quarta-feira, 7 de abril de 2010

Kafka, mais um pouco.


in Diários, Franz Kafka, Itatiaia Editora, BH, 2000.


18 de outubro de 1921

Tempo eterno da meninice. Outra vez um chamado da vida.

É totalmente concebível que a maravilha da vida esteja difundida em torno de qualquer um e isso sempre na plenitude, porém velada, na intimidade, muito distante. Acha-se além nada hostil, nada refratária nem surda.

Chamemo-la coma palavra adequada, pelo seu nome real, aí ela vem. Nisso reside a essência da magia que não cria, porém invoca.


2 de novembro de 1922

Vaga esperança, vaga confiança.

Uma intérmina e perturbadora tarde de domingo; uma tarde que consome anos inteiros, formando-se de anos. Passada alternadamente com desespero nas ruas vazias e no canapé, já mais tranqüilo. Algumas vezes, espanto perante o contínuo desfilar de nuvens incolores sem significado. “Estás reservado para uma soberba segunda-feira!”

- “Bem falado, porém, o domingo não termina nunca”.


12 de junho de 1924

Sempre ansioso no instante de escrever. Isso se compreende. Cada termo, na mão dos espíritos – este impulso da mão é o toque que os caracteriza – torna-se uma flecha atirada àquele que fala. E muito especialmente uma observação como esta. E assim até ao infinito. O consolo estaria em que pudéssemos dizer: Tal sucederá, quer o desejes, ou não. E a tua parte de vontade apenas debilmente colabora. Mais do que o consolo, seria poder verificar: Tu também possuis armas.



Fragmentos de CARTA A MEU PAI, Franz Kafka, Hemus - Livraria Editora Ltda. SP, 1970.


(...)

Curiosamente, tens um pressentimento daquilo que desejo dizer-te. Assim, por exemplo, há pouco me disseste: “Sempre te quis bem, ainda quando exteriormente não procedi como costumam fazê-lo outros pais, exatamente porque não posso fingir como eles. Pois bem, pai, jamais duvidei de tua bondade para comigo, no aspecto total, mas acredito que tua observação peca por inexatidão. Não podes fingir, isso é verdade, mas querer afirmar que apenas por essa razão que todos os outros pais fingem é, seja simples estupidez,que torna impossível prosseguir discutindo, ou seja a expressão encoberta de que entre nós existe algo que não está em ordem, e que tu contribuíste para fazer nascer, mesmo sem culpa. Se realmente esta é tua opinião, estamos de acordo.

(...) Rogo-te, pai, compreende-me bem, estas teriam ido futilidades carentes de qualquer importância, que me deprimiam somente porque tu, o homem tão significativamente decisivo para mim, não cumprias os preceitos que me impunhas. Por isso eu dividia o mundo em três partes: uma, onde eu vivia, o escravo, regido por leis inventadas exclusivamente para mim, às quais, além do mais,e não sei por que não podia adaptar-me completamente; depois, um segundo mundo, infinitamente afastado do meu, no qual vivias tu, ocupado em governar, distribuir ordens e aborrecer-se porque não eram cumpridas; e por fim, um terceiro mundo, onde vivia o povo livre e alegremente, sem ordens nem obediência. Eu sempre estava em posição ignominiosa; já seja obedecendo tuas ordens, que me amarguravam porque apenas valiam para mim, ou adotando uma atitude de esperteza, o que também era irritante, pois era impossível manter-se obstinado diante de ti, simplesmente não podia satisfazer-te porque não possuía, ainda que o desses por subentendido, por exemplo, tua força; nem o teu apetite, nem tua habilidade; esta era, sem dúvida, a vergonha maior.”



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