quinta-feira, 25 de março de 2010

Falaremos do corpo...



O CORPO É TODAS AS COISAS

Maria do Céu Brito

Menos a luz que resplandece do teu olhar

Menos o azul


Que não está nas coisas

Nem no céu primaveril que se abre em rosa

Nem nas águas cintilantes do oceano

Nem nos teus olhos iluminados

Pela pueril fragrância das glicínias


Todas as coisas

São o universo inteiro que vai além

Das coisas que vemos

Suspensas nos pilares do tempo

Ou as que não vemos

Por estarem ocultas na ficção dos espelhos

Sempre o corpo

será a perpetuação de todas as coisas

Na brevidade dos instantes


Menos o nada que nada é fora de si próprio


Menos o absoluto

Espaço desabitado para lá do portal dos deuses


Menos o amor

Sempre em viagem na errância do desejo


Sempre o corpo será

Todas as coisas ígneas a incendiar

A noite e o firmamento incerto


Sempre as mãos semearão a pedra entre vagas luas

E os lábios sulcarão os regos do corpo entreaberto

Com arados de sangue de saliva e de sêmen


Sempre o corpo aspirará a ser liberto das cisternas

Do medo onde mergulha as raízes


Todas as coisas nunca serão no corpo

Todas as coisas na sua infinita falta de si mesmo.


CODA: Maria do Céu Brito é poeta portuguesa nascida em 1956. Licenciada em Filosofia na Universidade do Porto, vive em Faial, onde desenvolve atividades ligadas ao teatro e à vida cultural

Nenhum comentário:

Postar um comentário