terça-feira, 23 de março de 2010

Mulheres 24: Rigoberta Menchú


RIGOBERTA

Eduardo Galeano

Ela é uma índia maia-quichê, nascida na aldeia de Chimel, que colhe café e corta algodão nas plantações do litoral desde que aprendeu a caminhar. Nos algodoais viu cair seus dois irmãos, Nicolás e Felipe, os menorzinhos, e sua melhor amiga, ainda menina, todos sucessivamente fulminados pela fumigação de pesticidas.

No ano de 1979, na aldeia de Chajul, Rigoberta Menchú viu com o exército da Guatemala queimava vivo seu irmão Patrocínio. Pouco depois, na embaixada da Espanha, também seu pai foi queimado vivo junto com outros representantes das comunidades indígenas. Agora, em Uspantán, os soldados liquidaram sua mãe aos poucos, cortando-a em pedacinhos, depois de tê-la vestido com roupas de guerrilheiro.

Da comunidade de Chimel, onde Rigoberta nasceu, não sobrou ninguém vivo.

Rigoberta, que é cristã, aprendeu que o verdadeiro cristão perdoa seus perseguidores e reza pela alma de seus verdugos. Quando lhe golpeiam uma face e, tinham-lhe ensinado, o verdadeiro cristão oferece a outra.

- Eu já não tenho face para oferecer – comprova Rigoberta.

In Mulheres, Eduardo Galeano, L&PM , Porto Alegre,1997.

RIGOBERTA MENCHÚ - Líder indígena guatemalteca (9/1/1959). Nasce numa família de agricultores indígenas do interior da Guatemala e, desde pequena, trabalha na lavoura. Adolescente, participa de movimentos de reforma social promovidos pela Igreja Católica e se destaca na defesa dos direitos da mulher. Em 1979 ingressa no Comitê da União Camponesa (CUC), incentivando a comunidade indígena, que representa 60% da população do país, a resistir à opressão: os nativos não tinham direitos políticos e eram explorados economicamente. Nessa época, seu pai, seu irmão e sua mãe, todos ativistas políticos, são sucessivamente presos, torturados e mortos pelos órgãos de repressão. Procurada pelo governo, Rigoberta primeiro vive na clandestinidade, depois foge para o México. De lá, organiza movimentos de resistência dos camponeses. Em 1982 participa da fundação da organização guerrilheira Representação Unida das Oposições da Guatemala (Ruog). Um ano depois, narra sua vida no livro Eu, Rigoberta Menchú, relato que atrai a atenção da opinião pública mundial. Recebe prêmios de várias entidades internacionais, entre eles o Prêmio Nobel da Paz de 1992, em reconhecimento ao trabalho pela democracia e pelos direitos humanos dos indígenas da Guatemala. Em dezembro de 1998, o jornal norte-americano The New York Times contesta a veracidade de fatos da vida de Menchú narrados no livro, ela não se pronuncia.

Em 2007, candidatou-se à presidência do país, e foi derrotada, recebendo somente certa de 3% dos votos.

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