O corpo
Maria Teresa Horta
Digo do corpo,
O corpo:
E do meu corpo,
Digo no corpo
Os sítios e os lugares
De feltro os seios
De lâminas os dentes
De seda as coxas
O dorso, em seus vagares.
Lazeres do corpo:
Os ombros,
As lisuras – o colo alto
A boca retomada
No fim das pernas
A porta da ternura,
Dentro dos lábios
O fim da madrugada.
Digo do corpo,
O corpo:
E do teu corpo,
As ancas breves
Ao gosto dos abraços
Os olhos fundos
E as mãos ardentes
Com que me prendes
Em súbitos cansaços
Vício de um corpo:
O teu
Com o seu veneno
Que bebo e sugo
Até ao mais amargo,
Ao mais cruel grau
Do esgotamento
E onde em segredo
Nado
Em cada espasmo
Digo do corpo,
O corpo:
O nosso corpo
Digo do corpo
O gozo
Do que faço
Digo do corpo
O uso
Dos meus dias
E a alegria
Do corpo sem disfarce.
CODA: in Cem poemas portugueses no feminino, Terramar,Lisboa, 2005.



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