quarta-feira, 28 de abril de 2010

LITERATURA NO QUINTAL


(...)

“Dona Maria Cecília Mendonça de Melo começou a rir do espanto da neta. Maria rodeou a mesa pra poder ver o presente: de onde estava só dava pra ver a cara da Menina: testa franzida, boca meio aberta. O presente era uma velha. Mas não era de acrílico nem de borracha, era uma velha de verdade, gente de carne e osso. A Menina olhou pra avó.

-É isso mesmo, minha boneca: essa velha é pra você. Quando você quiser ouvir história é só mandar: história! E pronto, ela conta.

A Velha fez força com a cara e sorriu; quis ficar olhando pra Menina, mas o olho disparou pra mesa de doces. A Menina olhou o lenço que tapava o cabelo da Velha: desbotado; o vestido da Velha: chitinha de flor com dois remendos do lado; o sapato da Velha: um sapato de tênis que tinha perdido o cordão.

- Deixei ela assim mal vestida de propósito, sabe, meu anjo? Achei que você ia querer falar com a costureira pra brincar de encomendar guarda-roupa.

O olho da Velha passou por bolo, quindim, pastel, acabou parando no sanduíche de presunto. A Menina não se mexia: mas podia? A gente podia ganhar gente de presente?

- Sabe por que que eu escolhi essa velha, minha boneca? Porque ela é a maior contadora de história que existe por aqui. Você adora história, não é? Pois é, na hora que você cansar de ler é só dizer ‘conta!’, e ela conta. Não é bom? Mas por que que você ta me olhando desse jeito? Você não tá acreditando que ela agora é sua?

Virou pra Velha:

- Fala com a minha neta.

A Velha tirou correndo o olho do sanduíche:

- Oi.

-Conta como é que chamam você.

- A Velha da História.

- Diz por que que eu comprei você .

- Pra contar história pra ela.

- Então conta uma de amostra.

- De coisa? De bicho? De gente?

- De coisa.

- Grande? Pequena?

- Bem pequena.

- Uma linha grossa queria passar no buraco de uma agulha fina. Todo mundo disse: “não adianta, não passa! ’. Mas ela cismou que passava, e tanto cismou que passou. Fim. História menor eu não sei.

Suspirou. Olhou pra mesa de novo.” (...)

in CORDA BAMBA, Lygia Bojunga, 23 ª edição, Casa Lygia Bojunga, RJ, 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário