quinta-feira, 22 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL


“(...)


Deu um vento tão forte que empurrou Maria pra dentro. A porta bateu. Veio um cheiro de mar.


No princípio nem deu pra ver nada direito: o cabelo desatado voava feito doido, tapava o rosto, e Maria se agarrava na porta, achando que ia voar também. Mas depois o vento acalmou e ela viu o barco chegando. Achou até que estava sonhando: era o barco de jornal que Marcelo tinha feito pra Márcia. Mas não era sonho, era ele mesmo. A mesma vela: precisando de cozinheira, contando que o homem se jogou do Pão de Açúcar, mostrando o retrato do Robert Redford. Só que agora o barco era grande, do tamanho de um barco de verdade. E o chão do quarto era um mar. Sentiu o pé afundando na areia; olhou. Só tinha uma tira de areia entre a porta e o mar.


O vento ia assobiando e jogando a vela do barco pra cá, pra lá. Cada vez que a vela mudava de lado fazia tlá.
O barco veio chegando, veio chegando.
De repente, o vento sumiu. O barco parou bem na frente de Maria. E ela viu Márcia e Marcelo abraçados, deitados no fundo do barco; um olhando pro outro. Se beijaram. Com cuidado. Que medo que um tinha de machucar o outro até num beijo.


Maria foi bem pra beirinha da areia olhar pros dois. Que bonito que era eles tão juntos, feito m só. Começou a se sentir alegre. Uma alegria assim de quem sabe que uma coisa linda está acontecendo.


O vento deu uma soprada (uma só) e – tlá – a vela mudou de lado e tapou Márcia e Marcelo. A alegria de Maria foi crescendo, foi crescendo. Uma alegria que ela nunca tinha pensado que dava pra sentir. Fechou os olhos e ficou esperando. Até que, de repente: tlá! Outra soprada de vento mudando a vela e destapando Márcia e Marcelo. Maria até se assustou com o barulho, olhou. Os dois estavam sentados, Márcia com a cabeça no ombro de Marcelo, ele fazendo uma festa na barriga dela. Mas a barriga dela agora era grande.
Márcia estava esperando bebê.


Maria já não conseguia mais ficar quieta de tão alegre, que coisa linda era aquela que já estava acontecendo, mas que ainda ia acontecer? E meio que ria, meio que engolia a vontade de gritar. Tlá! Os dois sumiram de novo atrás da vela.


Maria foi escorregando pro chão; tanta alegria assim deixava ela até confusa, agora tinha vontade chorar. Caiu na areia. De perna mole até. Só levantou quando ouviu a vela mudando da lado, e levantou num pulo porque ouviu o choro de um bebê também . Márcia e Marcelo estavam segurando acriança que tinha acabado de nascer. Maria espichou o pescoço, louca pra ver. Luca pra se ver. Quis gritar “Nasci! O bebê no barco sou eu”!, mas a emoção era tão grande que o grito não saiu”.


In Corda bamba, Lygia Bojunga, Civilização Brasileira, 4ª edição, 1982.

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