sexta-feira, 30 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL


“Maria prestava tanta atenção pra se equilibrar direito, que não via apartamento passando, nem céu clareando, não via nada. Nem pensava em nada também. Só quando viu a antena de televisão bem perto é que um pensamento passou correndo e dizendo: vou saltar nesse terraço pra descansar. Mas na hora de saltar deu medo: vai ver saltando e descansando perdia a coragem de voltar. Então, mal chegou no fim da corda, se virou e voltou. Do mesmo jeito: só prestando atenção no equilíbrio do corpo.

Quando pulou de novo pro quarto, sentiu a perna bamba, a pele suada o coração adoidado. Sentou. Respirou fundo. Lembrou de Quico, virou num susto. Ele dormia a sono solto. Lembrou das janelas dos apartamentos, olhou em volta. Tudo quieto; o sol já estava de fora, mas ainda não se via ninguém. Olhou pro céu. Não tinha mais andorinha. E aí então Maria se encostou na cadeira e suspirou satisfeita: “Foi que nem lá no circo; bem alto!”.

Ficou quieta. Descansando. Pensando como tinha sido bom. Depois se debruçou na janela pra ver se a corda ainda estava bem presa (tinha uma jardineira na janela com três potes de gerânio; a corda estava amarrada ali), e quando levantou a cabeça reparou que a corda passava pertinho do andaime, “ah, que pena! Passei duas vezes na janela diferente, podia tão bem ter espiado lá pra dentro”.


In Corda Bamba, Lygia Bojunga, Casa Lygia Bojunga,23ª edição, RJ, 2008

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DIA INTERNACIONAL DA DANÇA

Segunda homenagem do Quase-Ser-Tão ao DIA INTERNACIONAL DA DANÇA:


ao professor Vagner


à professora Katherine




Mestres queridos, capazes de promover nossa alegria e prazer pela vida. Parabéns pra vocês. Somos mais felizes por estarem conosco.




29 de abril: Dia Internacional da Dança


Primeira homenagem do Quase-Ser-Tão ao Dia Internacional da Dança: obras primas... Insuperáveis momentos da criação: tudo junto e lindo! FANTASIA! Este filme é de 1940. Para se deliciar e começar a dançar... todo mundo...


http://www.youtube.com/watch?v=50BbVQfg174&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=FTlnV6_uaK4&feature=related

Poeta

Fronte


Sua cabeça levanta

E seus olhos cruzam o sol

Força e honra

A guerra está em você


O peso da armadura

Faz doer seus ombros

A chuva molha seu caminho

Banha-Lhe a face


Não empunhe a espada

A mesma canção

E suas certezas embaralharam-se

Por favor fujam


Não incomodam feridas

Ataca como memória

Inimigos são invisíveis

Derrotas meras estesias

Todos, o que, quem

Esse ou isto

Pouco a pouco




Lucas Parma/2005


quarta-feira, 28 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

12.

Quero encolher-me mais, mas não é possível. Perdi a compostura. Estou dobrada, meus braços abraçam as pernas e o pescoço pende sobre os joelhos. Relanceio o redor. Imagino um porto. Ele está aqui de volta, o anjo, inteiro, suavemente pousado, silencioso diante de mim. Eu olho com ternura, e ele é uma bela ave, em cores azuis. Múltiplos azuis. Diante deste pássaro, sinto uma súbita saudade de Proust, como se eu tivesse algo urgente para dizer a Proust. Assim vivendo uma vez mais a derrota nossa de cada dia, eu e a memória olhamos de novo para ele. Uma camisa jeans o envolve como um pelo azul que parece não aquecer suficientemente. Tenta dissimular o tremor. Tenta dissimular um temor. De repente, quer reagir, quer soltar a dissimulação. Mas não consegue; se esquece e se solta. As lágrimas rolam. Ele diz:
- Você acredita que se alçarmos à condição de anjos, à condição de puro olhar, ouvir, tocar...
- Anjo é assim, não é? Pura sensação, sensação pura.
- Nada mais tem importância? Só sentir? Sentir faz tudo acontecer? Tudo se resolve com o puro sentir?
- Com o sentir puro.
Wolf não está ouvindo. Ele fala, pergunta e chora. Não quer ouvir, quer apenas clamar. Nunca o vi assim, tão perfeitamente humano. Nunca vi me assim diante dele: calmamente lúcida. Ele clama:
- Não mais violência? Seríamos animais felizes? Se o estético bastasse? Mandasse?
- Animais mortais e pacíficos. Justos. Ocupados com o sentir.
- É ridículo.
Ele quase berrou; foi um escape, eu sei. Ele está transtornado, mas fiquei puta assim mesmo. Senti ódio; por que me chama de ridícula? Sempre foi assim, se começa a se sentir, me ataca. E agora que chegou ao cúmulo da emoção, berra comigo. Que ódio; vou-me embora, pronto! Fui, sumi pra dentro de mim, baixei a cabeça, escondi meus olhos, comecei a recitar pensando “todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas; também escrevi em meu tempo cartas de amor. Como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia em dar por isso. Cartas de amor ridículas...”
Sinto o pouso suave de sua mão sobre minha cabeça, um hálito ardente me bafeja. Vacila, desiste do carinho, estremece novamente, soluça e leva as mãos à cabeça como quem vai arrancar os cabelos. Mas apenas toca o crânio quase raspado. Espero por uma explosão vulcânica; quero uma explosão vulcânica! Quero que Wolf exploda! Por mim, por ele.
A explosão não vem, ele já se acalmou. Abre largamente o peito, respira fundo e alonga os braços disfarçadamente. Dobra o pescoço para trás e estica lentamente as pernas. Respira com vagar. E se volta pra mim. Seu olhar brilha outra vez, não há mais lágrima nem medo. Há uma coisa nova: ele está grato, sem se sentir pequeno. Pelo contrário, ele cresceu mais e diz isso com os olhos. Começa a se exibir, silente.
Como eu gosto! Bebo inteira essa beleza, me afogo, cada sentido solta o seu sentir inteiro. São ondas que me tomam, ou melhor, são ondas em que me transformo; experiência única e múltipla; o belo em si diante de mim, em mim; assisto; vejo o anjo do Wim Wenders, a câmara do Wim Wenders, girando tão leve como a gente pensa que gira um olhar de anjo, e sinto a dor que ele sente agora, como a dor que a gente imagina que anjo sente, absurdo, tudo absurdo como sentimento de anjo... Ouço um sussurro:
- Nesse caso pode-se morrer.
- Nesse caso, sim. Sem escândalo.
Ele retoma o silêncio, e está imerso em indizível tristeza. O estético princípio. O estético fim. Substantivo: encontro. Agora ele é a palavra, a letra, o porto, a saída, o anjo, o filme, a câmara, o Wenders, a dor, a beleza e a alegria. Tudo meu. Ele é a resistência. Ele é eu. Somos. Alguém falou:
- A beleza contra a violência.
- Devemos ir à exaustão. Pessoas que chegaram lá, no exaurir-se, encontraram a morte ou a loucura, e agora, eu a pensar que uma e outra podem ser outra coisa: a liberdade.
- Digo que podem ser.
Nos assustamos de repente. Como se acordássemos. Recolocamos a máscara. Reaparece o professor de literatura.
-É exageradamente pessoal. Você precisa de algo mais universal, mais inteligível. Pense: e o Estado?
Eu me esforço para seguir o tom, mas não consigo. Me perco.
- Pára com isso! Que importa o exagero? Sair do círculo do pessoal, é isso? Pela responsabilidade que lhe é própria! Pronto! Pela ousadia da conversa, quando se diz: ‘ eu digo’, ‘eu quero’... Por que você recua?
Sou eu, boba novamente. Ele tolera, perdoa. Me suporta.
- Volte para o romance. Vá, eu escuto.
Obedeço. Mas peço:
- Amanhã?
Magda Maria Campos Pinto

LITERATURA NO QUINTAL


(...)

“Dona Maria Cecília Mendonça de Melo começou a rir do espanto da neta. Maria rodeou a mesa pra poder ver o presente: de onde estava só dava pra ver a cara da Menina: testa franzida, boca meio aberta. O presente era uma velha. Mas não era de acrílico nem de borracha, era uma velha de verdade, gente de carne e osso. A Menina olhou pra avó.

-É isso mesmo, minha boneca: essa velha é pra você. Quando você quiser ouvir história é só mandar: história! E pronto, ela conta.

A Velha fez força com a cara e sorriu; quis ficar olhando pra Menina, mas o olho disparou pra mesa de doces. A Menina olhou o lenço que tapava o cabelo da Velha: desbotado; o vestido da Velha: chitinha de flor com dois remendos do lado; o sapato da Velha: um sapato de tênis que tinha perdido o cordão.

- Deixei ela assim mal vestida de propósito, sabe, meu anjo? Achei que você ia querer falar com a costureira pra brincar de encomendar guarda-roupa.

O olho da Velha passou por bolo, quindim, pastel, acabou parando no sanduíche de presunto. A Menina não se mexia: mas podia? A gente podia ganhar gente de presente?

- Sabe por que que eu escolhi essa velha, minha boneca? Porque ela é a maior contadora de história que existe por aqui. Você adora história, não é? Pois é, na hora que você cansar de ler é só dizer ‘conta!’, e ela conta. Não é bom? Mas por que que você ta me olhando desse jeito? Você não tá acreditando que ela agora é sua?

Virou pra Velha:

- Fala com a minha neta.

A Velha tirou correndo o olho do sanduíche:

- Oi.

-Conta como é que chamam você.

- A Velha da História.

- Diz por que que eu comprei você .

- Pra contar história pra ela.

- Então conta uma de amostra.

- De coisa? De bicho? De gente?

- De coisa.

- Grande? Pequena?

- Bem pequena.

- Uma linha grossa queria passar no buraco de uma agulha fina. Todo mundo disse: “não adianta, não passa! ’. Mas ela cismou que passava, e tanto cismou que passou. Fim. História menor eu não sei.

Suspirou. Olhou pra mesa de novo.” (...)

in CORDA BAMBA, Lygia Bojunga, 23 ª edição, Casa Lygia Bojunga, RJ, 2008.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Grande Ser Tão...

“Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemén diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente.” (G. Rosa)

(Queremém de Gois - óleo sobre madeira - Renan Xavier)

LITERATURA NO QUINTAL

“Os que amam ardentemente os livros constituem sem que saibam uma sociedade secreta. O prazer da leitura, a curiosidade por tudo e uma maledicência sem idade os une.
Suas escolhas não correspondem jamais às dos comerciantes, dos professores ou das academias. Eles não respeitam o gosto alheio e se refugiam antes nos interstícios e nas dobras, na solidão e no esquecimento, nos confins do tempo, nos costumes apaixonados, nas zonas de sombra.
Formam para si mesmos uma biblioteca de vidas breves. Lêem-se entre, no silêncio, à luz das candeias, no recanto da biblioteca, enquanto a classe de guerreiros se mata ruidosamente e a dos comerciantes se entredevora, esbravejando sob a luz que cai a prumo sobre as praças dos burgos.”


CODA: Pascal Quignard, citado por Ruth Silviano Brandão em A vida escrita, 7Letras, RJ, 2006.

(foto: Literatura no Quintal, Clube de Arte Quase-Ser-tão)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

MEU MUNDO SEGUNDO VOCÊ

11.

- Então você dizia que queria escrever sobre uma mulher contemplativa que desemboca numa viagem sobre a loucura e que vai dizer que loucura é a desistência da conversa; disse que quer saber sobre o que faz as pessoas conversarem ou desconversarem, certo? E que a mulher contemplativa, nesse caso, virou você, isto é, eu, ele, qualquer um...
- Você já escreveu meu romance?
- Eu não, estou pacientemente te ouvindo.
- Pacientemente...
- Esquece. Estou adorando te ouvir.
Eu ri. Ele também.
- Não seja tão séria, Lóri! Não temos o que fazer, e você faz melhor. É mais bondosa. Leia. Depois a gente briga outra vez.
Quase não resisti e comecei logo uma discussão mas me contive, e enfrentei o romance:
- No princípio, o ‘entre nós’, o ‘intervalo’ é só estranheza, quero dizer, é familiar e desconfortável ao mesmo tempo, compreende? É ameaçador porque a intimidade é sentida e não dita, não falada. Não é falada porque no começo a intimidade é quase sempre desconfortável. Talvez a primeira intimidade, o primeiro ‘entre nós’ seja necessariamente incômodo; temos de trabalhar muito para que o ‘entre nós’ fique bom, para que seja um ‘entre nós’ amoroso. Eu quero tratar disso no meu romance. Penso que a doença mental é a caricatura da estranheza, do mal estar que a presença do outro – tão parecido comigo! – me causa. Talvez eu não consiga escrever nada, talvez nada disso tenha sentido.
- Você disse que não existe razão num romance, vá em frente. Leia. Não quero explicações. Sem birra, por enquanto.
E ele riu. Ri também. Retomei a leitura.
- No terceiro dia você vai trabalhar no fim da tarde e chega junto com as visitas. Todo mundo está falando ao mesmo tempo. Você se sente mínimo, miniaturado, abre passagem sem querer ver por onde passa, não sabe o que vê, não vê quem você vê. Todos estão falando a mesma ladainha – ‘eu não posso fazer nada’ – e você não quer repetir isso. Mas é difícil não sucumbir a uma ladainha, você ouve, ouve, ouve. Ninguém quer saber de alguém capaz de dizer: ‘a intimidade com você é desagradável’, ‘você é minha família e isso é horrível’. Só um louco diria isso, então, ele é tirado de perto da gente. Ele é louco, eu não posso fazer nada. E você... Você sente náuseas. Ninguém faz nada, ninguém tenta interromper a ladainha, nem você, que fica mudo.
- Hummm. Um desconforto familiar.
- Bem conhecido, conhecido até demais. Mas não reconhecido. Fica nauseado mas mudo, pois é o âmago para o qual você não tem palavras. Então, como ninguém diz nada de novo, a encenação tem que recomeçar: alguém agradece um cigarro e repete o absurdo ‘Deus lhe pague’, e você que ouve a ironia no absurdo, fica mais mudo e mais perplexo; de repente gritos rompem sua paralisia: ‘como é que você quer que eu viva sem liberdade?’A frase ecoa quase infinitamente porque todos que não tinham nada a dizer começam a gritá-la tal como se gritava ‘abaixo a ditadura’, então uma urgência que você não sabe nomear surge dentro de você, mas você é lento, os gritos se tornam ‘o povo unido jamais será vencido’ e agora você não sabe mais se ouve ou alucina. Ou apenas se lembra.
- Indizível incômodo.
- E nenhum romance.
- É um romance. Você terá que se tornar um eu.
Wolf falou sem fôlego e estava completamente triste. Olhou para mim como se nunca me tivesse visto. Havia surpresa, e também misericórdia. É. Era misericórdia; e era tristeza. Uma tristeza que eu nunca vira. Ele adivinhou.
- Sinto piedade de mim mesmo, e nenhuma de você. Sossegue. Sinto também vergonha da auto-piedade. Sei o que acontece quando um você se torna um eu. E não tenho coragem de escrever sobre isso; sei que você também sabe como é, e que não sossegará enquanto não escrever. Você não sabe fingir a verdade; só finge a mentira. Eu, pelo contrário. Você me entende, não é?
Jamais ouvira tanta doçura de Wolf, embora eu soubesse sempre da sua doçura, que ele sempre negou. E continuará negando, eu sei. Comecei a tremer. Sabia por quê. Tive de dizer:
- Tenho medo. Não sei se suporto tanta intimidade. Você sabe de mim. Eu sei de você. Neste momento, é bom, mas tenho medo do depois. Você é diferente. Sabe ficar no agora.
- Eu tenho medo. Ser humano é um escândalo... desculpe-me mas faz algum tempo me apoio em você para não me afogar.
Wolf parou de falar e de sorrir. E chorou.
Magda Maria Campos Pinto

Parceria nova!

Gente nova no clube! O site VICAMISETAS com trabalhos originais da designer Laene Mucci agora é parceiro do clube Quase-Ser-Tão. Vá ali e encontre beleza, qualidade e arte genuína. Logo logo anunciaremos nosso trabalho conjunto. Aguarde e Verifique!




domingo, 25 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL

Aconteceu com aconchego e descontração o primeiro encontro no quintal do Clube Quase-Ser-Tão. Conhecemos um pouco de Lygia Bojunga, brincamos, comemos, conversamos...

Ganhamos, doamos e emprestamos livros e revistas. Em breve, nos encontraremos novamente. As notícias estarão sempre aqui, no blog do clube.


Conhecemos os premiados do concurso PEDAÇOS:

1º LUGAR: Janela da Alma – Maria Eduarda

2º LUGAR: Minhas mãos e meus pés são coloridos... – Sofia Soares

3º LUGAR: Minhas mãos – Carol Dantas


Agradecemos aos participantes e pedimos aos contemplados que enviem pelo email seus endereços para que recebam os prêmios pelo correio. Aguardem o próximo concurso, continuaremos trabalhando a consciência corporal. Fotografem-se!



O encontro aconteceu assim como a gente gosta: todos juntos, cada um com todos, todos com cada um, todos com todos... a favor dos encontros e da arte. Pela vida.


"Uma escrita que sustenta a vivência frágil do indivíduo contra a arbitrariedade bárbara da história"

“Mas, se nossa postura ante a história não for existencial, ou seja, se não tiver uma natureza criativa, existe razão para duvidarmos das afirmativas segundo as quais os capítulos mais negros do século, como, por exemplo, o nacional socialismo, não podem se repetir. E por que não poderiam? Tudo o que hoje em dia na Europa – e no mundo – vivemos, nossa civilização, nosso modo de vida, nossos conceitos, o melhor, a falta deles; a ruptura entre o mundo individual e o histórico-social: em meio à funcionalidade, à produtividade, à engrenagem da empresa da civilização, a divisão entre a ‘alma’ e o ‘interesse’, entre a esfera pessoal e as condições de sustentação dessa esfera pessoal empurram o indivíduo e a sociedade para uma situação cada vez mais esquizofrênica;e a impotência dos intelectuais, a para da fome insaciável de ideologia da intelectualidade do nosso tempo, mais mortífera que a AIDS ou os narcóticos – tudo isso, e as manifestações de pobreza de imaginação, e a miséria espiritual do nosso século demonstram que essa repetição é mais que provável. Quem não vê que a democracia não consegue – ou não deseja – corresponder à ordem de valores erigida por ela mesma, que em lugar nenhum se entalham na pedra as leis que não podem ser transgredidas, que ninguém desenha os ideais pelos quais vale a pena viver?
(...)
É fato que neste século tudo se desvelou, ao menos uma vez tudo mostrou a verdadeira face, tudo se tornou mais real. O soldado converteu-se em assassino por vocação; a política em atividade criminosa, o exterminador aparelhado com fornalhas para queimar cadáveres numa grande empresa, o jogo sujo da lei numa norma, a liberdade universal na prisão dos povos, a anti-semitismo em Auschwitz, o sentimento nacionalista em genocídio. Em todo lugar transparece a intenção verdadeira, a realidade nua; a força e a destrutividade ensangüentaram alguns dos ideais do nosso século. Talvez estejamos na situação que o maior conhecedor da alma da nossa época, Franz Kafka, assim formulou: nossa tarefa é acabar com a negatividade; o que era positivo já se rendeu.
Essa frase curta abre uma perspectiva extraordinária, leva até a criação, aos primórdios míticos do destino da humanidade. Mas por que não poderíamos traduzir essas palavras também do ponto de vista da história? Passou certo tempo, uma certa postura humana parece irrecuperável, como a idade, a juventude. Que postura era essa? O espanto do homem com a criação; a admiração embevecida ante a vida, a alma, a matéria que se decompõe – o corpo humano; desapareceu o espanto com a existência e, com ele – na realidade - respeito pela vida.
(...)
Talvez o mundo nunca tenha se visto ante uma necessidade tão grande de uma parada, de um descanso deliberado no sentido espiritual, como hoje em dia. Parada para avaliar a situação e reformular os valores – na medida em que ainda se dê algum valor à vida; e na realidade essa é a principal pergunta a fazer.
(...) O que é o bem? O que é o mal? Como se deve viver? As palavras de Tchekhov, o grande escritor, ecoam em meus ouvidos, de um século de distância: “Não sei, juro pela minha alma, pela minha honra, eu não sei”. Mas como um eco à palavra do grande artista russo, ou talvez como um coroamento, permitam-me encerrar com a frase de Camus, a qual cabe tão bem aqui: “E eu ainda não falei da figura mais absurda, do homem que cria”.



CODA: Com a frase título desta postagem, a Academia Sueca apresentou a obra de Imre Kertész ao anunciar o ganhador do Nobel de Literatura de 2002. In A língua exilada Imre Kertész, Companhia das Letras, tradução de Paulo Schiller, SP, 2004. Os fragmentos acima foram retirados do discurso proferido no recebimento do Prêmio Nobel de Literatura em 2002, intitulado HEURECA. Imre Kertész nasceu em Budapeste, em 1929; foi deportado para Auschwitz aos 15 anos de idade, e depois para Buchenwald, de onde foi libertado em 1945. De volta à Hungria, trabalhou como jornalista e traduziu obras de Nietzsche, Wittgenstein, Canetti e Freud, entre outros. A partir de 1955 escreveu ensaios e romances autobiográficos, sempre acertos de contas com a vida aprisionada pelos dois grandes totalitarismos do século XX.

Como afirmou Nelson Ascher, na "Folha de S. Paulo", no ano em que um laureado anterior (José Saramago) comparou a situação em Ramallah a Auschwitz, o Nobel de Literatura concedido a Kertész constituiu um corretivo absolutamente necessário: o autor premiado é alguém que lá esteve, não num lugar comum metafórico, mas no verdadeiro campo de extermínio.
Algumas Obras de Imre Kertész:
Sem destino, 1975; O rastreador, 1977; O Fiasco, 1988; Kadish por uma criança não nascida, 1990; A bandeira inglesa, 1991; Diário Gallery, 1992; O Holocausto como cultura; Eu - Outro; Momentos de silêncio; A língua exilada.

sábado, 24 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL



Quase-Ser-Tão estréia a temporada 2010: ARTE NO QUINTAL. Hoje, então, a partir de 15 h tudo junto para todo mundo ao mesmo tempo.... circo no quintal, homenageando o livro e Lygia Bojunga... Até aqui então...