terça-feira, 30 de março de 2010

Sobre Kafka


Franz Kafka tem grande importância na minha vida de leitora (minha vida maior, como gosto de chamar). Daí, penso, vem também sua significância na minha pretensão de escrever. Comecei o risco das publicações por alguns trabalhos de pesquisa psicanalítica e filosófica. Um destes trabalhos, “Queridos pais, eu sempre os amei”, partiu de um texto de Kafka, O Julgamento (O Veredicto, em algumas traduções para o Brasil) [publicou-se parte deste trabalho aqui em 02/08/09]. Passo hoje a falar um pouco mais de Franz Kafka no blog do clube. Continuando assim movimentos anteriores: lendo Kafka, divulgando Kafka, escrevendo sobre, e sob, Kafka. Cumprindo meus votos pessoais, e os votos do clube Quase-Ser-Tão.

Magda Maria Campos Pinto


In Kafka vai ao cinema, Hanns Zischler, Jorge Zahar Editor, 2005.


“A circulação acelerada, le commerce dês choses, ameaçava tornar-se uma agonia para o turista, caso ele se expusesse à metrópole de maneira muito irrestrita. Kafka relacionou diretamente sua furunculose com a dor francamente corporal de ser esmagado por Paris. A cidade o exasperara, ele ficou à sua mercê, tal como o prisioneiro de Na colônia Penal é submetido à máquina de tortura grafológica que faz inscrições em seu corpo”.

“A calma do olhar parece o mais importante”.

“Agora, querida, pela primeira vez em muito tempo tornei a passar uma hora encantadora lendo. Não li nada em particular, mas folheei vagarosamente 200 páginas, examinei as imagens, e me detive apenas aqui e ali para ler algo de interesse especial”.

“Creio que não captaste como escrever é minha única possibilidade interna de ser”.

“Não venho eu contorcendo-me há meses diante de ti, como algo venenoso? Acaso não estou ora aqui, ora acolá? Ainda não estás enjoada de minha visão? Não vês ainda que devo continuar aprisionado em mim mesmo, para impedir a tua, a tua infelicidade,Felice? Não sou um ser humano, sou capaz de atormentar-te, a ti, a quem mais amo, a quem mais amo entre todos os seres humanos... Friamente, capaz de presumir friamente o perdão do tormento”.

“Vês algum sentido em O veredicto, isto é, algum sentido direto e coerente que se posa seguir? Não encontro nenhum e também nada consigo esclarecer. Mas há muito nele digno de nota”.


In Diários, Franz Kafka, Editora Itatiaia, BH, 2000.

9 de maio de 1912

Como, apesar de todas as atribulações, descanso sobre o meu romance como uma estátua que olha para a distância, descansa sobre o pedestal.


6 de junho de 1912

Leio hoje na correspondência de Flaubert: “O meu romance é a rocha em que me agrilho e nada sei do que ocorre no mundo”. Idêntico àquilo que eu anotei, quanto a mim em 9 de maio.


20 de agosto

Se pelo menos Rowohlt mo devolvesse (o manuscrito) e eu pudesse cerrar tudo e proceder como se nada tivesse sucedido, de modo que fosse tão desventurado como anteriormente.


23 de setembro

Esta história, O julgamento, eu a escrevi de um só fôlego na noite de 22 para 23, das 10 horas da noite às 6 horas da manhã. Com dificuldade consigo tirar de sob a mesa as pernas adormecidas, de tanto estar sentado. O esforço e a satisfação terríveis ao ver como a história tomava forma diante de mim, como se adiantava cortando as ondas. Por várias vezes, no correr da noite, carreguei todo o meu peso sobre as costas. Todas as coisas podem ser ditas, todas as idéias que chegam ao espírito, por mais abstrusas que sejam, são aguardadas por um enorme fogo onde sucumbem e ressuscitam. De que modo surgiu o azul diante da janela. Um carro rolando. Dois homens cruzaram a ponte. Aí por volta de duas horas olhei o relógio pela vez derradeira. Quando a criada passou pela primeira vez na antecâmara, escrevi a última frase. Apaguei a lâmpada. Claridade do dia. Algumas dores cardíacas. Cansaço desaparecendo pelo meio da noite. Adentrei com passos hesitantes no quarto de minhas irmãs. Leitura. Antes eu me espreguiçara diante da criada, dizendo: “Fiquei até agora escrevendo”. Aspecto de minha cama intacta, como se agora a tivessem arrumado. Certeza adquirida de que o meu processo de compor um romance ressente-se de uma vergonhosa depressão da minha capacidade de escrever. É apenas deste modo, é apenas num idêntico encadeamento que posso escrever,a favor de uma abertura de tal maneira integral da alma e do corpo. A manhã na cama. Olhar sempre desanuviado. Sentimentos vários sofridos no decorrer da redação: por exemplo, o meu contentamento de ter alguma coisa de belo para a ‘Arkadia” de Max, recordação de Freud, evidentemente, por vezes de Arnold Beer, de Wassermann, do ‘Gigante’ de Werfel, também, bem compreendido, do Mundo Citadino’.

(Praga, numa casa em que viveu Kafka)

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