segunda-feira, 22 de março de 2010

Mulheres 23: Ana Araújo


LAMPARINA

Pelo pequeno basculante rente ao teto entrava uma luz arroxeada que tornava o cômodo mais escuro que se não tivesse luz nenhuma. Deitada no sofá, finalmente só depois de uma longa e exaustiva tarde de estudos, cercada de livros na mesa daquele mesmo quarto, Márcia se deixava ouvir o silêncio que podia ser subentendido em meio a ônibus, buzinas, freadas, sirenes e um indistinguível burburinho de vozes, sacolas, móveis arrastados, motores, rodinhas, fechos e velcros de carteiras e bolsas, tudo uma só massa sonora ondulante e sólida, de tal forma sólida que podia ser separada do silêncio sem esforço algum.

Nesse silêncio alerta, Márcia via a luz aprofundar ao infinito a prega que um botão formava no sofá sob sua mão, e brincava de passear o indicador em espiral até o inexistente fundo do vulcão, imaginando um enorme cordão de pessoas de mãos dadas, que na busca de salvarem uma criança que caíra lá dentro iam se consumindo na lava como um pavio se consome no fogo, e que não se soltavam as mãos ou voltavam atrás pois tinham um e um só objetivo: Essa imagem fazia Márcia passar repetidas vezes o dedo em espiral pelo rastro do cordão humano, tentando compreender o que havia de tão familiar naquela aterradora cena de cidadãos dóceis cegados pela clareza do destino. E, imperceptivelmente, o cordão se transformava num exército de homens em marcha com armas vermelhas, atirando na lua, pois ela se recusava a rebaixar-se à unânime e miserável condição em que eles viviam, com suas belas esposas grávidas de gêmeos e trigêmeos e heptagêmeos catarrentos e gulosos, que comeriam a lua se lhes fosse dada.

Retornando ao vulcão e buscando na luz roxa o inexistente fundo, Márcia constatou com a indiferença tranqüila com a qual se constata o passar dos dias que não era comunista. Não nascera com esse fim. Na verdade, percebia que não nascera com finalidade alguma, que nada existia com real finalidade, e sentindo-se de repente abandonada pelo longo cordão e dele liberta, foi-se afundando em redemoinho para dentro do infinito vulcão, a começar de um dedo indicador até a ponta do outro, sem poder chegar a qualquer desenlace, uma vez que tonta de cair pela cratera sem fim.


(texto de ANA ARAÚJO, publicado no Suplemento Literário de MG, em março/2008; Ana graduada em latim pela FALE/UFMG, mestranda pela UFMG, trabalhando com Sêneca; atriz, faz formação em teatro pela Fundação Clóvis Salgado; trabalha com contação de histórias e tradução poética de textos clássicos em grego e latim)


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