segunda-feira, 5 de abril de 2010

KAFKA, um pouco mais.

(ilustração www.jonseymonkey.co.uk)


In Diários, Franz Kafka, Editora Itatiaia, BH, 2000.


21 de junho de 1913.

O prodigioso mundo que eu tenho na cabeça. Como, entretanto, me libertar e libertá-lo sem me espedaçar? E de preferência ser mil vezes espedaçado do que conservá-lo em mim ou enterrá-lo. Estou aqui para tanto, inteiro-me perfeitamente disso.


6 de agosto de 1914.

Analisado do ponto de vista literário, o meu destino é muito simples. O talento que eu possuo para passar a limpo a minha vida íntima, vida que está aparentada ao sonho, fez com que todo o resto caísse no acessório, e tudo o mais secou horrivelmente, não cessa de secar. Nada senão isso terá o condão de me satisfazer. Ora, a força de que eu posso dispor para realizar essa narração é totalmente imprevisível, pode ser que já me tenha abandonado definitivamente, pode ser que ainda me torne a surgir, ainda que evidentemente as circunstâncias em que vivo não a favoreçam em coisa alguma. Estou, portanto, flutuante, lanço-me sem descanso para o topo da montanha, porém somente com dificuldade ali posso estar um momento. Outros estão flutuantes também, porém em regiões mais baixas e com mais energia. Se ameaçam tombar, são apanhados na queda pelo parente mais chegado que anda ao seu lado e ali se acha para isso. Eu flutuo, porém, nas alturas, não é desventuradamente a morte, são os eternos tormentos da agonia. (...)


15 de setembro de 1917

Tens, na medida em que existe esta possibilidade, a possibilidade de ter um princípio. Não a ponhas fora. Não serias capaz de evitar as manchas que, do imo de ti mesmo, sobem à superfície, se desejares aprofundar-te em ti. Contudo, não te atoles nisso. Se a lesão pulmonar não é senão um símbolo, tal com o dizes, símbolo de uma ferida cuja pústula se chama F... e cuja profundidade tem o nome de justificação, então os conselhos do doutor (luz, ar, sol, descanso) também são um símbolo. Apega-te a este símbolo.

Ó hora estupenda, serenidade perfeita, jardim inculto. Tu sais para empreender uma volta à casa e na área do jardim a deidade da ventura atira-se para ti.

Seria, pois, à morte que eu me confiaria. Resto de uma fé. Retorno ao pai. Grande jornada de reconciliação.

Soberana aparição, príncipe do Império.


6 de julho de 1919.

Sempre idêntico pensamento, o desejo, o medo.

Entretanto, sinto-me mais calmo do que o habitual, como se uma imensa mudança estivesse para acontecer da qual eu constituísse o distante frêmito. É ir muito longe.


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