouvidos.

Quando tive que dizer alguma coisa porque me mandaram seguir em frente, comecei a dizer bobagens, as mesmas que todos diziam. Quase esqueci tudo que eu tinha visto no tempo que eu não existia. Mas apenas quase, pois tudo foi bem guardado lá no fundo do meu futuro. Foi naquele tempo que eu comecei a vender textos, chamavam-se redações, coisas que os professores queriam. Eu fazia muitos textos e, neste momento, parecia existir, pois recebia balas, afagos, e até algumas moedas. Me lembro que a redação que eu mais vendi, - enchi meu cofre - , chamava-se Esquisitices. O professor mandou que a gente escolhesse o título e escrevesse o que quisesse – foi bem legal -; o povo desesperou e eu dei de escrever esquisitices, sem pé nem cabeça. Atrevimento meu, vendi mais de dez; foi um sucesso, mas passou logo. Voltei rapidamente à minha inexistência habitual.

Chegou o dia da mudança: eu queria sair daquele não lugar e tentar ser visível. O passaporte era uma redação; o título estava determinado: EU. Fiquei paralisada diante da folha em branco, e a entreguei assim ao professor, que me deu zero e bomba. E eu continuei inexistindo e invisível. Foi uma injustiça, pois nunca escrevi algo mais verdadeiro sobre aquele meu eu daquele tempo. Uma página em branco que só já havia escrito as esquisitices alheias.

Magda Maria Campos Pinto

(tela de Sabrina Hemmi)

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