sexta-feira, 26 de março de 2010

Mulheres 27: Isadora Duncan



ISADORA

Descalça, despida, envolvida apenas pela bandeira argentina, Isadora Duncan dança o hino nacional.

Comete esta ousadia numa noite de 1916, num café de estudantes de Buenos Aires, e na manhã seguinte todo mundo sabe: o empresário rompe o contrato, as boas famílias devolvem suas entradas ao Teatro Colón e a imprensa exige a expulsão imediata desta pecadora norte-americana que veio à Argentina para macular os símbolos pátrios.

Isadora não entende nada. Nenhum francês protestou quando ela dançou a Marselhesa com um xale vermelho como traje completo. Se é possível dançar uma emoção, se é possível dançar uma idéia, por que não se pode dançar um hino?

A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce de seu corpo.

CODA: in Mulheres, Eduardo Galeano, L&PM, Porto Alegre, 1998.

Isadora nasceu em San Francisco, foi a segunda filha das quatro tidas pelo casal Dora Gray Duncan, pianista e professora de música e Joseph Charles, poeta. Considerada a pioneira da dança moderna. Sua dança foi inspirada pelas figuras das dançarinas nos vasos gregos: com movimentos improvisados, refletindo movimentos da natureza: vento, plantas, etc. Os cabelos soltos e pés descalços faziam parte da personalidade profissional da dançarina. Sua vestimenta eram túnicas, como as das figuras dos vasos. O cenário era composto apenas por uma cortina azul. Outro ponto na dança de Isadora é que dançava toda música, de Chopin a Wagner, ou os ventos, ou a chuva. Em 1898 passou a viver em Londres, e se apresentou pela primeira vez em Paris em 1902, já famosa. Criou escolas de dança em várias cidades da Europa. Esteve no Brasil em 1916, apresentando-se no Municipal do Rio. Teve uma vida marcada por tragédias; em 1913 perde os dois filhos, afogados no rio Sena. Em 1920 muda-se para Moscou casando-se (terceiro casamento) com o poeta Serguei Iessnin, de quem se separa dois anos depois; em 1925, Serguei se mata, e Isadora volta a viver na França, em Nice. Escreveu muitos artigos sobre a arte da dança, e em 1927 publicou uma autobiografia. Morre no mesmo ano, num acidente de carro, estrangulada pela própria echarpe.

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