sexta-feira, 19 de março de 2010

"No fundo, o mundo foi feito para acabar num belo livro", disse Stéphane Mallarmé



LAMENTO DE OUTONO

Desde que Maria me deixou para ir noutra estrela – que Orion, Altaïr e tu, verde Vênus? – eu sempre prezei a solidão. Quantos dias longos passei só com meu gato. Por , quero dizer sem um ser material e meu gato é um companheiro místico, um espírito. Posso então dizer que passei longos dias só com meu gato e, só, com um dos últimos autores da decadência latina, pois desde que a branca criatura não mais existe, estranhamente e peculiarmente, amei tudo que se resumia nesta palavra: queda. Assim, durante o ano, minha estação favorita são os últimos dias enlanguescidos do verão, que precedem imediatamente o outono e, durante o dia, a hora na qual passeio é quando o sol repousa antes de se desvanecer, com os raios de cobre amarelo sobre os muros cinzentos e de cobre vermelho sobre as lajes. Do mesmo modo, a literatura à qual meu espírito pede uma voluptuosidade será a poesia agonizante dos últimos momentos de Roma, na medida em que ela não respire, de modo algum, a proximidade rejuvenescedora dos Bárbaros e não balbucie jamais o latim infantil das primeiras prosas cristãs.
Lia então um desses caros poemas (cujas manchas de maquilagem têm mais encanto para mim do que o encarnado da juventude) e mergulhava uma das mãos nos pelos do sereno animal,quando um realejo cantou lânguida e melancolicamente sob minha janela. Ele soava na grande aléia dos álamos, cujas folhas me pareciam sombrias na primavera, desde que Maria por lá passou com círios, numa última vez. O instrumento dos tristes, sim, na verdade: o piano cintila, o violino dá luz à fibras dilaceradas, mas o realejo, no crepúsculo da recordação, fez-me sonhar desesperadamente. Agora que murmurava uma melodia alegremente vulgar e que pôs o regozijo no meio dos arrabaldes, numa melodia antiquada, banal: por que seu estribilho vinha-me à alma e me fazia chorar como uma balada romântica? Saboreava-a lentamente e não lancei sequer um tostão pela janela com medo de me perturbar e de perceber que o instrumento não cantava sozinho.

CODA: in Stéphane Mallarmé, Poemas, Poema em prosa, organização e Tradução José Lino Günewald, Nova Fronteira, RJ, 1990. Stéphane Mallarmé, cujo verdadeiro nome era Étienne Mallarmé, nasceu em Paris, 18 de Março de 1842 e morreu em Valvins, 9 de Setembro de 1898.

Édouard Manet - Stéphane Mallarmé - 1876

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