terça-feira, 20 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL

“(...)
- Quando eu nasci a minha mãe e o meu pai não tinham dinheiro nem pra comprar um berço.
- Quando eu nasci a minha mãe comprou sete: cada dia da semana eu dormia num.
- Pra que?
- Pra já ir me acostumando a ter uma porção de tudo.
- Hmm.
- Que é? Você ficou de cara triste.
- É que desde que eu nasci me acostumaram a ter uma porção de nada.

Se olharam. Sérios. E se eles só fossem parecidos de nome?

- Conta mais, - ela pediu (meio suspirado). E ele contou:
- Eu tinha sempre o mesmo brinquedo: um barco.
- Eu também tinha um barco. Lindo. Com marinheiro, cabine, geladeira, tudo. Ficava no Iate Clube. Me esperando pra passear.
- Meu barco era de jornal. Quando chovia fazia rio na minha rua e eu soltava ele, era legal. Quando rasgava eu fazia outro.
- Faz um pra me dar?
- De papel?
- Que nem os que você fazia pra brincar.
- Pra que você quer?
- Pra ter uma coisa que você fez, você faz?

Ele pulou pro andaime e num instantinho fez: pegou um jornal que servia de travesseiro, rasgou, dobrou daqui e dali. Um barco bonito mesmo, com uma vela bem grande. E tinha anúncio na vela: “Precisa-se de cozinheira. Trivial simples. Paga-se bem. Tinha notícia horrível também: “Matou a mulher e depois se atirou do Pão de Açúcar”. Tinha até o retrato do Robert Redford no último filme que ele fez.
Márcia pegou o barco:

- Que lindo! Vou guardar no meu quarto.

Marcelo sentou outra vez junto dela. Se olharam. Ela tinha o cabelo bem liso e ele tinha o cabelo ondulado, ele era alto e ela era miudinha, ele era meio alourado e ela era mais pra morena, a mão dela era pequena e a dele grande assim, se olharam bem, quanta coisa parecida!
(...).”

In CORDA BAMBA, de Lygia Bojunga Nunes, 4ª edição, Civilização Brasileira, 1982.



Nenhum comentário:

Postar um comentário